Lula durante discurso no evento do PSB. (Reprodução TV)


O presidente Lula afirmou neste domingo (1), durante o 16º Congresso Nacional do PSB, que a esquerda precisa eleger maioria no Senado no próximo ano, senão “esses caras vão avacalhar” o Supremo Tribunal Federal (STF), em uma referência indireta a candidatos que representam o bolsonarismo.

O presidente indicou que é necessário que a esquerda escolha candidatos com chances reais de vitória em 2026 e priorize vagas no Congresso em vez dos governos estaduais. A fala de Lula ocorre em meio aos ataques de bolsonaristas ao ministro Alexandre de Moraes, tanto no Brasil quanto no exterior, por meio de articulações junto ao governo Trump.

Lula defendeu o STF ao final de seu discurso no evento da sigla, demonstrando preocupação com a eleição para o Congresso no ano que vem e ressaltando a necessidade de preservar o Supremo como uma instituição que “garante e defende a democracia nesse país”. O presidente enfatizou: “Precisamos ganhar maioria no Senado, senão esses caras vão avacalhar a Suprema Corte. Não é porque a Suprema Corte é uma maçã doce, não. É porque precisamos preservar as instituições que garantam e defendam a democracia desse país. Se a gente for destruir aquilo que a gente não gosta, não vai sobrar nada.”

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Ainda no evento, Lula reforçou a importância de uma estratégia eleitoral focada na composição do Congresso: “Então é importante que a gente leve em conta onde é impreterível, onde é necessário mesmo ter candidato a governador, ponto. Agora, para o Brasil, temos que pensar onde é necessário eleger senador e onde a gente pode. Muitas vezes, temos que pegar os melhores quadros nossos, eleger senador da República, eleger deputado federal, porque nós precisamos ganhar a maioria do Senado.”

O Senado é a casa legislativa responsável por avaliar pedidos de impeachment contra ministros do STF. Atualmente, a chance de um processo desses prosperar é remota, mas o cenário pode mudar caso candidatos bolsonaristas consigam eleger uma bancada expressiva.

O Supremo deve concluir neste ano uma ação penal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Nas últimas semanas, a corte colheu depoimentos de dezenas de testemunhas que confirmaram os principais pontos da acusação contra Bolsonaro, incluindo a reunião na qual ele teria apresentado uma minuta golpista aos comandantes das três Forças Armadas após sua derrota nas eleições de 2022.

Ao comentar a postura dos Estados Unidos em relação ao ministro Alexandre de Moraes—que tenta prender bolsonaristas que estão morando no país—Lula afirmou: “Nunca critiquei a Justiça deles.” O petista mencionou a resistência do governo Trump à atuação de Moraes e disse que, por nunca ter criticado o sistema judicial norte-americano, os EUA não teriam motivos para criticar a Justiça brasileira.

O presidente também fez referência a um documento do Departamento de Justiça dos EUA, que negou uma ordem de Moraes. O governo americano respondeu ao ministro do Supremo em uma carta informando que ele não poderia bloquear um usuário da rede social Rumble naquele país.

Lula não citou nomes diretamente, mas Moraes havia determinado a prisão do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, atualmente nos Estados Unidos. O ministro aponta que o blogueiro teria articulado uma campanha de difamação e ameaças contra autoridades que investigam Bolsonaro e seus aliados. A ordem de prisão, no entanto, nunca foi cumprida nos EUA, que não consideram que Allan dos Santos tenha cometido crimes.

O presidente criticou a postura americana quanto à questão: “Você veja que os Estados Unidos querem processar o Alexandre de Moraes porque ele está querendo prender um cara brasileiro que está lá nos Estados Unidos fazendo coisa contra o Brasil o dia inteiro. Que história é essa de os Estados Unidos quererem negar alguma coisa e criticar a Justiça brasileira? Eu nunca critiquei a Justiça deles. Eles fazem tanta barbaridade, eu nunca critiquei. Fazem tanta guerra, matam tanta gente. Por que vão querer criticar o Brasil?”

Por fim, Lula destacou a necessidade de a esquerda priorizar a eleição de senadores para evitar turbulências institucionais: “Então, companheiros, lembrem-se de uma coisa importante: em 2026, nós precisamos pensar o seguinte, companheiro João (Campos, prefeito do Recife), nós precisamos eleger senadores da República. Porque, se esses caras elegerem a maioria dos senadores, eles vão fazer uma muvuca nesse país.”

Análise: Lula sabe que democracia corre risco com extrema-direita bolsonarista no Senado

Lula sabe que, sem maioria no Senado, sua governabilidade corre riscos. Mas o que ele disse no Congresso do PSB não foi apenas um chamado à militância, foi um aviso de que há um jogo pesado acontecendo nos bastidores. Ele não mencionou nomes, mas ficou claro para quem ele falava: os bolsonaristas que tentam minar o STF e pavimentar o caminho para um retorno.

O Senado é a chave para esse projeto. Se o bolsonarismo conseguir maioria, o STF pode virar alvo de uma ofensiva que não se limita à retórica. Os ministros da Corte sabem disso e os sinais já foram dados. O governo Trump, por exemplo, se tornou um ponto de articulação dos aliados de Bolsonaro, que tentam construir um escudo contra as investigações que avançam por aqui.

Lula não está errado ao bater na tecla da necessidade de eleger senadores aliados, mas o problema é que a esquerda nem sempre se entende na hora de fechar alianças. Se as candidaturas forem pulverizadas, o risco de uma fragmentação é real. Não adianta só alertar a base, é preciso construir uma frente única e evitar a dispersão de votos.

Há quem diga que um Senado dominado pelo bolsonarismo é improvável, mas quem acompanhou o avanço da extrema direita nos últimos anos sabe que subestimar seus movimentos pode ser um erro fatal. Eles jogam o jogo longo e, se tiverem força suficiente, podem transformar o Senado em uma trincheira contra o STF e qualquer tentativa de contenção institucional.

O que está em disputa não é só um conjunto de cadeiras, mas a estabilidade do próprio sistema democrático. Lula entendeu isso e está tentando preparar o terreno. Resta saber se sua base entenderá a urgência do recado e agirá a tempo.