Germano Oliveira


BRASIL EM FOCO



Germano Oliveira*


Até uma semana antes do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, Lula esnobava que teria sua história contada na Marquês de Sapucaí, desde os tempos em que sua mãe, dona Lindu, deixava sua palhoça no interior de Pernambuco, com um monte de crianças, e iniciava viagem para São Paulo atrás do marido, que a abandonou no Nordeste para ir atrás de sua cunhada, com quem formou nova família no Guarujá.

O presidente não escondia o prazer de ser homenageado pela escola de Niterói e preparou-se com toda a pompa para ir ao desfile na noite de domingo, ao lado de sua mulher, Janja Lula da Silva. Esperava faturar politicamente com o evento, dentro de seu projeto de reeleição.

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Um dos carros alegóricos foi do Bozzo na cadeia. (Reprodução TV)


Afinal, a escola de Niterói iria cantar loas ao seu passado e enaltecer seu presente, contando maravilhas dos seus governos e, sobretudo, de suas realizações do atual governo, o terceiro de seu currículo. Havia desde projetos lançados recentemente, como o vale-gás, até aqueles que ele já havia fomentado durante os doze anos de sua gestão.
Vale lembrar que o diretor da escola de samba carioca é filiado ao PT, e a homenagem surgiu como preocupante politicamente para o petista.

Até porque a Justiça Eleitoral poderia considerar a homenagem como promoção de propaganda eleitoral antecipada. Muita gente, até mesmo do PT, alertou para esse risco, que poderia lhe valer uma multa ou até mesmo torná-lo inelegível.

O PT pagou para ver

Lula não levou nada disso em consideração. Tentou dizer que a homenagem era espontânea e que o governo deu R$ 1 milhão para a escola de Niterói, assim como fez com as demais onze entidades que desfilaram na Sapucaí. Nada disso foi levado em consideração pelo PT ou pelo próprio presidente. Ele pagou para ver.

O pior é que o desfile deixou de ser apenas um evento carnavalesco para se transformar em um caso político. Ao retratar o ex-presidente Jair Bolsonaro como o palhaço Bozo e com tornozeleiras queimadas, os responsáveis pela escola avançaram o sinal e levaram para a avenida uma disputa política que já está em andamento e que tem Lula x Flávio Bolsonaro como o principal núcleo da polarização eleitoral que acontecerá em outubro.

Um dos carros alegóricos foi do Bozzo na cadeia. (Reprodução TV)


Por sorte, Lula e Janja acabaram não desfilando sobre os carros alegóricos, como chegou a ser anunciado, mas o estrago já estava feito. O presidente se esqueceu de que estava no Rio, berço do bolsonarismo, e que lá a torcida com o petismo é dividida ao meio. Se uma parte da torcida bateria palmas para Lula, a outra parcela iria vaiá-lo.

Não deu outra. Os jurados da Sapucaí agiram como se fossem torcedores da disputa eleitoral. O fato é que a maioria dos jurados não concordou com a politização das escolas de samba na avenida e rebaixou a entidade que prestou a homenagem ao presidente. Dessa forma, não foi apenas a escola de Niterói que foi rebaixada. Na verdade, Lula foi o principal rebaixado dessa disputa.