O Presidente da FENAUTO, Everton Fernandes, durante entrevista ao BC TV


Por Germano Oliveira

O mercado brasileiro de carros seminovos e usados registrou, em 2025, o maior volume de negócios dos últimos 13 anos, com a comercialização de aproximadamente 18,5 milhões de veículos.

O crescimento superior a 17% consolidou o segmento como o principal motor do setor automotivo nacional, superando com folga o desempenho dos veículos zero quilômetro.

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Segundo o presidente da Federação Nacional das Associações de Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), Everton Fernandes, o avanço expressivo foi impulsionado por três fatores principais: o preço elevado dos carros novos, a maior oferta de veículos usados — especialmente oriundos das locadoras — e a dificuldade da renda média da população em acessar modelos zero quilômetro.

Fernandes destacou ainda que a profissionalização do setor, o uso de laudos técnicos e ferramentas digitais de avaliação reduziram a desconfiança do consumidor em relação ao carro usado.

“Hoje é muito mais seguro comprar um seminovo do que no passado”, afirmou o dirigente da Fenauto, eleito para a presidência da Federação no fim do ano passado e que assumiu o cargo recentemente.

Everton Fernandes participou nesta segunda-feira (9) do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, falando com entusiasmo sobre o mercado aquecido e as perspectivas para este ano no setor.

A seguir, leia alguns dos principais pontos da entrevista de Fernandes a Germano Oliveira:

Germano Oliveira – Neste primeiro bloco, vamos falar sobre o mercado de carros usados no Brasil, que atingiu um recorde histórico no ano passado, com a comercialização de 18,5 milhões de veículos — um número que surpreendeu o mercado automotivo, até então dominado pela venda de carros zero quilômetro. Para explicar esse cenário, entrevistamos Everton Fernandes, presidente da Fenauto. Everton, o que está por trás desse crescimento histórico do mercado de carros usados no Brasil?

Everton Fernandes – De fato, como você já relatou, tivemos um crescimento muito significativo, acima de 17% em 2025. É um crescimento acima do que nós imaginávamos. Sabíamos que o mercado iria crescer de forma muito forte, mas foi além do esperado, por diversos fatores que contribuíram para esse crescimento expressivo.

O principal fator foi o preço. O preço realmente foi determinante para esse aumento nas vendas de carros usados. Além disso, tivemos uma elevação importante na oferta de veículos usados, principalmente por parte dos grandes frotistas e locadoras.

Depois do período pós-pandemia, quando houve falta de componentes e os preços dos carros novos subiram muito, essas empresas conseguiram renovar suas frotas. Em 2025, isso fez com que houvesse um aumento significativo da oferta de veículos no mercado.

Somente as locadoras colocaram cerca de 600 mil unidades no mercado brasileiro. Esse aumento de oferta fez com que outras trocas acontecessem e puxou novos negócios no segmento de seminovos.

Outro fator importante é que o preço do carro novo está muito elevado e distante da realidade da maior parte da população brasileira. A renda média não consegue mais alcançar o carro zero quilômetro. Hoje, apenas uma pequena parcela da população, basicamente a classe A, tem acesso real ao carro novo.

Esse conjunto de fatores fez com que o mercado de usados crescesse bastante.

Outro fator que sempre pesou contra o carro usado era a questão da segurança na compra. O carro novo traz as garantias da fábrica, enquanto o usado gerava incertezas.

Com a profissionalização do setor, o uso de meios digitais e ferramentas tecnológicas mais avançadas para avaliação dos veículos, laudos técnicos e certificações, o comprador passou a ter muito mais segurança. Isso contribuiu de forma muito forte para o crescimento das vendas de carros usados.

Germano Oliveira – Enquanto os usados cresceram mais de 17%, os carros novos cresceram apenas cerca de 2%. Por que o carro zero caiu tanto, se ainda é o sonho do brasileiro?

Everton Fernandes – É preciso olhar o mercado de forma sistêmica e interdependente. Para cada carro novo vendido, geralmente entra um usado na troca. Ou seja, cada carro novo já gera automaticamente a venda de um usado, que é um seminovo, e isso gera uma cadeia de trocas.

Historicamente, a relação era de quatro a cinco carros usados vendidos para cada carro novo. Em 2025, essa relação chegou a sete para um. Houve um crescimento muito forte dos usados em relação aos novos.

