BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
Quando Lula assumiu a presidência, em janeiro de 2023, já pensava que administraria a economia com uma baixa taxa de juros, mesmo que a inflação fosse um pouco mais alta. Mas logo esbarrou na resistência do então presidente do Banco Central, que insistia em juros mais altos para reduzir a inflação, que, na época, estava na casa de dois dígitos — uma herança do presidente Jair Bolsonaro. Foi a deixa para o presidente petista, recém-empossado, passar a descer a lenha em Roberto Campos Neto. Lula dizia que ele desejava manter os juros altos porque era bolsonarista e trabalhava contra seu governo.

Essa cantilena petista durou dois anos, até que venceu, em dezembro de 2024, o mandato de Campos Neto. Ele manteve os juros altos em toda a sua gestão. O então presidente do BC manteve a Selic sempre em alta, e chegou a 11,25% durante sua administração. E Lula não o poupava de ataques, quase diários. A relação do presidente com Campos Neto esteve no limite. Falava até na possibilidade de poder demiti-lo, mas isso não era possível, graças à independência do BC, garantida em lei.
Mas, em janeiro de 2025, Gabriel Galípolo, indicado por Lula e por Haddad, assumiu o posto de chefe do BC. E quando todos esperavam que ele fosse reduzir a taxa de juros — sobretudo Lula, que usava a redução dos juros como política de governo — teve que engolir o aumento das taxas da Selic, desta vez sob a batuta de Galípolo.
O “menino de ouro”, como Lula se referiu ao novo presidente do Banco Central, não só subiu a taxa, como a elevou a 15% ao longo do ano passado. E a manteve, agora em janeiro, nesses mesmos 15%, tornando-a a mais elevada do mundo. Essa taxa está inviabilizando, inclusive, a economia e os investimentos dos empresários brasileiros. E Lula ficou, finalmente, calado. Afinal, agora ele, e sua gestão do BC, são responsáveis pela taxa de juros estratosférica.
Galípolo como cabo eleitoral

Por isso mesmo, Lula e Galípolo deixaram para este ano eleitoral a redução dos juros. Inicialmente, achavam que os juros poderiam cair na reunião do Copom de janeiro, mas a inflação ainda deu sinais de que não havia cedido e, assim, se manteve na rota de alta.
Mas o BC já sinalizou que, na próxima reunião do Copom, em março, a Selic vai cair 0,25%. E, depois, na pré-campanha, Galípolo vai determinar duas novas baixas, nas reuniões de junho e setembro, novamente na ordem de 0,25%. Assim, até a véspera das eleições, a taxa de juros terá caído 0,75%. O ideal seria que caísse um pouco mais, algo como 1%, para se oferecer um número redondo ao mercado. Mas isso ainda pode acontecer, caso até lá a inflação tenha ficado abaixo de 4%.
Dessa forma, Galípolo pode se tornar um dos maiores cabos eleitorais da campanha de reeleição de Lula. Vale lembrar que ele foi, na campanha de 2022, um dos principais coordenadores da campanha petista que elegeu Lula pela terceira vez. Agora, como coordenador dos principais indicadores da economia (juros e inflação), Galípolo pode auxiliar o petista a conquistar um quarto mandato, passando para a história como o presidente mais longevo da história. A ver.
*Germano Oliveira é diretor do BRASIL CONFIDENCIAL.




