Moisés Rabinovici*
Na véspera de Pessach, a Páscoa judaica, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu declarou em vídeo aos israelenses: “O Irã não é mais uma ameaça existencial a Israel”, após um mês de combate.
Pessach celebra a libertação dos escravos judeus do Egito, sob a liderança de Moisés. Em paralelo às dez pragas do relato bíblico, Netanyahu afirmou ter desferido dez golpes no que chamou de “Eixo do Mal”, mas listou apenas seis: Irã, Hezbollah, Hamas, Houthis e milícias iraquianas — aos quais acrescentou depois um sétimo alvo, a Síria do ditador Bashar al-Assad.
“Neste feriado de libertação, Israel está mais forte do que nunca”, disse. “O Irã não pode mais ameaçar a nossa existência.” Segundo ele, a República Islâmica investiu cerca de US$ 1 trilhão em seu reforço militar — “tudo perdido”. Netanyahu também lamentou os custos do conflito e a morte de quatro soldados no Líbano, no dia anterior.
Mas a guerra continuava ontem.
O Hezbollah disparou 40 foguetes contra o norte de Israel, acionando sirenes que levaram moradores de Haifa, Kiryat Ata, Kiryat Bialik, Nesher e Tirat Carmel aos bunkers. Os serviços de emergência relataram atendimento a duas pessoas por crises de ansiedade.
Bombardeiros B-52 sobrevoaram o Irã pela primeira vez desde o início do conflito, agora em seu segundo mês. O comandante Dan Caine afirmou que a decisão foi possível porque as defesas aéreas iranianas “foram significativamente degradadas”. Capazes de transportar cargas massivas de bombas, os B-52 são, por outro lado, lentos para escapar de radares.

Segundo o general, a aviação americana passou a focar na destruição das cadeias de suprimento que alimentam as indústrias de mísseis e drones. Ontem, uma bomba de penetração atingiu um arsenal subterrâneo em Isfahan, provocando múltiplas explosões e formando um cogumelo de fumaça — imagem típica de detonações de grande escala.
O presidente Donald Trump divulgou um vídeo das explosões. Ele defende agora enterrar ainda mais profundamente os 440 quilos de urânio enriquecido a 60% soterrados em Isfahan e Natanz — possivelmente também na usina de Fordo —, atingidos nos bombardeios de junho de 2025. Refinado a 90%, esse material poderia ser usado para até 11 bombas nucleares.
Em vez de uma operação terrestre para resgatá-lo, considerada arriscada, a estratégia seria selar túneis, rotas de acesso e infraestrutura com camadas de até cem metros de rocha. Caso os iranianos decidam escavar, levariam cerca de um ano — sob vigilância constante de Israel e dos EUA.
Trump voltou a emitir sinais contraditórios sobre os objetivos da guerra, alternando ameaças de destruição ao Irã com declarações de avanço diplomático. Também voltou a criticar aliados. Em sua rede social, escreveu: “Vocês terão que aprender a lutar por si mesmos.” E acrescentou: quem quiser petróleo, que vá buscá-lo no Estreito de Ormuz — algo de que, segundo ele, os EUA não dependem.
China e Paquistão apresentaram uma proposta de paz em cinco pontos: cessar-fogo imediato; abertura de negociações; interrupção de ataques a infraestrutura (energia, água etc.); reabertura do Estreito de Ormuz; e um acordo com apoio da ONU. A Casa Branca afirmou não se opor à iniciativa.
No Irã, 1.574 civis foram mortos desde o início da guerra, incluindo 236 crianças, segundo a agência Ativistas de Direitos Humanos. No Líbano, o Ministério da Saúde registra 1.260 mortos e mais de 3.750 feridos. Ao menos 50 pessoas morreram nos países do Golfo atingidos por ataques iranianos. Israel contabiliza 17 mortos. E os Estados Unidos, 13 soldados mortos e centenas de feridos.
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.





