O ex-beatle Paul McCartney decidiu protestar contra o uso de IA na música. (Foto: Redes Sociais)


Quase todos os ouvintes (97%) não conseguem distinguir músicas feitas por inteligência artificial das compostas por humanos, aponta pesquisa da Deezer, plataforma francesa de streaming fundada em Paris e presente em mais de 180 países, em parceria com a Ipsos. O avanço, que já levou faixas sintéticas ao topo de rankings digitais e movimentou contratos milionários, provoca desconforto em mais da metade do público e acende alerta sobre direitos autorais e o futuro da criação artística.

O som gerado por algoritmos tornou-se praticamente indistinguível da produção humana, impondo à indústria fonográfica um desafio inédito. A IA não apenas domina técnicas de composição e masterização, como conquista público e espaço comercial. Em novembro, a canção Walk my Walk, do projeto Breaking Rust — criada integralmente por IA — alcançou o primeiro lugar no Country Digital Song Sales da Billboard, nos Estados Unidos.

Apesar da ascensão, a relação do público com a música de IA é ambígua. Segundo o mesmo levantamento, 52% dos entrevistados relatam desconforto por não conseguirem diferenciar criações humanas das algorítmicas. Estudos indicam que a percepção de autoria pode reduzir a apreciação da obra, embora outros não encontrem viés significativo. Para Philippe Pasquier, diretor do Metacreation Lab for Creative AI da Simon Fraser University — universidade pública canadense na Colúmbia Britânica, com campi em Burnaby, Vancouver e Surrey — a aceitação “depende de como a IA é usada — composição, interpretação, masterização — e da transparência do processo”.

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O debate ético se concentra no treinamento dos modelos. Plataformas como Suno e Udio — startups de criação musical por IA com atuação global e desenvolvimento em ambiente de língua inglesa — foram alvo de disputas judiciais sobre uso de obras para treinar algoritmos; recentemente, a Warner Music anunciou acordo de licenciamento com a Suno, encerrando o litígio. Em protesto, Paul McCartney prepara o lançamento de um single do álbum silencioso Is This What We Want?, assinado por mil coautores e gravado em estúdio vazio. A psicóloga da música Sophia Omarji resume o dilema: “Você ainda pode gostar da música, mas surgem questões éticas e morais que fazem pensar: ‘Isto é algo que eu quero ouvir?’”.

Para artistas, o temor vai além da substituição tecnológica. “Não é só a perda de trabalho. É parte da minha identidade”, afirma o produtor Mark Henry Phillips. “Minha habilidade especial simplesmente não é mais tão especial. Do ponto de vista musical e econômico, a IA me superou.” Omarji reforça que música é autoexpressão e criatividade, atributos que não associa à inteligência artificial. Pasquier acrescenta que sistemas de IA “imitam dados e carecem de intencionalidade”, lembrando que o fator humano ainda é decisivo: fãs se conectam com atitude, personalidade e história — elementos ausentes em criações algorítmicas. (Da DW e da Redação)