As porta-vozes do Instituto Iyalondês, Ana Chaves e Gabriela Bitencourth, durante entrevista ao BC TV


Por Adriana Blak (RJ)

O Instituto Iyalodês, voltado ao fortalecimento da liderança de mulheres negras da periferia, fará neste fim de semana (sábado, dia 9) seu primeiro evento público, na Pinacoteca de São Paulo.

Criado por Ana Chaves e Gabriela Bitencourth, o projeto aposta em mentorias gratuitas, formação coletiva e redes de apoio para enfrentar desigualdades históricas no mercado de trabalho das mulheres negras e periféricas da cidade.

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“O Instituto nasce de uma urgência: muitas mulheres não têm uma rede que as ajude a se desenvolver e a alcançar oportunidades”, afirmou Gabriela Bitencourth.

Inspirado na figura da Iyalodê — liderança feminina tradicional — o instituto surge como um “quilombo contemporâneo”, nas palavras de suas fundadoras.

A proposta é simples, mas ambiciosa: criar espaços seguros de escuta e troca, onde trajetórias individuais se transformam em fortalecimento coletivo. “Não somos uma só. Somos muitas mulheres ocupando e construindo espaços de liderança juntas”, explicou Gabriela Bitencourth.

Sem sede fixa, o Iyalodês aposta em uma atuação em rede, com atividades online e encontros itinerantes. O primeiro deles acontece neste fim de semana e marca a estreia pública da iniciativa.

A executiva Ana Chaves, que integra o instituto, destaca que o projeto nasceu da experiência com mentoria social e da percepção das barreiras enfrentadas por mulheres negras no mercado de trabalho.

“Não é só sobre liderança. É sobre autoestima, autogerenciamento e acesso a redes que muitas vezes não estão disponíveis”, disse.

O Instituto Iyalodês já organizou programas como o “Mulheres Negras Lideram”, que acompanha participantes em ciclos de desenvolvimento pessoal e profissional, incluindo etapas de autoconhecimento, fortalecimento da identidade e acompanhamento de metas. Há também a formação de multiplicadoras, pensada para ampliar o alcance das ações e preparar novas lideranças em diferentes contextos sociais.

“A gente acredita que nenhuma mulher precisa chegar sozinha. Quando uma cresce, ela puxa outras — e isso muda tudo”, resume Gabriela, reforçando o espírito coletivo que guia o Instituto Iyalodês.

A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Adriana Blak – Gostaria que vocês explicassem o que é o Instituto Iyalodês?

Gabriela Bitencourth – O Instituto Iyalodês nasce de uma urgência. Percebemos que muitas mulheres não têm uma rede de apoio que as ajude a se desenvolver e a alcançar oportunidades. Quando você tem apoio, ganha mais confiança e coragem para buscar esses caminhos.

Por isso, o Instituto Iyalodês surge com o propósito de ser uma rede de apoio para mulheres negras. A ideia é criar um espaço de conexão e fortalecimento, funcionando também como um banco de talentos que, muitas vezes, não é reconhecido ou valorizado por pessoas de fora.

Adriana Blak – De onde surgiu o nome Iyalodê/Iyalodês e qual é a forma correta de pronúncia?

Gabriela Bitencourth – Pronuncia-se ‘Iyalodês’, mas o termo também aparece como ‘Iyalodê’ no singular. Seu significado está ligado à ideia de uma mulher que lidera, uma mulher que detém poder.

Nós acrescentamos o ‘s’ no final justamente para reforçar essa ideia de coletividade: não se trata de uma única mulher no poder, mas de muitas. Não somos uma só — somos muitas.

Adriana Blak – E como o Instituto Iyalodês vai operar na prática?

Ana Chaves – O Instituto Iyalodês atua por meio de mentorias gratuitas e da realização de eventos voltados ao fortalecimento da rede de mulheres negras.

As mentorias já estão em andamento dentro do primeiro projeto, chamado Mulheres Negras Lideram, que tem duração de um ano e quatro meses e acontece de forma online. O programa começa com uma etapa de desenvolvimento pessoal, abordando o autoconhecimento, identidade, pertencimento, autoestima, voz, posicionamento na sociedade, encorajamento e o protagonismo da mulher negra.

Na segunda fase, o foco é o desenvolvimento de habilidades comportamentais — as chamadas soft skills — especialmente voltadas para a liderança, com o objetivo de potencializar essas mulheres.

Por fim, há um período de seis meses dedicado ao acompanhamento das metas, dos planos e do desenvolvimento individual de cada participante. É um programa bastante completo, que também incorpora técnicas de coaching, promovendo uma transformação que vai do autoconhecimento ao fortalecimento das competências comportamentais.

Adriana Blak – E onde o Instituto Iyalodês vai funcionar fisicamente?

Gabriela Bitencourth – Não temos um espaço físico fixo, porque o nosso propósito já nasce com uma visão ampla de expansão. Queremos alcançar mulheres em todo o Brasil e, futuramente, também em nível internacional.

Por isso, em vez de centralizar as atividades em um único local, estamos articulando a realização de eventos presenciais em diferentes estados. A ideia é justamente chegar onde as mulheres estão, já que há necessidade de apoio e mentoria em diversos lugares.

Inclusive, já estamos estabelecendo alguns contatos fora do país. Nosso objetivo é crescer e impactar cada vez mais mulheres, em escala global.

