A educadora e empreendedora digital, Daniella Vicuuna, durante entrevista ao BC TV


Por Germano Oliveira (SP) e Adriana Blak (RJ)

O universo das milhas aéreas, antes restrito a viajantes frequentes, tornou-se parte da rotina financeira de milhões de brasileiros. Mais do que um benefício secundário do cartão de crédito, os pontos passaram a ser tratados como um ativo de valor que exige estratégia e gestão consciente.

Em entrevista ao programa BC TV, do Brasil Confidencial, a educadora e empreendedora digital Daniella Vicuuna destacou que o segredo não está em gastar mais, mas em gastar melhor usando os pontos auferidos.

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“O mito de que as milhas são complicadas afasta as pessoas. Muitas já têm o que precisam para viajar mais barato hoje e nem imaginam”, afirmou.

Segundo Vicuuna, o cartão de crédito continua sendo a principal porta de entrada, mas não é a única. Nos últimos anos, ganharam força as compras online bonificadas, realizadas em plataformas vinculadas a programas de fidelidade, que oferecem pontos extras em transações cotidianas. Outro fator decisivo são as campanhas promocionais de transferência de pontos entre bancos e companhias aéreas, que em determinados períodos podem render bônus significativos e multiplicar o saldo acumulado sem necessidade de aumentar o consumo.

Apesar da disseminação dos programas de fidelidade, o desperdício ainda é elevado. Milhares de pontos expiram todos os anos por falta de informação prática.

“Muitas pessoas já têm milhas acumuladas, mas não sabem como utilizá-las ou simplesmente deixam expirar”, observou Vicuuna.

Esse desconhecimento mantém a percepção de que viajar é caro, mesmo quando alternativas mais acessíveis estão disponíveis. Para ela, entender o funcionamento de programas como Livelo e Esfera é o primeiro passo para transformar pontos em economia real. Além de passagens aéreas, os pontos podem ser convertidos em hospedagens, passeios e até aluguel de carros.

“As milhas têm valor financeiro. São uma espécie de moeda que, quando não utilizada corretamente, simplesmente se perde”, comparou.

Com planejamento, disse, é possível reduzir em pelo menos 50% os custos de viagens, nacionais ou internacionais. Vicuuna lembra que o crescimento acelerado do saldo depende menos do volume de gastos e mais da combinação entre “conhecimento, planejamento e aproveitamento” de campanhas promocionais.

Na prática, o uso adequado dos pontos permite a emissão de passagens e experiências completas de viagem, reduzindo significativamente os custos. Há casos em que viagens são realizadas com pontos acumulados ao longo de poucos meses de consumo planejado.

A especialista enfatiza uma mudança de percepção crescente: as milhas deixam de ser vistas apenas como um benefício secundário do cartão de crédito e passam a ser tratadas como um ativo que exige estratégia e gestão consciente.

Delegada de polícia do Estado da Paraíba e professora universitária, Daniella Vicuuna se tornou uma influenciadora dedicada ao tema de orientar sobre resgatar e usar pontos em cartões e compras. Ela usa as redes sociais para dar cursos e ensinar as pessoas a como usar corretamente os pontos que acumulam em suas compras e cartões.

Hoje, ela é seguida por 193 mil pessoas que se interessam pelo assunto e tiram vantagens das orientações que transmite. Tanto que criou um curso para ensinar qualquer um a tirar vantagens do sistema: “Voando Mais com Milhas”.

Ela disse que viaja com milhas há duas décadas e agora ensina as pessoas “a economizar de forma consistente” e aproveitar as vantagens dos pontos. Ao longo do tempo, disse ter acumulado 20 milhões de milhas, que lhe renderam uma série de benefícios.

Vicuuna já recebeu três indicações ao Prêmio Passageiro de Primeira como Melhor Influenciadora de Milhas do Brasil. Para ela, o acesso à informação é decisivo:

“Quem entende o sistema consegue transformar consumo cotidiano em viagens e experiências reais.”

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Germano Oliveira – Daniela, como funciona esse processo de acumular milhas? Qualquer pessoa consegue atingir um volume tão alto, como um milhão de milhas em um ano, ou existem estratégias específicas para isso?

