ASSISTA A FALA DE LULA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou nesta quinta-feira, 23, que pretende disputar um quarto mandato nas eleições presidenciais de 2026.
A declaração foi feita durante visita oficial à Indonésia, em evento ao lado do presidente indonésio, Prabowo Subianto, com quem Lula assinou acordos de cooperação bilateral.
“Eu vou disputar um quarto mandato no Brasil”, afirmou o petista, ao ser questionado sobre o futuro da relação entre os dois países.
“Então, estou lhe dizendo que ainda vamos nos encontrar muitas vezes. Esse meu mandato só termina em 2026, no final do ano. Mas estou preparado para disputar outras eleições”, completou.
A fala representa uma mudança de posicionamento em relação ao que Lula havia declarado em 2022, quando afirmou não ter intenção de concorrer novamente. Na ocasião, o presidente disse que seu objetivo era “reconstruir o país” e que não pensava em reeleição.
Durante o encontro com Subianto, Lula também destacou sua disposição física e política para continuar na vida pública. “Vou completar 80 anos, mas pode ter certeza que estou com a mesma energia de quando eu tinha 30”, disse.
A visita à Indonésia tem como objetivo ampliar a cooperação entre os dois países, com foco em comércio, meio ambiente e defesa. Os presidentes discutiram ainda a criação de mecanismos financeiros alternativos ao dólar, com incentivo ao uso de moedas locais nas transações internacionais.
A viagem de Lula a Jacarta é uma retribuição à visita feita por Subianto ao Brasil em julho deste ano. O encontro marca o fortalecimento das relações entre os dois países, que integram o grupo G20 e compartilham pautas comuns em fóruns multilaterais.
Discurso do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Visita à Indonésia
A Ásia tem ocupado lugar de destaque na minha agenda internacional em 2025.
No primeiro semestre, estive no Japão, no Vietnã e na China.
Recebi a visita do Primeiro-Ministro Modi (Narendra Modi, da Índia) e do Presidente Subianto (Prabowo Subianto, da Indonésia) em julho último.
Iniciei hoje uma missão que passará pela Indonésia e pela Malásia, e que culminará com minha participação na Cúpula da ASEAN.
O Sudeste Asiático é uma das regiões mais dinâmicas do planeta.
A ASEAN já é o quinto maior parceiro comercial do Brasil.
É uma honra retribuir a visita de Estado do Presidente Prabowo Subianto.
A Parceria Estratégica, que lancei em minha primeira visita a Jacarta em 2008, se mostra cada vez mais relevante e atual.
Somos grandes democracias, sociedades vibrantes e economias em expansão.
Somos membros plenos do BRICS e do G20.
O Brasil tem interesse em aprofundar o diálogo e a cooperação com a Indonésia nas mais diversas áreas.
Os acordos que assinamos em matéria de estatística, agricultura, energia, ciência e tecnologia e promoção comercial apontam nessa direção.
Nas últimas duas décadas, nosso comércio cresceu mais de três vezes — de 2 bilhões para 6,5 bilhões de dólares.
Eu disse ao presidente Subianto que é quase inexplicável para as nossas sociedades como dois países importantes no mundo, como Indonésia e Brasil — que juntos perfazem quase 500 milhões de habitantes — tenham um comércio de apenas 6 bilhões de dólares.
É pouco, presidente. É pouco para a Indonésia, é pouco para o Brasil. E eu acho que o povo da Indonésia e o povo do Brasil merecem que nós façamos um sacrifício maior para garantir que o comércio entre Indonésia e Brasil cresça de acordo com o crescimento da nossa população.
Por isso, vamos fazer um esforço muito grande para trabalhar intensamente, para que Indonésia e Brasil se transformem em dois parceiros fundamentais na geografia econômica do mundo.
Em 2024, a Indonésia foi o quinto destino das exportações do agronegócio brasileiro.
Esses valores ainda são tímidos diante do potencial de nossos mercados consumidores.
Indonésia e Brasil são, respectivamente, o quarto e o sétimo países mais populosos do mundo. Somamos meio bilhão de pessoas.
No atual cenário de acirramento do protecionismo, nossos países têm plenas condições de mostrar ao mundo a capacidade de defender interesses econômicos com diálogo e respeito mútuo.
Esse é o espírito do Memorando de Entendimento que firmamos hoje em matéria de cooperação sanitária e fitossanitária.
Desde a visita do presidente Subianto a Brasília, foi possível abrir o mercado local para diversos produtos de exportação brasileiros.
Não faltam oportunidades para o comércio de produtos de maior valor agregado, em especial no setor de defesa.
O Brasil possui sólida base industrial militar e está disposto a contribuir para as necessidades estratégicas da Indonésia, em particular de sua Força Aérea.
Na área de energia, dialogamos sobre as experiências de gestão soberana de minerais críticos, que são essenciais na transição energética.
A cooperação na área de mineração poderá avançar com maior institucionalidade no âmbito do Memorando que nossos ministros de Minas e Energia assinaram hoje.
O presidente Subianto e eu também decidimos avançar nas negociações de um Acordo de Comércio Preferencial MERCOSUL–Indonésia até o final da presidência brasileira do bloco, no final do mês de dezembro.
