Caro Neymar,
O Brasil sangra em campo. A derrota humilhante por 4 a 1 para a Argentina não foi apenas uma goleada — foi uma ferida aberta no coração de milhões de torcedores. E no meio do luto nacional pelo futebol que um dia encantou o planeta, seu nome ressurge como a última chama de esperança.
Mesmo seus maiores críticos, aqueles que te julgam sem piedade, no fundo sabem: sem você, a Seleção perdeu mais do que um camisa 10. Perdeu alma, brilho e, sobretudo, liderança.
A Seleção Brasileira vive uma crise de identidade. A camisa amarela, que já foi sinônimo de respeito e medo para qualquer adversário, hoje está desbotada, carregada de dúvidas e vergonha. Quem nos acostumou a dançar com Pelé, Zico, Romário, Ronaldo e Ronaldinho agora se arrasta em campo, sem direção, sem alma. E é impossível não olhar para você, Neymar, como a peça que falta para reacender esse fogo.
Não se trata apenas de talento. Isso você tem de sobra. Trata-se de liderança. De ser o jogador que carrega o time nas costas quando tudo parece perdido. Pelé fez isso em 1958. Romário, em 1994. Ronaldo, em 2002. E agora, Neymar, chegou a sua vez de reescrever o destino da Seleção.
Mais do que um craque, o Brasil precisa de um herói. Alguém que inspire, que levante a cabeça e siga em frente, mesmo coberto de críticas e dores. Alguém que mostre para os mais jovens o que significa vestir a camisa mais pesada do mundo. Alguém que jogue com a alegria de uma criança e a coragem de um guerreiro.
Sabemos das suas dores, das suas lesões e do peso que você carrega desde cedo. Mas também sabemos da sua genialidade, do seu talento inquestionável e da sua capacidade de decidir jogos com uma jogada mágica. O Brasil não pode abrir mão disso. Você tampouco.
Chegou a hora de abandonar o que não soma. Concordo com você: ninguém tem nada a ver com sua vida pessoal — isso, porém, se você fosse apenas um jogador de futebol. Mas você é mais do que isso: você é o grito entalado na garganta do brasileiro na próxima Copa. Você é a lágrima de alegria. Você é a união da esquerda e da direita se abraçando no meio da multidão comemorando um gol. Você é a trégua na briga dos vizinhos, o esquecimento momentâneo do boleto atrasado, a esperança renovada para o povo que, por um instante, deixa de lado a corrupção e a dor.
Esta carta não é só um pedido, é um apelo. Volte, Neymar. Volte não apenas para jogar futebol, mas para resgatar a esperança de um país inteiro. Mostre que o menino de Mogi das Cruzes, que encantou o mundo no Santos e brilhou na Europa, ainda tem muito a dar à Seleção.
Sua grandeza no futebol o mundo já conhece. Mas precisamos de algo maior. A palavra de ordem é concessão. É hora de renunciar ao que te prende. No fundo, você sabe o que ainda prejudica sua evolução. Pode doer admitir. Mas doer mais ainda é ver seu nome virar meme, é ver seus algozes zombando de sua história. Parças, festas, eventos, dinheiro, patrocínios, cortes de cabelo — tudo isso você já tem e sempre terá. Mas a chance de entrar para a eternidade, essa tem apenas 438 dias pela frente.
Imploramos: se abdique de tudo e de todos por um bem maior, só até o próximo mundial. Por você. Por nós. Por um Brasil que não desistiu de você. E que espera, de coração apertado, que você não desista dele.
Com admiração e esperança,
Um torcedor brasileiro
*Marcos Clementino é jornalista, ex-correspondente de TV na Europa; finalista do prêmio Walkley Awards de melhor cobertura de jornalismo investigativo em New South Wales, na Austrália, em 2012. Em 2017, recebeu o Troféu Periferia, considerado o “Óscar da Quebrada”, idealizado pela ORPAS – Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais, em reconhecimento ao seu trabalho e contribuição à comunidade. Ainda em 2017, seu legado foi eternizado no bairro de origem com um mural de grafite, o Feras do Campo Limpo, assinado pelo artista plástico Gerri Alves; é autor de três livros: Paris, Sexta-Feira 13, Olho Vivo, Faro Fino! e O Tubarão da Berrini; hoje é sócio-diretor da MMC Benefits, acionista da Eats For You e franqueado da Prudential do Brasil, e especialista no mercado de seguros.




