Lindolfo Paoliello
Lindolfo Paoliello


Lindolfo Paoliello*

Maurício Nabuco, o embaixador do savoir-vivre, dedicou uma Sexta-feira de Cinzas a escrever um libreto delicioso sobre a drinkologia – a arte de preparar drinks. Dediquei a véspera desta “Sexta-feira Santa” à tentativa de resolver, no meu íntimo, a questão entre Minas e o martírio.

O calendário litúrgico reserva a Semana Santa à reflexão, dor e lamento pelo martírio de Cristo, que se apresenta então sob a forma de Nosso Senhor dos Passos com a coroa de espinhos, o rosto respingado de sangue e o manto roxo.

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O mineiro toma o manto e crava na própria cabeça a coroa, fazendo de sua vida uma via-crúcis.

Alto lá, leitor. Não se apresse! Também sei que, depois da paixão, vem o Sábado da Aleluia, com fogos de artifício e comemorações. Sabe disso muito bem o mineiro, mas mineiro não permite a Aleluia assim, sem mais nem menos: prorroga sua paixão, desconfia da ressurreição, protela a comemoração.

Desconfia de tudo, o homem das Minas Gerais: duvida, hesita e aguarda. Teme o sucesso. Rejeita-o, por duvidar se será duradouro ou não e, na possibilidade de cantar vitória antes do tempo, afasta a ideia, nega a verdade.

Observando há gerações o exemplo das jazidas minerais que a terra cobre e protege, o mineiro esconde a riqueza. Rico, vive como pobre. Tendo todas as razões para comemorar, lamenta. Podendo ostentar riqueza e pujança, é na discrição que vive.

Quando a vida é entreaberta, a espontaneidade choca, a franqueza assusta. Brotam os recalques, proliferam-se os tabus, esconde-se a vitória e, onde se oculta a autorrealização, impede-se a felicidade.

Ah, Minas! Belo Horizonte entre montanhas, minérios, rios, sol abundante, população, espaço, matéria-prima. É muito mais fácil mostrar do que esconder tudo isso. No entanto, toda cautela é pouca: o Reino trucidou Tiradentes, os militares cassaram JK, o destino castigou Tancredo.

Já pagamos nossas penas. Chega de mártires! Vamos reconhecer e incentivar nossos heróis vivos. Abrir as janelas, deixar entrar o sol, celebrar a vida.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.