Como vozes ativas do Sul Global, também discutimos temas relevantes da agenda internacional.
Indonésia e Brasil são duas nações determinadas a assumir o lugar que nos corresponde em uma ordem em profunda transformação.
O mundo em desenvolvimento deve muito à Indonésia.
Há setenta anos, a Conferência de Bandung lançou as bases para relações mais equitativas entre os países, fundadas na autodeterminação, na não interferência e no não alinhamento.
Indonésia e Brasil compartilham o compromisso com a paz, com o desenvolvimento sustentável e com a promoção de uma ordem internacional mais justa.
Nossos governos estão unidos contra o genocídio em Gaza e continuarão a defender a solução de dois Estados como o único caminho possível para a paz no Oriente Médio.
Somente uma reforma integral do Conselho de Segurança pode resolver sua falta de representatividade e presente paralisia.
Ambos apoiamos o comércio baseado em regras, centrado na OMC.
Coincidimos quanto à importância crescente do BRICS como plataforma de defesa dos interesses de desenvolvimento do Sul Global.
Agradeci a participação do presidente Prabowo Subianto na Cúpula do BRICS do Rio de Janeiro e na Cúpula Virtual realizada em setembro passado.
Reafirmei o apoio brasileiro ao ingresso da Indonésia no Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco do BRICS.
O presidente Prabowo e eu concordamos quanto à urgência de agirmos com determinação para vencer a crise climática.
A Indonésia tem sido um parceiro fundamental nessa luta.
Estamos entre os maiores países detentores de florestas tropicais e com maior biodiversidade do mundo.
Também somos grandes produtores de biocombustíveis, que terão papel fundamental na transição para economias de baixo carbono.
Indonésia e Brasil trabalharão juntos para uma transição energética justa, rumo a economias menos poluentes e mais sustentáveis, sem prescindir da geração de empregos de qualidade e da redução das desigualdades.
Agradeci o apoio do presidente Subianto à COP30, que se realizará dentro de alguns dias.
O engajamento da Indonésia no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) também tem sido de grande importância.
Sabemos que não há desenvolvimento sustentável sem superar a fome e a pobreza.
A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do G20, contou desde o início com o apoio da Indonésia.
A política de alimentação escolar do governo do presidente Subianto, que merece nosso reconhecimento, hoje faz parte do programa de implementação acelerada da Aliança.
Voltarei a encontrar o presidente Subianto dentro de poucos dias, durante a Cúpula da ASEAN, na Malásia.
A decisão brasileira de reforçar nossa cooperação com a Indonésia e com o Sudeste Asiático não poderia ser mais acertada.
Eu queria, meu caro presidente Prabowo, dizer que Brasil e Indonésia serão do tamanho que nós quisermos que eles sejam.
O que está acontecendo nesse momento na política e na economia demonstra que, cada vez mais, precisamos discutir as similaridades que existem entre os nossos dois países, para que possamos fazer crescer nossa relação comercial, científica e tecnológica, cultural e política — para que, cada vez mais, sejamos menos dependentes.
Indonésia e Brasil não querem uma segunda Guerra Fria. Nós queremos comércio livre.
E mais ainda: tanto a Indonésia quanto o Brasil têm interesse em discutir a possibilidade de comercialização entre nós dois com as nossas moedas.
Essa é uma coisa que precisamos mudar. O século XXI exige que tenhamos a coragem que não tivemos no século XX. Exige que mudemos nossa forma de agir comercialmente para não ficarmos dependentes de ninguém.
Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo. Queremos democracia comercial e não protecionismo. Queremos crescer, gerar empregos — empregos de qualidade, porque é para isso que fomos eleitos para representar o nosso povo.
Por isso, presidente, lhe desejo toda a sorte do mundo.
Quero lhe dizer que vou completar 80 anos, mas pode ter certeza de que estou com a mesma energia de quando tinha 30 anos de idade.
E vou disputar um quarto mandato no Brasil.
Estou lhe dizendo isso porque ainda vamos nos encontrar muitas vezes. Esse meu mandato termina em 2026, no final do ano. Mas estou preparado para disputar outras eleições e tentar fazer com que a relação entre Indonésia e Brasil seja uma relação valorosa — que traga mais empresários brasileiros para visitar a Indonésia, mais empresários brasileiros para investir na Indonésia, mais empresários da Indonésia para investir no Brasil, mais empresários da Indonésia para comprar do Brasil e mais empresários brasileiros para comprar da Indonésia.
Porque uma relação comercial justa é aquela em que os dois países ganham. É aquela em que os dois países têm superávit — ou, se não tiver superávit, que empate o jogo.
E há outra coisa, presidente: eu lhe dei uma camisa número 8, porque quando fui jogador de futebol (não muito bom), minha posição era meia-direita, e o meia-direita utilizava a camisa 8.
Por isso, o número 8 é o número da minha sorte — e eu sei que é o seu número.
Então, pode estar certo de que nós dois somos dois presidentes de muita sorte.
Um abraço, muito obrigado pela acolhida. Estarei na festa hoje à noite para comemorar.


