Germano Oliveira


BRASIL EM FOCO

Germano Oliveira*

A menos de um ano das eleições, Lula começa a montar a estrutura que deve utilizar para tentar se reeleger. O presidente deve nomear hoje o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) para o cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Vai substituir Márcio Macêdo, que deve disputar uma vaga de deputado federal no ano que vem.

Macêdo já estava na corda bamba desde a festa do Primeiro de Maio de 2024, realizada pelos movimentos de esquerda numa área defronte ao estádio do Corinthians. Essa festa não teve nem duas mil pessoas e foi um fracasso. O próprio mandatário reclamou do público reduzido ao microfone do evento, mas Macêdo até que resistiu bastante no cargo, que tinha a função de organizar os movimentos populares — e nunca conseguiu. O líder petista só está demitindo-o agora, pois já havia prometido colocar o líder sem-teto num cargo no Palácio do Planalto há algum tempo.

Continua depois da publicidade

Boulos foi o deputado federal mais votado de São Paulo nas últimas eleições (2024) e é um bom articulador, com penetração inconteste nas periferias, e vai ajudar Lula a melhorar sua avaliação nas regiões mais pobres, sobretudo São Paulo, onde disputou e perdeu a prefeitura paulistana duas vezes (em 2020, foi ao segundo turno contra Covas e, em 2024, foi ao segundo turno contra Ricardo Nunes).

Em 2018, foi candidato a presidente pelo PSOL, quando o PT ainda era seu adversário, por causa das divergências na esquerda. Agora, Boulos se coloca como provável coordenador da campanha de Lula em 2026 e deve assumir o compromisso com o presidente de não disputar nenhum cargo nas eleições do ano que vem. Além de Boulos, outros petistas deverão participar da coordenação da campanha petista, como o presidente nacional do partido, Edinho Silva, e o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do governo (Secom), Sidônio Palmeira. Os dois últimos participaram da coordenação da campanha vencedora de Lula contra Bolsonaro.

A fé move montanhas

Além de Boulos, o presidente deve indicar também, até o final de semana, o nome do chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para a vaga do ministro Luís Roberto Barroso, que se aposentou do STF na semana passada. Messias é amigo pessoal de Lula e homem de confiança de Lula, mas senadores têm pressionado o presidente a indicar Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Congresso.

Lula prefere que Pacheco seja candidato ao governo de Minas Gerais, numa dobradinha com o PT no estado. A preferência do mandatário por Messias se dá em razão de ele ser evangélico, e sua nomeação ao STF pode agradar esse campo religioso, que quase nunca esteve ao lado do PT nas eleições presidenciais.

Os evangélicos, que representam quase 40% do eleitorado, sempre estiveram ligados aos candidatos da direita e centro-direita. Na eleição de 2022, estiveram com Bolsonaro de forma quase que unânime. Lula sempre disse aos assessores que os petistas precisam se aproximar mais desses religiosos caso queiram ganhar as eleições do ano que vem.

O petista lembra que, quando esteve preso em Curitiba por 580 dias, sempre assistia aos programas de televisão na cadeia. O objetivo era observar o que diziam e o que pensavam. Para o presidente, esses religiosos precisam estar mais próximos do PT. A disputa eleitoral do ano que vem passará muito pela aproximação dos petistas com o centro, onde trafegam muitos evangélicos.