Em um discurso na cúpula do Mercosul, em Buenos Aires, o presidente argentino, Javier Milei, não poupou palavras ao defender uma guinada radical na política comercial do bloco.
Com a metáfora de que o Mercosul não pode continuar sendo uma “cortina de ferro”, Milei deixou claro o objetivo primordial de seu governo: a abertura de novos mercados e a liberdade econômica.
Ao encerrar a presidência pro tempore da Argentina, Milei enfatizou a urgência de flexibilizar as regras internas do bloco. Ele celebrou o avanço das negociações com a União Europeia (UE) e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), e defendeu a continuidade das conversas com países como Israel, Emirados Árabes Unidos, El Salvador e Panamá.
A mensagem foi inequívoca: “ou faremos juntos ou sozinhos”, caso os demais membros não compartilhem da mesma agenda.
“A Argentina não pode esperar, precisamos de mais liberdade de forma urgente. Deixamos para trás décadas de estagnação”, declarou Milei.
Agenda paralela
Apesar da agenda oficial, a cúpula foi marcada por um encontro extraoficial que gerou burburinho: a visita do presidente Lula à ex-presidente argentina Cristina Kirchner. Embora o tema não tenha sido comentado publicamente pelos argentinos, a ausência de um diálogo mais aprofundado entre Lula e Milei, que se limitaram a um cumprimento formal na foto oficial, demonstrou a tensão nos bastidores.
Milei, por sua vez, manteve o foco em seus pontos centrais: comércio e segurança. “Temos de deixar de pensar o Mercosul como escudo que nos protege do mundo, e sim uma lança que nos permita entrar em mercados globais”, afirmou o presidente argentino. Ele também fez um apelo à união, declarando: “Não podemos deixar que diferenças em questões acessórias nos dividam.”
Malvinas e liberdade econômica
Em um raro momento de conciliação, Milei agradeceu o apoio dos países do bloco à soberania das Ilhas Malvinas, uma causa histórica para a Argentina e sempre endossada pelo Brasil.
Contudo, a maior parte de seu pronunciamento foi dedicada a reforçar a visão de um Mercosul globalmente conectado e com total liberdade econômica.
Nos seis meses de sua presidência pro tempore, a Argentina já obteve avanços nesse sentido, como a ampliação de exceções à Tarifa Externa Comum (TEC) e a conclusão das negociações com a EFTA. Milei expressou a expectativa de que o Brasil, que agora assume a presidência do bloco, dê continuidade a esse caminho de abertura.
Venezuela e segurança
A questão da Venezuela foi outro ponto de divergência. O governo argentino tentou emplacar uma declaração com linguagem mais dura sobre a situação do país, o que não foi bem recebido por outros membros, incluindo o Brasil, que condicionava a condenação da violação dos direitos humanos à condenação das sanções contra a Venezuela. A negociação não avançou, e nenhuma declaração conjunta sobre o tema foi emitida.
No entanto, em seu discurso, Milei não se calou: “Condenamos os casos de detenções ilegais na Venezuela, onde as pessoas são presas e seus direitos são violados. Voltamos a reclamar a liberação do policial militar Nahuel Gallo.”
Além disso, o presidente argentino defendeu a criação de uma agência de combate ao crime organizado no Mercosul, visando conter o avanço de grupos como o Comando Vermelho na região.
Ao final de sua fala, Milei proferiu sua já conhecida expressão: “Que as forças dos céus nos acompanhem”, uma referência ao Livro dos Macabeus. Diferentemente de outros contextos, o presidente evitou seu famoso grito de guerra “Viva la libertad carajo”, talvez em respeito à plateia de diplomatas e chefes de Estado.





