O chanceler alemão Friedrich Merz ao lado do presidente Lula durante reunião bilateral em Hanôver, Alemanha. (Foto: AFP)


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (20), em seu segundo dia de visita à Alemanha, que o Brasil não aceita mais o rótulo de país “em desenvolvimento”.

Durante a abertura da Feira de Hanôver, o mandatário declarou que o país assumiu a “plenitude” de suas capacidades e busca visibilidade global como potência industrial e tecnológica.

“Estamos falando de um país que cansou de ser pequeno. Um país que cansou de ser um país em via de desenvolvimento, de ser tratado como país do terceiro mundo ou como invisível”, afirmou Lula. Para o presidente, o Brasil combina hoje dimensão territorial, estabilidade econômica e uma “credibilidade recuperada” que o autorizam a pleitear um novo assento na governança mundial.

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Transição energética como trunfo

O foco central da comitiva brasileira —que inclui mais de 300 empresas— é a transição energética. Lula apresentou o Brasil como o líder natural para a produção de combustíveis renováveis, utilizando a matriz elétrica nacional (90% limpa) para questionar os custos da indústria europeia.

O presidente criticou o que chamou de exigências tecnológicas onerosas na indústria automotiva global. Segundo ele, não faz sentido o Brasil pagar 15% a mais no preço de caminhões por “mix tecnológicos” de redução de emissões, uma vez que o combustível brasileiro, como o etanol e o biodiesel, já cumpre esse papel de forma mais eficiente e barata.

Críticas ao unilateralismo e governança

No campo diplomático, Lula subiu o tom contra o enfraquecimento da ordem global estabelecida após 1945. Ele alertou para a erosão do multilateralismo em favor de uma lógica baseada no “PIB e nas armas”.

“O mundo não pode ser dirigido por mentiras nem pelo unilateralismo”, disse, defendendo uma reforma urgente no Conselho de Segurança da ONU. O presidente também classificou como “loucura” operações militares recentes e a política externa de Washington sob Donald Trump, reforçando a necessidade de um equilíbrio de forças que proteja nações menores.

‘Humanidade algoritmo’

Em um momento de digressão sobre o comportamento social, o presidente fez duras críticas ao impacto da era digital. Segundo Lula, a humanidade está sendo “induzida por algoritmos” a abandonar a convivência harmônica.

“A era do argumento acabou. A era da verdade se esvaiu”, afirmou, ao citar o uso excessivo de celulares em reuniões oficiais e o avanço das fake news. “Vivemos uma era em que, quanto menos verdade você fala, mais importante você passa a ser.”

Aliança estratégica com a Alemanha

A visita ocorre em um cenário de forte dependência mútua. A Alemanha é o principal parceiro comercial do Brasil na União Europeia, com trocas que somaram 21 bilhões de euros no último ano. As cerca de 1.500 empresas alemãs em solo brasileiro —incluindo gigantes como Volkswagen, Siemens e Bosch— geram 10% do PIB industrial do país.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, recebeu Lula com honras militares e reforçou o desejo de destravar o acordo Mercosul-União Europeia. Para Merz, o tratado é o sinal necessário para uma cooperação com o “mínimo de tarifas possível”.

As consultas governamentais entre os dois países continuam nesta tarde com a participação de 15 ministros de Estado. A meta é selar parcerias em áreas estratégicas: defesa, pesquisa climática, digitalização e o fornecimento de matérias-primas críticas para a indústria alemã.