Adriana Blak – Qual foi a motivação para a criação do Instituto Iyalodês? De quem surgiu a ideia?

Ana Chaves – A ideia surgiu a partir da minha experiência como mentora social, há cerca de seis anos. Eu tinha o desejo de direcionar novamente a minha mentoria para mulheres pretas. Então, escrevi um projeto e convidei a Gabriela para fazer parte dessa iniciativa. O que inicialmente era apenas um projeto acabou se fortalecendo e dando origem ao Instituto Iyalodês.

O Instituto nasce da necessidade de oferecer mais assistência e oportunidades para mulheres negras, especialmente considerando o cenário de desigualdade no mercado de trabalho — onde ainda há uma baixa representatividade em cargos de liderança e espaços corporativos.

Diante disso, criamos o Instituto com o objetivo de alcançar o maior número possível de mulheres, potencializando suas trajetórias e contribuindo para que ocupem cada vez mais esses espaços.

Adriana Blak – Quais são os principais problemas que vocês pretendem enfrentar com essa iniciativa? 

Gabriela Bitencourth – Durante as entrevistas para a construção do primeiro projeto do Instituto, percebemos que existem várias questões além do desenvolvimento da liderança.

Entendemos que não basta focar apenas nisso. Há outros desafios importantes, como o desenvolvimento de soft skills, autoestima e autogerenciamento. Como mulheres negras, sabemos que muitas vezes enfrentamos uma realidade bastante exigente e sobrecarregada, com muitas responsabilidades ao mesmo tempo.

Por isso, o autogerenciamento se torna essencial para conseguir melhores oportunidades de trabalho, assim como a autoestima, que influencia diretamente na capacidade de aceitar essas oportunidades.

Também buscamos abrir caminhos para essas oportunidades, porque reconhecemos que as mulheres negras têm muita capacidade, mas acabam sendo limitadas por fatores como a falta de autoestima, a autossabotagem — que muitas vezes é construída desde cedo — e também a falta de acesso a redes de contato.

Adriana Blak – Qual é o perfil de mulheres que vocês pretendem alcançar? São mulheres de todas as áreas ou há algum foco específico? E qual perfil vocês acreditam que vai buscar mais o Instituto hoje?

Ana Chaves – Não temos um perfil delimitado de mulheres. Nosso foco é a mulher negra que deseja desenvolver sua liderança ou que já atua como líder e quer se aprimorar.

Não trabalhamos com uma área ou setor específico. O que buscamos são mulheres que desejam se tornar mais potentes e protagonistas das suas próprias histórias e trajetórias — inclusive dentro do cenário corporativo. Por que não?

Adriana Blak – Como funcionam as mentorias oferecidas pelo Instituto nessa jornada? Como elas são estruturadas?

Ana Chaves – As mentorias são realizadas de forma online, justamente para que a gente não limite o acesso por localização. A ideia é alcançar o máximo de mulheres possível, independentemente de onde estejam — seja em São Paulo, no Nordeste, no Sudeste ou no Sul.

As sessões acontecem por meio de uma plataforma e são quinzenais. Atualmente, o Instituto trabalha com dois projetos em andamento: o Mulheres Negras Lideram, focado em desenvolvimento de liderança, e o projeto de formação de multiplicadoras, que prepara pessoas para levar adiante e expandir o conhecimento compartilhado pelo Instituto.

Nesse segundo projeto, inclusive, já estamos atuando com estudantes de Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba, com o objetivo de capacitá-las para também atuarem com mulheres em situação de vulnerabilidade.

Além disso, o trabalho envolve uma abordagem bastante humanizada, com momentos de imersão, uso de ferramentas analíticas e avaliações de desempenho no início e ao final do processo, para acompanhar a evolução de cada participante.

Tudo é pensado com muito cuidado para que as mulheres se sintam seguras, acolhidas e preparadas para assumir posições de liderança e protagonismo em suas vidas.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça as responsáveis pelo Instituto Iyalodês

Gabriela Bitencourt é profissional de comunicação e marketing estratégico, com atuação em gestão, design e narrativa de marca. Atualmente, é Head de Operações em uma agência especializada em arquitetura e design. Sua trajetória é marcada pela versatilidade e pela construção de um caminho próprio, unindo criatividade e estratégia. Cofundadora do Instituto Iyalodês, atua na comunicação e mentoria de mulheres negras. Seu trabalho é guiado pelo propósito de transformar histórias em impacto real.

Ana Chaves é mentora corporativa e social, com mais de 17 anos de experiência em Recursos Humanos e desenvolvimento de lideranças. Atua na construção de trajetórias profissionais com foco em clareza, propósito e autoconhecimento. Já liderou equipes, estruturou áreas de RH e desenvolveu estratégias organizacionais em diferentes contextos. Cofundadora do Instituto Iyalodês, coordena mentorias voltadas a mulheres negras. Seu trabalho se baseia na escuta ativa e no fortalecimento do potencial humano.

Serviço

Edifício da Pinacoteca de São Paulo. (Foto: Divulgação)

Encontro da Casa Iyalodês – Conversas que potencializam mulheres pretas
📅 Data: 09 de maio de 2026
Horário: das 14h às 17h30
📍 Local: Pinacoteca de São Paulo – Auditório da Pina Luz
🎟 Entrada: gratuita e aberta ao público

Inscrições: https://forms.gle/m2GZPRgXqz7GtmNq8