O processo em curso pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revela que fundos da Reag foram inflados com cártulas — documentos físicos que representam ações ou títulos de crédito. No caso em questão, tratava-se de papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Embora os acionistas tenham migrado suas ações para o formato eletrônico, não houve exigência de devolução dos certificados em papel, o que abriu margem para que fossem utilizados em operações financeiras irregulares.
Segundo documentos obtidos pelo jornal Valor, o esquema começou antes da ascensão do Banco Master e foi descoberto por acaso. A investigação teve início em 2020, quando a empresa MKS Soluções, controlada por fundos da Reag, ofereceu direitos ligados às cártulas como garantia em uma execução penal de R$ 80 milhões. O caso chamou a atenção da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), que encaminhou a denúncia à CVM.
As transações levantaram suspeitas devido à valorização repentina dos títulos. Em março de 2020, o fundo Excalibur vendeu cártulas por R$ 5 cada. Poucos dias depois, os mesmos papéis foram revendidos por R$ 75, uma alta de 1.400%. Avaliações posteriores chegaram a atribuir o valor de R$ 758,69 por título.
Os fundos envolvidos — Excalibur, Pabbie, Novo e Gold Style (rebatizado como Reag XLIX) — estão ligados ao proprietário da Reag, Carlos Mansur. A CVM identificou falhas graves nos documentos apresentados, como a ausência de endosso e divergências sobre a real propriedade dos papéis.
A EBN Comércio, Importação e Exportação, apontada como fornecedora inicial das cártulas, também aparece em investigações do Banco Central sobre empréstimos fictícios que teriam desviado R$ 11,5 bilhões por meio do Banco Master. Além disso, fundos da Reag foram alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025.
Procurada, a Reag não se manifestou. A WNT, que chegou a gerir parte dos fundos, afirmou que deixou a operação em 2020 e que o caso envolve apenas questionamentos formais. Já a Monetar, administradora fiduciária, declarou que não tinha responsabilidade sobre a escolha dos ativos e que confia no esclarecimento dos fatos pela Justiça.


