O aquecimento dos oceanos levou a costa brasileira a ter uma mortandade recorde de recifes de coral em 2024 – e as perspectivas para estes organismos, que abrigam nada menos do que 30% da biodiversidade marinha, são nada animadoras. No ritmo atual de aumento da temperatura do planeta e dos fenômenos climáticos extremos, os corais tendem a desaparecer dos oceanos, informa a Rádio França Internacional.
Segundo a emissora, “o primeiro passo é eles – os recifes de corais – perderem a sua cor: microalgas que vivem nas células dos corais e os alimentam, chamadas zooxantelas, resistem mal ao calor. Elas passam a produzir substâncias tóxicas para o coral, que, em reação, expulsa essas algas – mas, sem elas, o coral fica vulnerável a doenças e morre de fome.
“O coral, quando está branco, ainda está vivo, mas está na UTI. Alguns conseguem se recuperar, outros morrem, e os que morrerem, vai ficar só o esqueleto exposto dele. Com a ação das ondas, dos organismos que vão colonizando esse esqueleto, ele vai se fragmentando, se tornando mais poroso, e começa a quebrar”, explica o professor de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP) Miguel Mies, e coordenador do Instituto Coral Vivo.
“Toda a sua estrutura começa a ficar mais simples, plana. Por isso que a mortalidade dos corais é a perda de uma biodiversidade como um todo que vive ali.”
De acordo com a emissora estatal francesa, a complexidade biológica dos recifes faz com que eles sejam conhecidos como engenheiros ecossistêmicos. Mortos, estes ambientes deixam de servir de abrigo, alimentação e local de reprodução para milhares de peixes, crustáceos e outros organismos.
MORTANDADE
O branqueamento e a morte dos recifes é documentado pela ciência há mais de 40 anos, principalmente no Caribe e no Indo-pacífico. O Brasil vinha sendo poupando até que, em 2019, uma forte onda de calor gerou a primeira mortandade de corais no país, entre elas algumas espécies ameaçadas de extinção que só existem na costa brasileira.
A ocorrência do fenômeno El Niño em 2023 e 2024 e de prováveis novas ondas de calor deixou os pesquisadores do Instituto Coral Vivo em alerta: durante um ano, os cientistas monitoraram recifes do Ceará a Santa Catarina, numa extensão de quase 3 mil quilômetros, o maior programa do gênero do planeta. Como esperado, o impacto no nordeste foi devastador, principalmente no Alagoas, Rio Grande do Norte e norte da Bahia, diz a rádio.
“Os recifes monitorados de Maragogi, no Alagoas, foram dizimados. Estamos terminando os cálculos, mas a mortalidade é perto de 100%. Tudo que tinha de coral naquela região morreu”, relata o pesquisador. “Branquearam, não conseguiram resistir ou voltar a um estado saudável, tamanho o acúmulo de calor e a sua duração. A gente está começando a ver alguns desses ambientes recifais lentamente se extinguirem no Brasil”, constata.
Miguel Mies salienta que, no contexto das mudanças climáticas, em que o mundo caminha para uma elevação superior de 1,5°C da temperatura global e as ondas de calor tendem a ser cada vez mais frequentes, as chances de recuperação dos recifes são limitadas. O tempo de reprodução deles é longo, de modo que não conseguem suportar dois episódios de altas temperaturas em um intervalo curto.
“Infelizmente, a gente não tem nenhum motivo para pensar que isso vai melhorar ou nem se manter como está. A gente sabe que vai piorar, porque a tendência no Brasil já é essa”, diz.
Segundo Mies, os oceanos perderam mais de metade de todos os corais do mundo nos últimos 35 anos, e a expectativa é que somente 5% dos que haviam no planeta resistirão até 2050.
“Não dá para a gente falar em recuperação significativa, relevante, sem interromper o calor e isso é um esforço que não tem resultados da noite para o dia. Envolve uma união global que não é exatamente o que está acontecendo”, lamenta o professor da USP.
O ano de 2024 foi o mais quente já registrado na Terra e, pela primeira vez, as temperaturas médias superaram a alta de 1,5°C, definida como meta no Acordo de Paris sobre o Clima. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada às Nações Unidas, indicou que os oceanos também atingiram o pico mais quente de aquecimento já registrado pelo homem, “não apenas na superfície, como nos 2 mil metros superiores”, disse a agência, citando os resultados de uma pesquisa realizada em sete países e publicada na revista Advances in Atmosferic Sciences.
A OMM também destacou que cerca de 90% do excesso de calor devido ao aquecimento global é estocado nos oceanos, o que indica a que ponto eles estão na linha de frente das mudanças do clima.