Daniella Vicuuna – Na verdade, Germano, eu acredito que hoje a maioria dos brasileiros já acumula milhas — muitas vezes sem perceber. Como você mesmo mencionou, eu sou delegada aqui na Paraíba e também compartilho conteúdo sobre milhas e viagens no Instagram. Além disso, tenho um curso que já conta com mais de 7 mil alunos, sendo cerca de 85% mulheres, embora homens também participem.

Quando a gente olha para o Brasil, existem cerca de 240 milhões de cartões de crédito emitidos, o que dá, em média, um cartão e meio por pessoa. Por isso eu digo que, provavelmente, vocês dois já têm milhas — o que acontece é que muitas pessoas não sabem utilizá-las.

Respondendo de forma mais direta: hoje, em 2026, qualquer pessoa pode acumular milhas, tenha ou não cartão de crédito. O cartão é apenas uma das formas — existem mais de 14 maneiras diferentes de acumular. Quem usa cartão já acumula milhas automaticamente, muitas vezes sem perceber.

E quem não tem cartão também pode acumular, por meio de estratégias como compras online bonificadas, que vamos aprofundar melhor ao longo da entrevista. Ou seja, com ou sem cartão, qualquer pessoa pode começar a acumular milhas.

Germano Oliveira – Agora, o que mais me chama atenção é: como alguém consegue chegar a um milhão de milhas? Quantas viagens uma pessoa comum precisaria fazer ou quanto teria que gastar no cartão de crédito ao longo do ano para atingir um volume tão alto?

Daniella Vicuuna – E aí vem a grande sacada que muitas pessoas ainda não entendem: quando eu falo em um milhão de milhas, eu não preciso, necessariamente, acumular um milhão do zero. Na prática, eu preciso juntar algo em torno de 500 mil pontos.

Isso porque, ao acumular pontos no cartão de crédito ou em programas de bancos, o próximo passo é transferi-los para programas de companhias aéreas — e é nesse momento que entram as grandes oportunidades. Frequentemente, essas transferências acontecem com bônus promocionais, que podem chegar a 80% ou até 100%.

Na prática, isso significa que 100 mil pontos podem virar 180 mil ou até 200 mil milhas. Ou seja, você praticamente dobra sua pontuação apenas aplicando uma estratégia simples: transferir no momento certo.

E aqui está um dos maiores erros das pessoas: não aproveitar esses bônus. Na verdade, muita gente nem chega a usar suas milhas. Para você ter uma ideia, o Banco Central já divulgou que cerca de 39 bilhões de milhas expiram todos os anos no Brasil — o que representa bilhões de reais perdidos.

O principal problema, na minha visão, é a falta de consciência de que milhas são dinheiro. Porque ninguém deixa dinheiro parado ou simplesmente abre mão dele. Se alguém te dissesse que você tem R$ 200 esquecidos em uma conta antiga, você iria correndo sacar. Mas, com milhas, muita gente simplesmente ignora.

Isso acontece por dois motivos principais: primeiro, a falta de consciência de valor — as pessoas não enxergam milhas como um ativo real. E segundo, a desinformação. Muita gente não sabe que pode transferir seus pontos com bônus e potencializar significativamente o que já acumulou.

No fim das contas, milhas podem ser usadas para muito mais do que passagens aéreas: elas podem pagar hospedagens, aluguel de carro, passeios e até experiências completas, como uma viagem para a Disney com a família. E entender isso muda completamente o jogo.

Adriana Blak – Daniela, pelo que a gente está entendendo, o acúmulo de milhas passa também por um uso mais estratégico do cartão de crédito. Como funciona esse uso inteligente na prática? E você mencionou as promoções bonificadas em compras online — pode explicar melhor como isso funciona para o consumidor?

Daniella Vicuuna – E essa é, sem dúvida, a melhor parte. Por quê? Porque todos nós temos um limite de renda — se eu ganho 2, eu gasto 2; se eu ganho 5, eu não posso gastar 7. Ou seja, não dá para simplesmente aumentar o acúmulo de milhas só gastando mais no cartão, já que ninguém quer criar dívidas.

Por isso, o cartão de crédito acaba sendo um plano B. O plano A são as chamadas compras online bonificadas. Hoje, existem dois programas principais no Brasil, acessíveis a qualquer pessoa, mesmo sem ter conta em banco: o Livelo e o Esfera.

