Por Germano Oliveira
A jornalista Ana Maria Cavalcanti lançou recentemente o livro A Parteira pariu a Repórter, obra em que revisita sua trajetória profissional e pessoal ao longo de décadas dedicadas ao jornalismo no Brasil e no exterior. Com passagens marcantes por veículos como a TV Cultura e a BBC, em Londres, onde chegou a residir por muitos anos e adquiriu cidadania britânica, a autora reúne memórias que ajudam a compreender momentos importantes da história recente.
O título do livro remete ao episódio que marcou o início de sua carreira. Ainda estudante de jornalismo, Ana Maria participou de um teste prático que consistia em entrevistar uma parteira em uma cidade sem médicos. Sem experiência prévia com microfone ou câmera, ela conduziu a conversa de forma espontânea — o que lhe garantiu a vaga e deu início à sua trajetória como repórter.
Durante sua passagem pela TV Cultura, a jornalista conviveu com nomes importantes da imprensa, entre eles Vladimir Herzog, figura central em sua formação profissional. Segundo Ana Maria, Herzog foi uma referência ética e pessoal, incentivando-a a se dedicar integralmente à profissão. O jornalista, assassinado durante a ditadura militar em 1975 — episódio ligado ao contexto repressivo do Regime Militar Brasileiro — deixou uma marca profunda em sua vida. Em homenagem a ele, o lançamento do livro ocorreu no Memorial Vladimir Herzog, em São Paulo.
A obra também traz relatos pessoais que se entrelaçam com a história política e cultural do país. Entre eles, o relacionamento da jornalista com o cantor Geraldo Vandré, autor da canção Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, símbolo de resistência durante o período autoritário. Ana Maria relembra o período em que Vandré precisou se esconder após o endurecimento do regime com o Ato Institucional nº 5, destacando os riscos enfrentados por artistas e jornalistas na época.
Com linguagem direta e narrativa envolvente, A Parteira pariu a Repórter apresenta não apenas a evolução de uma carreira, mas também um retrato sensível de momentos decisivos da história brasileira, vistos a partir da experiência de quem esteve na linha de frente da informação.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira: Então, Ana Maria, em primeiro lugar, você pode nos falar um pouco sobre o lançamento do seu livro ‘A Parteira pariu a Repórter’ O título é bastante sugestivo. Conte para nós qual é o conteúdo da obra e o resumo da sua trajetória como jornalista.
Ana Maria Cavalcanti: Olha, o próprio título do livro já conta um pouco da história. Eu estudava jornalismo e, um dia, na faculdade, , (FAAP) soube que a TV Cultura estava procurando estagiários para um novo telejornal que seria lançado. Quando fiquei sabendo disso, fui correndo até lá para me candidatar.
Chegando lá, encontrei o Fernando Jordão, que viria a ser o editor chefe do novo noticiário. Ele disse que fariam um teste de rua comigo e que, no dia seguinte, viajaríamos para mostrar como vivia uma cidade sem médico. Eu fui com ele. Chegando lá, ele entrevistou primeiro o farmacêutico, depois o prefeito e, por fim, disse que eu entrevistaria a parteira — aquele seria o meu teste.
Era uma senhora negra, humilde, que vivia em uma casinha muito simples. Sentamos em um banco na frente da casa e começamos a conversar. Em determinado momento, mesmo sem nunca ter segurado um microfone ou saber como funcionava uma câmera, eu perguntei quais instrumentos ela usava. Ela respondeu: “As mãos. Eu uso só as mãos.” Foi ali que eu ganhei a vaga. No dia seguinte, dezenas de candidatos apareceram, mas fizeram apenas o teste escrito. Eu fiz os dois e fui duplamente aprovada. Foi assim que minha carreira começou.
Germano Oliveira: Vamos falar agora de um nome importante da sua trajetória: Vladimir Herzog, com quem você trabalhou na TV Cultura. Como foi o seu primeiro contato com ele e qual foi o impacto na sua carreira?
Ana Maria Cavalcanti: Na verdade, eu não sabia nada sobre o Vlado quando cheguei à redação, nem sobre os outros jornalistas. Os estagiários eram tratados como aprendizes, enquanto os editores eram profissionais experientes, como Fernando Jordão, Jorge Bourdoukan, Gabriel Romeiro, Narciso Kalili e Mylton (Myltaínho) Severiano da Silva.