O mercado de carros novos precisa crescer em um ritmo mais acelerado para que seja possível manter o equilíbrio da frota circulante e permitir a renovação futura. Hoje, temos uma forte demanda por usados, muitas vezes maior do que a oferta.

Em 2025, esse equilíbrio só foi alcançado por conta da renovação das frotas dos grandes locadores.

Germano Oliveira – E quais são as dificuldades específicas do carro novo?

Everton Fernandes – A principal dificuldade é a tributação elevada, algo histórico no Brasil. Após a pandemia, os carros novos subiram muito de preço por conta do desequilíbrio entre oferta e demanda.

Além disso, os veículos passaram a ter a obrigação de incorporar cada vez mais componentes de segurança, que têm custo elevado. Isso distancia ainda mais o preço do carro novo da renda média da população brasileira.

O carro zero subiu de patamar. As montadoras têm lançado muitos SUVs, que têm preços mais altos. O consumidor que compra carro novo acaba optando por esses modelos.

Por outro lado, o mercado de usados oferece veículos com quilometragem mais baixa, melhores condições e preços mais acessíveis, o que atrai o consumidor.

Germano Oliveira – Qual é o cenário da frota brasileira hoje?

Everton Fernandes – Hoje temos uma frota com idade média entre 10 e 11 anos. É uma frota envelhecida. Isso faz com que o consumidor não consiga dar um salto direto de um carro com 10 anos de uso para um carro zero quilômetro.

Ele acaba subindo essa escada aos poucos, comprando veículos com menos anos de uso, tentando chegar ao carro novo quando possível.

No Brasil, a média de rodagem anual de um veículo de uso pessoal é de cerca de 20 mil quilômetros por ano. Um carro com três anos de uso costuma ter entre 60 e 70 mil quilômetros rodados.

Essa quilometragem ainda mantém um bom valor de mercado para troca. A partir disso, o veículo começa a depreciar mais, dependendo do estado de conservação, procedência, mecânica, funilaria e quilometragem.

Germano Oliveira – Antes de vender o carro, o consumidor costuma fazer revisões. Isso impacta o mercado?

Everton Fernandes – Sem dúvida. A cadeia de carros usados e seminovos movimenta fortemente o setor de autopeças, oficinas e serviços. O veículo passa por revisão, preparação para venda e até higienização.

Quando o consumidor compra um seminovo de uma revenda estabelecida, ele tem garantias legais. Hoje, além do mecânico de confiança, existem empresas especializadas em laudos técnicos.

Essas empresas, muitas vezes respaldadas por seguradoras, garantem a procedência do veículo. Se o laudo não corresponder à realidade — em caso de sinistro, adulteração ou irregularidade — o comprador é indenizado.

Ou seja, hoje é muito mais seguro comprar um carro usado do que no passado.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça o novo presidente da Fenauto

José Éverton Fernandes assumiu em janeiro de 2026 a presidência da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).

Formado em economia e com pós-graduação em administração empresarial pela Universidade de Fortaleza, Fernandes atua há mais de três décadas no setor automotivo. Sua trajetória inclui participação em segmentos como Auto Shoppings e revendas de veículos.

No campo institucional, já ocupou cargos de liderança em entidades empresariais. É diretor e 1º secretário da Fecomércio-CE, conselheiro da Associação Comercial do Ceará (ACC) e do Sebrae. Também preside o Sindicato dos Revendedores de Veículos do Estado do Ceará (Sindivel) e foi vice-presidente da própria Fenauto.

Fernandes disse que a nova gestão marcará a continuidade de sua atuação voltada ao fortalecimento da representatividade empresarial e à defesa do setor de revendas de veículos no país.

O que é a Fenauto

Congresso da Fenauto, que reuniu revendedores de todo o país. (Foto: Divulgação)

A Fenauto (Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores) é a principal entidade representativa do comércio de veículos seminovos e usados no país.

Criada para organizar e fortalecer o setor, a federação reúne 30 associações regionais e representa cerca de 48 mil revendedores espalhados pelo Brasil.

A Fenauto produz indicadores periódicos sobre o mercado de usados, atua na formação e disseminação de boas práticas comerciais e promove debates sobre crédito, regulamentação e inovação tecnológica.