O iraniano Hamidreza Afarideh toca no lugar onde trabalhava com crianças e adultos. (Reprodução: Vídeo)


Em Teerã, onde a poeira da destruição causada nos edifícios por mísseis americanos e israelenses não assenta, o que resta da Academia de Música Honiak é um vazio barulhento. No centro do deserto de concreto e memórias retorcidas, um homem decidiu que o silêncio não teria a última palavra.


Hamidreza Afarideh, músico de alma moldada pelo kamancheh e pelo gheychak, não está ali para procurar o que sobrou de seus bens. Ele está ali para resgatar o que a guerra não pode implodir: o espírito.

A Academia Honiak, fundada há apenas dois anos por Afarideh e sua esposa, Sheida Ebadatdoust, era mais que uma escola; era um parêntese de beleza em um mundo que teima em ser ríspido. Por seus corredores, cerca de 250 alunos — de crianças a idosos — buscavam na música clássica persa uma linguagem que os protegesse da realidade lá fora.

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No dia 23 de março, porém, a realidade veio do céu. Um drone, parte da engrenagem cega dos conflitos geopolíticos, transformou o refúgio em ruína em uma única noite. Felizmente, as notas musicais haviam sido silenciadas preventivamente dias antes. O fechamento da escola evitou que o luto fosse de sangue, mas não impediu que fosse de alma. Quinze anos de patrimônio, instrumentos raros como o setar e o santur, e o suor de uma vida inteira foram reduzidos a pó.

Há algo de profundamente humano, e quase quixotesco, em ver um homem de formação erudita, ex-aluno do Soureh Music Arthouse, empunhar seu arco entre vigas expostas. Afarideh, que já colaborou com mestres como Loris Tjeknavorian, agora faz o seu concerto mais difícil: o concerto para uma plateia de escombros.

As fotos que circulam o mundo não são apenas registros de um desastre; são crônicas visuais da resistência. Ao tocar sob o céu aberto de Teerã, Afarideh transforma a Academia Honiak em um símbolo global. Ele não grita ordens, nem dispara armas. Ele apenas deixa que a música diga o que a diplomacia falhou em articular.

O recado é curto, seco e sensível, como um acorde bem executado: “Não à guerra. Sim à paz.”

A destruição da Honiak nos lembra que, quando uma escola de música cai, não caem apenas paredes. Cai um projeto de futuro, um arquivo de esperança. No entanto, enquanto Afarideh mantiver o arco sobre as cordas, a academia continuará existindo — não como um endereço fixo, mas como uma canção que a guerra, por mais potente que seja o seu motor, jamais conseguirá aprender a cantar.