Eu trabalhei muito com Bourdoukan e Myltainho. Bourdokan, inclusive, tinha uma característica interessante: quando íamos entrevistar alguém importante, ele sempre dizia: “Ana Maria, pergunte se ele é feliz.” Eu achava aquilo uma brincadeira. Anos depois, já em Londres, assistindo a uma entrevista do jornalista Sir David Frost com a Primeira-Ministra Indira Gandhi, vi ele fazer exatamente essa pergunta no final. Foi quando percebi a genialidade da sugestão.
Sobre o Vlado, como escrevo no livro, ele foi um farol na minha vida. O salário de estagiária era muito baixo e eu já morava sozinha. Trabalhava de manhã em assessoria de imprensa de um hotel e à tarde na TV Cultura. Um dia, ele me chamou e disse: “Ana, larga esse emprego e se dedique aqui para se tornar uma boa repórter.” Aquilo foi decisivo. No dia seguinte, pedi demissão e me dediquei integralmente ao jornalismo. Pouco tempo depois, fui contratada.
Germano Oliveira – Você lançou o livro no Memorial Vladimir Herzog. Esse gesto foi uma homenagem?
Ana Maria Cavalcanti – Sim, totalmente. O Vlado foi uma pessoa muito querida por todos na redação. Ele era especial para todos nós.
Éramos próximos. Ele foi, inclusive, meu padrinho de casamento. Essa foto que vocês mostraram é justamente desse momento. Logo depois, tive meu filho, que nasceu em 1975. Lembro que ele chorava muito, e eu passava noites em claro. Um dia, minha madrasta veio me ajudar e disse que eu precisava descansar durante o dia.
Nesse período, o Vlado foi me visitar. Clarisse explicou a situação e ele foi embora. Aquela foi a última vez que ouvi a voz do Vlado. Duas semanas depois, ele foi assassinado pela ditadura. Foi um momento muito doloroso.
Germano Oliveira – Você tinha noção do contexto político da época?
Ana Maria Cavalcanti – Sim, embora fôssemos muito jovens. Vivíamos sob a ditadura e sabíamos dos riscos. No caso do Vlado, foi especialmente marcante, porque ele era muito querido por todos.
Germano Oliveira – Há também um aspecto curioso da sua vida pessoal: sua relação com o cantor Geraldo Vandré. Como começou essa história?
Ana Maria Cavalcanti – Eu estudava na Fundação Getúlio Vargas e era uma das poucas mulheres da turma. Um dia, o centro acadêmico convidou o Vandré para uma palestra. Depois, fomos todos comer pizza. Durante o encontro, Geraldo sentou-se ao meu lado.
Em determinado momento, ele disse baixinho que, quando ele levantasse, eu deveria sair com ele. E foi o que aconteceu. Ele me levou para casa e houve uma forte atração entre nós desde o início. Depois, conseguimos passamos a nos encontrar com frequência. Ficamos juntos até ele sair do Brasil, ajudado por papai. .
Germano Oliveira – E você acompanhou de perto o momento da saída dele do país?
Ana Maria Cavalcanti – Sim. Quando o AI-5 foi decretado, ele apareceu na minha casa dizendo que precisava se esconder. Minha família o acolheu. Ficamos um tempo na casa do meu pai, na Ilha Comprida, mas acabaram descobrindo.
Depois, mudamos de lugar novamente, até que começaram a planejar a saída dele do Brasil. Geraldo queria que meu pai o levasse até até o Rio Grande do Sul, onde uma família o ajudou a atravessar a fronteira para o Uruguai. Ele ficou fora por quatro anos antes de retornar.
SERVIÇO

A parteira pariu a repórter
Autora: Ana Maria Cavalcanti
Editora: Labrador
Páginas: 152
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça Ana Maria Cavalcanti

Ana Maria Cavalcanti ingressou na vida acadêmica em meados dos anos 1960, cursando Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas. Embora no futuro isso tenha lhe dado lastro para entrevistar economistas, políticos e presidentes, Ana sentiu que seu caminho era outro e graduou-se em Jornalismo pela Fundação Armando Álvares Penteado.
Fez pós-graduação em Cinema na Central London Polytechnic (Inglaterra). Trabalhou nas principais emissoras de televisão do Brasil, como TV Globo, TV Cultura e SBT, e na BBC de Londres, onde morou por quase vinte anos.
Ana já recebeu cinco prêmios jornalísticos por seus documentários para TV: dois do Prêmio Vladimir Herzog, dois da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e um no Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Cuba. Atualmente, mora em São Paulo com seus três gatos.



