Ormuz continua sendo a ponta de lança desse guerra, com implicações sérias ao planeta. (Foto: Reprodução)


O governo iraniano anunciou nesta quarta-feira (8) o fechamento do Estreito de Ormuz ao tráfego de embarcações comerciais e advertiu que poderá abandonar o cessar-fogo firmado no dia anterior, caso Israel não suspenda os ataques contra o Líbano. A medida foi divulgada por agências estatais como resposta às “violações israelenses da trégua”.

Segundo a agência Fars, a decisão de bloquear a passagem marítima foi motivada pelos bombardeios israelenses contra posições do Hezbollah, considerados por Teerã como uma quebra direta do acordo. Fontes das agências Tasnim e PressTV acrescentaram que as Forças Armadas iranianas já estão selecionando alvos para uma possível retaliação e prometeram “punir” Israel.

A escalada ocorreu após Israel realizar, nesta quarta-feira, o maior ataque contra território libanês desde o início da guerra.

Continua depois da publicidade

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou que o cessar-fogo não se aplicaria ao Líbano, contrariando a posição do Paquistão, mediador das negociações, que havia garantido a suspensão das ofensivas em todas as frentes, incluindo o território libanês.

O premiê libanês Nawaf Salam acusou Israel de atingir áreas densamente povoadas, provocando centenas de mortos e feridos, e pediu que a população de Beirute liberasse as ruas para a passagem de ambulâncias.

Contexto do conflito

O confronto entre Israel e Hezbollah foi retomado em março, após o grupo, apoiado pelo Irã, lançar ataques contra Israel em resposta a bombardeios israelenses em território iraniano. Desde então, o Líbano mergulhou em uma crise humanitária, com mais de 1.500 mortos e cerca de 4.800 feridos, segundo o governo libanês. Israel ocupa militarmente o sul do país até o rio Litani e também realizou ataques aéreos contra Beirute e o Vale do Beqaa.

Reações regionais e internacionais

Países do Golfo relataram novos ataques iranianos mesmo após a trégua. O Catar informou que interceptou mísseis e drones disparados de território iraniano, enquanto fontes sauditas disseram que um oleoduto foi atingido poucas horas depois do anúncio do cessar-fogo.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, apelou para que todas as partes respeitem o acordo, afirmando que as violações comprometem os esforços de paz. Já o Exército israelense declarou ter realizado “a maior onda de bombardeios” contra mais de 100 instalações do Hezbollah, acusando o grupo de usar civis como escudos humanos.

O embaixador iraniano na ONU advertiu que a continuidade dos ataques israelenses complicaria a situação e traria consequências graves.

Negociações e condições impostas

O cessar-fogo foi mediado pelo Paquistão e prevê negociações em Islamabad na sexta-feira (10), com participação de autoridades iranianas e norte-americanas. O presidente dos EUA, Donald Trump, havia ameaçado atacar infraestrutura iraniana caso não houvesse acordo até a noite de terça-feira, mas suspendeu a ofensiva após o Irã concordar em reabrir o Estreito de Ormuz.

Cerca de 20% do petróleo mundial passa pela rota marítima, e o bloqueio elevou os preços internacionais. Washington estabeleceu condições para encerrar a guerra, incluindo:
restrição ao programa de mísseis iranianos;
desativação de usinas de enriquecimento de urânio;
fim do financiamento a grupos aliados como Hamas e Hezbollah;
criação de uma zona marítima livre no Estreito de Ormuz.
Trump declarou que os EUA já atingiram seus objetivos militares e classificou a trégua como uma vitória. A Casa Branca reforçou que a ofensiva foi bem-sucedida.

Posição iraniana

A mídia estatal iraniana, por sua vez, descreveu o acordo como um “recuo humilhante” dos EUA. O chanceler Abbas Araghchi confirmou a reabertura do Estreito e disse que as negociações se basearão em um plano de dez pontos elaborado por Teerã. Entre as exigências estão:

fim das sanções americanas;
pagamento de compensações;
liberação de ativos iranianos congelados;
reconhecimento do direito ao enriquecimento de urânio;
retirada das tropas dos EUA da região;
cessação da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano.

Segundo a Associated Press, a versão em farsi do documento inclui explicitamente a “aceitação do enriquecimento nuclear”, ponto ausente nas versões em inglês distribuídas a diplomatas.