Qualquer pessoa pode se cadastrar gratuitamente nesses programas e acessar o que funciona como um “shopping online” dentro das plataformas. Lá, existem mais de 100 lojas parceiras — desde supermercados e farmácias até lojas de roupas e eletrônicos.

A lógica é simples: em vez de comprar diretamente no site da loja, você acessa a loja por dentro desses programas e ganha pontos por real gasto. Por exemplo, se uma promoção oferece 10 pontos por real, uma compra de R$ 100 pode gerar 1.000 pontos. E o mais interessante: isso funciona independentemente da forma de pagamento — pode ser cartão, Pix ou débito.

Agora imagine compras maiores. Se você adquirir um celular de R$ 10 mil em uma promoção de 7 pontos por real, acumula 70 mil pontos. Depois, ao transferir esses pontos com um bônus de 100%, você pode chegar a 140 mil milhas. Isso, na prática, já pode ser suficiente para emitir uma passagem internacional, como uma ida e volta para os Estados Unidos ou até um trecho para a Europa.

Ou seja, o segredo não está em gastar mais, mas em comprar de forma estratégica — transformando gastos que você já teria em um volume muito maior de milhas.

Adriana Blak – Daniela, o acúmulo de milhas envolve várias estratégias, como uso do cartão, transferência de pontos e benefícios como acesso a salas VIP. Para quem quer melhorar seus resultados, você recomenda acompanhar conteúdos nas redes sociais, como dicas no Instagram e exemplos práticos de viagens feitas com pontos? Esse tipo de conteúdo facilita o entendimento e ajuda o consumidor a aplicar melhor essas estratégias no dia a dia?

Daniella Vicuuna – É essencial. Por quê? Porque essa informação não é facilmente acessível. A maioria das pessoas acumula pontos pelo cartão de crédito, mas não sabe o que fazer com eles. E os bancos, na prática, não oferecem um passo a passo nem orientam o cliente. Muitas vezes, eles até incentivam trocas pouco vantajosas, como usar pontos para pagar tarifas ou anuidade — em vez de mostrar estratégias mais inteligentes.

Então, no fim das contas, a gente precisa buscar esse conhecimento por conta própria. É por isso que eu produzo conteúdo no Instagram e no YouTube: para que as pessoas, antes de tudo, saibam que esse universo existe. Porque não tem como usar algo a seu favor se você nem sabe que tem.

O primeiro passo é sair da desinformação. Por exemplo: se você usa cartão de crédito, provavelmente já tem pontos acumulados. O ideal é, ao terminar aqui, entrar no aplicativo do seu banco, verificar quantos pontos você tem e começar a entender o potencial daquilo — muitas vezes, dá até para dobrar esse saldo com estratégias simples.

E isso se traduz em viagens reais. Para você ter uma ideia, recentemente eu precisei ir a São Paulo e a passagem estava em torno de R$ 2.200. Em vez de pagar esse valor, utilizei 60 mil milhas — algo que pode ser acumulado em poucos meses com gastos do dia a dia, sem precisar comprar milhas.

Em outra situação, fiz uma viagem para a Colômbia usando cerca de 100 mil milhas, que também é um volume possível de alcançar rapidamente com estratégias de compras inteligentes.

O ponto principal é: acumular milhas apenas com o cartão gera um crescimento lento. O grande diferencial está nas compras estratégicas, que potencializam o acúmulo. É assim que muitas pessoas conseguem chegar a volumes altos, como 500 mil milhas no ano — e, com bônus de transferência, transformar isso em um milhão.

Ou seja, não se trata de gastar mais, mas de usar melhor aquilo que você já gasta no seu dia a dia.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

As dicas de Daniella: Como transformar pontos em viagens e novas compras

O Brasil tem 303 milhões de habitantes, dos quais 180 milhões são maiores de 18 anos. São mais de 240 milhões de cartões de crédito emitidos, uma média de 1,5 cartão por adulto.

Apesar disso, apenas 15 milhões de passagens aéreas são emitidas por ano. O dado mais alarmante: 39 bilhões de milhas são desperdiçadas anualmente, segundo o Banco Central.

Essas milhas têm valor financeiro real. É como se milhões de brasileiros jogassem dinheiro pela janela todos os dias, por falta de conhecimento sobre os programas de fidelidade dos bancos e das companhias aéreas.

