
O BRASIL CONFIDENCIAL publica com exclusividade o relato do jornalista Marcos Clementino, ex-correspondente de TV na Europa, que estava nas ruas de Paris quando o grupo terrorista “Estado Islâmico” cometeu atentados contra civis na agitada noite da capital francesa. Além de um relato escrito, Clementino, que hoje vive e trabalha em São Paulo, gravou um vídeo contando a história toda.
Por Marcos Clementino
Há dez anos, embarquei para uma das experiências mais marcantes da minha carreira como jornalista.
Em 2015, passei dois meses em Tel Aviv e Jerusalém cobrindo as eleições em Israel, que resultaram na reeleição de Benjamin Netanyahu. “Bibi”, como é conhecido, assumiu seu terceiro mandato e, ao longo dos anos, consolidou-se como o líder que mais tempo permaneceu no cargo na história de Israel.
Durante essa estadia na Terra Santa, visitei a Faixa de Gaza, um dos territórios mais controlados do mundo. Foram mais de trinta dias aguardando a autorização do exército israelense, do Fatah e do Hamas. A cobertura resultou em duas reportagens especiais no RedeTV News! intituladas “A Maior Prisão do Mundo”, destacando a reconstrução do território após o conflito de 2014, que vitimou mais de duas mil pessoas, a maioria civis.
A repercussão positiva desse trabalho me levou a Paris, onde assumi o principal escritório internacional de jornalismo da RedeTV! Enquanto a crise humanitária de refugiados na Europa dominava o noticiário, imagens brutais de jornalistas sequestrados e executados pelo Estado Islâmico chocavam o mundo.
Em outubro de 2015, parti para uma cobertura ainda mais arriscada. De Paris, segui para a fronteira entre Turquia e Síria, um dos principais pontos de acesso clandestino para ocidentais que se uniam ao exército terrorista e rota de fuga para milhares de famílias desesperadas.
Fui detido pelo exército turco na fronteira com Kobani, na província de Aleppo. Com um fuzil apontado para o peito, um soldado informou que eu estava preso e seria deportado por estar em uma área restrita sem autorização para atuar como jornalista. Após meia hora de tensão, fui liberado sob a condição de seguir diretamente ao aeroporto. Em vez disso, parei no campo de refugiados Arin Mirkan, controlado pelo PKK, onde entrevistei um agricultor que perdera as pernas em uma explosão e registrei a chegada de água para crianças famintas. Com apoio da Unicef, finalizei a reportagem com segurança.
De volta a Paris, compilei um material exclusivo, exibido no programa Documento Verdade. O especial “Refugiados” pode ser visto no YouTube.
Acreditava que não me colocaria em risco novamente até a fatídica noite de sexta-feira, 13 de novembro de 2015. Paris foi palco do mais mortal atentado terrorista de sua história recente. Eu estava lá, cobrindo os eventos que transformaram uma noite comum na Cidade Luz em um cenário de terror.
Tudo começou durante um amistoso entre França e Alemanha no Stade de France. Explosões do lado de fora do estádio geraram pânico. Enquanto isso, terroristas armados com fuzis AK-47 disparavam contra clientes em bares e restaurantes. No Bataclan, uma casa de espetáculos lotada, atiradores interromperam o show da banda norte-americana Eagles of Death Metal, matando 90 pessoas em um massacre que durou horas.
Minha primeira entrada ao vivo foi diante do Stade de France, ainda tentando entender e transmitir a dimensão do horror. O caos tomou conta das ruas, informações desencontradas circulavam, e a polícia tentava conter os ataques coordenados. A França declarou estado de emergência, e o então presidente François Hollande ordenou bombardeios contra alvos do Estado Islâmico na Síria. O mundo chorou pelas 130 vítimas fatais. Paris nunca mais seria a mesma.
Agora, em 2025, uma década depois, as cicatrizes permanecem. O atentado transformou a segurança na Europa, reforçou debates sobre terrorismo e imigração, e deixou marcas profundas em todos que viveram aquela noite de horror. Como repórter na linha de frente, carrego comigo não apenas a lembrança do pânico, mas também a resiliência dos parisienses, que recusaram-se a sucumbir ao medo.
Recordo o silêncio nos dias seguintes, o luto coletivo e a força de uma população determinada a seguir em frente. Paris preserva a memória do ataque com monumentos e homenagens às vítimas. O tempo passa, mas aquela noite jamais será esquecida.
Em 2016, publiquei o livro Paris, Sexta-feira 13 pela editora Realejo, em parceria com a jornalista franco-brasileira Liz Feré. No início deste ano, lancei Paris, Naquela Noite – 10 anos dos ataques terroristas do Estado Islâmico, disponível gratuitamente no Kindle Unlimited, como contribuição para estudantes da área.
Vivo com a esperança de que um dia o mundo será um lugar sem guerras, sem espaço para o terror. Talvez seja apenas um devaneio de um ex-correspondente tentando apagar os traumas de sua memória.
À bientôt!
Até breve!
PESQUISA: O QUE A HISTÓRIA REGISTRA DESSE CASO
Em 13 de novembro de 2015, a cidade de Paris foi palco de um dos maiores atentados terroristas da história europeia.
O ataque, que resultou em 130 mortes e 352 feridos, foi executado por oito terroristas ligados ao Estado Islâmico, um grupo fundamentalista que ganhou notoriedade em 2014 por divulgar vídeos de decapitações e fuzilamentos.
Os ataques começaram por volta das 21h16, quando um homem-bomba detonou um cinto de explosivos nas imediações do Stade de France, onde estava sendo realizado um jogo entre as seleções francesa e alemã. O presidente da França, François Hollande, estava presente no estádio e foi retirado do local após a explosão.
Em seguida, houve ataques com fuzis e metralhadoras em vários restaurantes da cidade, incluindo o Le Carillon, o Le Petit Cambodge, o La Casa Nostra e o La Belle Équipe. Dezenas de pessoas morreram nesses ataques.
O ponto mais brutal dos ataques aconteceu na casa de shows Bataclan, onde cerca de 1.500 pessoas assistiam à apresentação da banda americana Eagles of Death Metal. Quatro terroristas armados invadiram o local, disparando contra a multidão e deixando 90 mortos. Enquanto muitos conseguiram escapar, 12 pessoas foram mantidas reféns por quase três horas, até que a polícia francesa invadiu o prédio e encerrou o cerco.
As investigações posteriores revelaram que os terroristas haviam recebido treinamento nos domínios do Estado Islâmico na Síria e haviam seguido um plano de ataque elaborado por Abdelhamid Abaaoud, um terrorista de nacionalidade belga. Abaaoud era considerado um dos principais líderes do Estado Islâmico na Europa.
O Estado Islâmico assumiu a autoria dos atentados e ameaçou outros países, incluindo os Estados Unidos. Em uma carta pública, o grupo terrorista declarou que os ataques foram uma resposta às ações militares francesas contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.
As autoridades francesas identificaram os oito terroristas envolvidos nos ataques como cidadãos franceses e belgas que haviam viajado para a Síria para se juntar ao Estado Islâmico. Seis deles morreram durante os ataques, enquanto dois outros foram mortos pela polícia nos dias seguintes.
O atentado em Paris foi um dos maiores ataques terroristas da história europeia e levou a uma resposta militar francesa contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. O ataque também levou a uma mudança na política de segurança da França e da União Europeia, com um aumento na cooperação entre os países para combater o terrorismo.
“Paris nunca mais foi a mesma, mas a cidade se reergueu”









