Nelson Rodrigues Filho, que morreu nesta quarta-feira no Rio. (Foto: EBC)


O Brasil perdeu nesta quarta-feira (25) uma de suas figuras mais marcantes da resistência política e da cultura popular: Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho, ex-militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), diretor teatral, roteirista e fundador do tradicional Bloco do Barbas.

Ele era filho do jornalista e escritor Nelson Rodrigues.

Nelsinho morreu no Rio de Janeiro, aos 79 anos, deixando um legado que atravessa a luta contra a ditadura militar e a revitalização do carnaval de rua carioca.

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Resistência contra a ditadura

Nelsinho foi um dos militantes que enfrentaram de forma direta o regime militar instaurado em 1964. Preso por sua atuação política, passou sete anos encarcerado, período em que sofreu torturas e chegou a ser condenado à morte — sentença que não foi executada e acabou revertida.

Sua postura diante da Lei da Anistia de 1979 revelou a firmeza de suas convicções: recusou-se a deixar a prisão imediatamente, por considerar que não havia cometido crime algum.

Para ele, lutar contra a ditadura era um dever, e aceitar a anistia significava ser “perdoado” por algo que não deveria ser considerado delito.

Essa atitude simbolizou sua crítica ao caráter da lei, que também beneficiava agentes da repressão responsáveis por torturas e assassinatos.

Arte e carnaval como trincheiras

Após a prisão, Nelsinho seguiu uma trajetória independente nas artes cênicas e na produção cultural. Em 1985, fundou em Botafogo o Bloco do Barbas, que se tornou referência de um carnaval democrático, irreverente e crítico. O nome remetia à barba longa que cultivou por toda a vida e que se tornou sua marca pessoal.

O Barbas, junto à associação Sebastiana, destacou em nota que Nelsinho foi “diretor combativo, militante da democracia e apaixonado pelo carnaval de rua”. Por décadas, esteve à frente da organização dos desfiles, negociando com órgãos públicos e garantindo que o carnaval permanecesse como espaço de resistência e alegria popular.

Reconhecimento oficial

O Ministério da Cultura lamentou sua morte, ressaltando que Nelsinho manteve ao longo das décadas uma atuação engajada, sempre aliando cultura, memória e participação política. A pasta afirmou que sua partida representa “uma perda significativa para o teatro brasileiro, para a produção cultural e para a história do carnaval de rua do país”.

Legado

Mais do que filho do escritor Nelson Rodrigues, Nelsinho construiu sua própria história. Foi militante que enfrentou a repressão, artista que iluminou os palcos e ativista cultural que reinventou o carnaval carioca.

Seu legado permanece vivo nos desfiles do Barbas, na memória da Sebastiana e na lembrança de todos que acreditam no carnaval como espaço de crítica, irreverência e celebração popular.