O poder do uso estratégico

Daniella Vicuuna explica que o segredo está em usar o cartão de crédito de forma inteligente. Compras cotidianas — supermercado, farmácia, contas de energia e internet — podem se transformar em pontos e milhas.

Com planejamento, até famílias com renda de R$ 5 mil mensais conseguem acumular benefícios suficientes para emitir passagens aéreas sem custo, pagando apenas as taxas de embarque.

Viagens internacionais e nacionais

Num cenário em que o euro ultrapassa os R$ 6 e o dólar se mantém na casa dos R$ 5, quem domina essas estratégias consegue tornar viagens internacionais possíveis, reduzindo até mesmo os custos de hospedagem na Europa e na Ásia.

No Brasil, o uso inteligente das milhas também ajuda a superar desigualdades regionais: moradores do Sudeste têm mais facilidade para emitir passagens, enquanto quem vive no Centro-Oeste e no Norte enfrenta barreiras para participar de eventos, cursos e atividades. O conhecimento sobre programas de fidelidade pode democratizar o acesso às viagens.

O supermercado que vira férias

“Cada compra pode ser um passo rumo à sua próxima viagem”, afirma Daniella.

Ela lembra que o supermercado de cada família pode financiar a próxima viagem de férias. O que falta não é dinheiro, mas informação. Quando o brasileiro entender que o cartão de crédito é uma ferramenta de planejamento, não de endividamento, vai perceber que o mundo está muito mais perto do que imagina.

Dicas práticas de Daniella Vicuuna

Centralize gastos no cartão: concentre despesas mensais em um único cartão que acumule pontos.
Conheça os programas: cada banco e companhia aérea tem regras próprias; entender essas regras é essencial.
Atenção às promoções: transferências de pontos com bônus podem multiplicar o saldo.
Planeje com antecedência: milhas rendem mais quando usadas em passagens compradas com antecedência.
Diversifique estratégias: além das passagens, milhas podem reduzir custos de hospedagem e aluguel de carros.

Mais de 20 mil já aprenderam a decifrar o universo das milhas

Desde cedo, o ensino esteve presente na vida de Daniella Vicuuna. Na adolescência, dava aulas de física para colegas mais novos. Mais tarde, já formada, atuou como professora na academia de polícia. Essa experiência consolidou uma habilidade que se tornaria central em sua trajetória: traduzir conteúdos complexos em conhecimento simples e aplicável.

O ponto de virada veio de forma inesperada. Ao organizar viagens, Daniella começou a estudar a política de milhas adotada por empresas aéreas para fidelizar clientes.

Decifrado o mecanismo, passou a viajar utilizando apenas pontuações. O turismo e o lazer abriram sua visão para um nicho pouco explorado. Sem intenção inicial de empreender, começou a compartilhar experiências nas redes sociais. O que parecia pessoal rapidamente despertou interesse coletivo.

Um convite de uma amiga para falar sobre milhas em uma live revelou a demanda: a audiência surpreendente mostrou que havia espaço para transformar conhecimento em método.

Assim nasceu o Método VMM (Voando Mais com Milhas). Em 2020, Daniella estruturou sua primeira turma. Desde então, já formou mais de 7 mil alunos em cursos pagos e impactou cerca de 20 mil pessoas em eventos gratuitos. Ela ensina como usar milhas aéreas, cartões de crédito e programas de fidelidade para reduzir custos e ampliar o acesso a viagens. O reconhecimento veio rápido: três indicações ao Prêmio Passageiro de Primeira como melhor influenciadora de milhas do país.

Hoje, concilia a carreira como delegada de polícia na Paraíba com o crescimento do negócio digital. Seu público principal são mulheres que buscam autonomia e planejamento para viajar. A mensagem é clara: não é preciso ter mais dinheiro para viver melhor, mas sim estratégia. Além disso, começa a formar alunos para atuarem como prestadores de serviço no mercado de milhas, criando novas possibilidades de renda extra.

Aos alunos, Daniella repete uma máxima: “Milhas são dinheiro, mas também é sobre transformar sonhos distantes em realidade.” Em suas palavras: “Não é sobre ter — ou gastar muito — mais dinheiro, é sobre fazer o melhor com o que se tem. É assumir o controle da própria vida, fazer escolhas mais inteligentes e transformar conhecimento em liberdade.”