O presidente Lula e o chanceler Merz em encontro à margem do G20, em novembro de 2025. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)


O presidente Lula desembarca neste domingo (19) na Alemanha para reforçar a aliança bilateral em um momento em que ambos os líderes enfrentam índices críticos de desaprovação e a ameaça crescente da ultradireita.

Lula da Silva faz visita oficial à Alemanha que, sob o verniz da cooperação estratégica, esconde um cenário de profunda vulnerabilidade para os dois protagonistas. O encontro com o chanceler federal Friedrich Merz ocorre em um momento em que a “maior economia da Europa” patina no crescimento e o Brasil se vê diante de uma corrida eleitoral muito mais acirrada do que o previsto.

A agenda é ambiciosa: Lula participará da Feira Industrial de Hannover — onde o Brasil é o país homenageado — e encabeçará a terceira rodada de consultas intergovernamentais de alto nível, um mecanismo de diálogo que Berlim mantém com poucos parceiros. É a primeira vez que Lula e Merz se reúnem formalmente fora do palanque de cúpulas internacionais, como a COP30, em Belém, ou o G20, na África do Sul. No entanto, o aperto de mãos em Berlim acontece enquanto ambos os líderes tentam estancar a erosão de sua base política doméstica.

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O declínio de Merz

Friedrich Merz, o líder conservador da União Democrata Cristã (CDU) que assumiu o poder em maio de 2025 com a promessa de uma série de reformas estruturais, chega ao seu primeiro ano de governo com números alarmantes. Segundo sondagens divulgadas na primeira quinzena de abril, 70% dos alemães desaprovam sua atuação pessoal, enquanto apenas 21% estão satisfeitos. A coalizão entre o bloco CDU/CSU e os social-democratas (SPD) é rejeitada por 73% do eleitorado.

A economia alemã é o calcanhar de Aquiles do chanceler. Após dois anos de recessão ligados à guerra na Ucrânia, o país cresceu parcos 0,2% em 2025. As projeções para 2026 foram reduzidas pelo FMI de 1,3% para 0,6%, sufocadas pelos efeitos colaterais do conflito no Irã. Em março, o desemprego atingiu a marca de 3 milhões de pessoas (6,4%), e o anúncio de planos de demissão em massa em gigantes como a Volkswagen aprofunda o pessimismo.

A paralisia reformista e a alta carga tributária — que incomoda 66% dos cidadãos — abriram caminho para a extrema direita. O bloco de Merz está hoje tecnicamente empatado com a Alternativa para a Alemanha (AfD), enquanto o SPD definha abaixo de seu recorde negativo de 2025. “Talvez não tenhamos deixado claro com rapidez suficiente que não seríamos capazes de realizar esse enorme esforço de reforma da noite para o dia”, admitiu Merz em uma rara autocrítica em fevereiro.

Lula: o desafio da reeleição e a sombra de Bolsonaro

No Brasil, o cenário de Lula é menos turbulento que o alemão, mas igualmente repleto de desafios crescentes. Candidato declarado à reeleição em outubro, o presidente viu a polarização ganhar um novo rosto: o senador Flávio Bolsonaro. O que era visto no fim do ano passado como um artifício político tornou-se uma ameaça real. Dados da Genial/Quaest mostram que, embora Lula lidere no primeiro turno, Flávio Bolsonaro já aparece em empate técnico em uma eventual segunda volta.

A percepção econômica do eleitorado não acompanha os indicadores macro. Apesar do desemprego em mínimas históricas e da inflação na meta, persiste uma sensação de dificuldade alimentada pelo endividamento e pela precarização do trabalho. Segundo o Datafolha, a avaliação negativa do governo estagnou em 40%, enquanto a positiva recuou de 32% para 29%.

Internamente, o Palácio do Planalto vive um clima de “fogo amigo”. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, lançou indiretas ao secretário de Comunicação, Sidônio Palmeira, sugerindo que o governo não sabe propagandear suas realizações. No Congresso, o Executivo continua refém de “pautas-bomba” e de um custo político alto para aprovar projetos.

Uma tradição de crises

Esta é a terceira vez que o mecanismo de consultas Brasil-Alemanha ocorre sob o signo da instabilidade. Em 2015, a primeira edição ocorreu enquanto a crise política sepultava o governo de Dilma Rousseff; em 2023, o encontro deu-se em meio à erosão da coalizão de Olaf Scholz, que desmoronaria meses depois.

Agora, Lula e Merz buscam no cenário internacional o fôlego que lhes falta em casa. Entre reuniões de negócios, ambos tentam provar que ainda detêm as rédeas de seus destinos políticos frente a um mundo hostil, marcado pela continuidade da guerra na Ucrânia, a turbulência no Irã e a dificuldade de lidar com o governo de Donald Trump, que ameaça o pilar da segurança alemã ao questionar a Otan.