Um dia após novos confrontos armados no estreito de Ormuz, autoridades iranianas endureceram o discurso contra os Estados Unidos e alertaram para o risco de um impasse militar prolongado na principal rota de escoamento de petróleo do mundo.
As declarações ocorreram após operações militares simultâneas de Washington e Teerã no Golfo, ataques atribuídos ao Irã pelos Emirados Árabes Unidos e novas restrições à navegação. Apesar da escalada, o governo iraniano afirmou que uma saída diplomática ainda é possível.
A tensão na região voltou a subir após os dois países realizarem, na segunda intervenções militares no golfo Pérsico. Washington afirmou que tenta reassumir o controle da navegação na passagem estratégica. Já Teerã declarou reagir ao que classificou como bloqueio marítimo norte-americano ao atingir, entre outros alvos, uma infraestrutura petrolífera nos Emirados Árabes Unidos.
O agravamento da crise ameaça a trégua anunciada há quase um mês com mediação do Paquistão. Nenhum avanço foi registrado desde as negociações em Islamabad, em 11 e 12 de abril.
Dois dias depois de afirmar ao Congresso dos EUA que a guerra havia terminado —contornando o calendário que exigiria autorização parlamentar para a operação contra o Irã—, o presidente Donald Trump anunciou no domingo (27) à noite o chamado “Projeto Liberdade“. A iniciativa visa permitir a saída de navios comerciais retidos em Ormuz.
Passagem essencial para o abastecimento energético global, o estreito foi, na prática, fechado pelo Irã após o início da campanha de bombardeios conduzida por EUA e Israel, em 28 de fevereiro.
Navios comerciais que operam na área relataram, nesta segunda, explosões ou incêndios a bordo. O Exército norte-americano afirmou ter destruído seis pequenas embarcações militares iranianas e declarou que dois navios comerciais dos EUA cruzaram o estreito. As informações foram negadas por Teerã, que lançou drones e mísseis contra os Emirados Árabes, provocando um incêndio no porto petrolífero de Al-Fujairah.
Mesmo com o anúncio de trégua feito por Trump em 16 de abril, os combates prosseguiram no Líbano, onde Israel e o Hezbollah continuam trocando ataques. O Exército israelense, que invadiu o sul do Líbano no início de março, mantém operações terrestres. Nesta segunda, as Forças de Defesa de Israel emitiram novas ordens de evacuação, em estratégia semelhante à aplicada na faixa de Gaza.
As principais Bolsas europeias passaram a precificar um cenário mais adverso diante do afastamento da perspectiva de trégua. O petróleo, porém, registrou leve recuo após ter subido quase 6% na véspera, depois que a Marinha norte-americana conseguiu escoltar um navio da empresa Maersk pela passagem de Ormuz.
‘Nem começamos’
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o país ainda “nem começou” seu confronto com os EUA. “Sabemos muito bem que a continuação da situação atual é insustentável para os Estados Unidos, enquanto nós ainda nem sequer começamos”, escreveu Ghalibaf na rede social X (ex-Twitter).
Ghalibaf, uma das figuras mais influentes do regime, acrescentou que os EUA e seus aliados colocaram em risco a segurança do transporte marítimo e que a “presença nociva” dessas forças no Oriente Médio está em declínio.
Apesar do tom, o Irã não descartou uma solução negociada. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou que os eventos em Ormuz demonstram que crises políticas não têm solução militar. Segundo ele, graças à mediação paquistanesa, as negociações avançam, ainda que sem resultados concretos. Araghchi advertiu que Washington precisa evitar “armadilhas de atores mal-intencionados”, estendendo o alerta aos Emirados Árabes.


