Com a autoridade de quem recebeu o Nobel de Economia em 2019, a francesa Esther Duflo defendeu em Brasília que políticas públicas só avançam quando submetidas a avaliações rigorosas — e anunciou parceria inédita que vai capacitar servidores brasileiros a aplicar métodos científicos na gestão estatal.
Aula magna em Brasília
A economista francesa Esther Duflo, vencedora do Nobel de Economia, ministrou aula magna nesta terça-feira (17) na Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em Brasília. O evento marcou a assinatura de convênio entre a instituição, a Fundação Lemann e a Universidade de Zurique, que permitirá a capacitação de servidores públicos brasileiros em avaliação contínua de políticas públicas.
Obstáculos à gestão
Duflo destacou três entraves recorrentes na formulação de políticas: ignorância sobre a realidade local, ideologia que substitui dados por crenças e inércia que mantém programas ineficazes apenas por tradição. Para ela, avaliações controladas aleatórias — semelhantes a testes clínicos de medicamentos — são capazes de identificar com precisão o que funciona e o que deve ser corrigido.
“O objetivo é usar a avaliação para avançar, para ir do que não funciona para algo que funcione melhor”, afirmou.
Experiências internacionais
O programa Ensino no Nível Certo, que agrupa alunos por nível de conhecimento e não por idade, foi citado como exemplo de política que só prosperou após ajustes baseados em evidências. Hoje, beneficia milhões de crianças na Índia, em 17 países da África e já começa a ser aplicado no Brasil.
No Espírito Santo, outra iniciativa testada com monitoramento científico envolve inteligência artificial para correção de redações. Após resultados positivos, o projeto foi ampliado para 100 mil estudantes.
Efeito vizinho
Durante conferência da Confederação Nacional de Municípios, pesquisadores mostraram que prefeitos expostos a evidências científicas aumentaram em um terço a probabilidade de adotar políticas de desenvolvimento infantil e conformidade tributária. Mais notável, segundo Duflo, foi o “efeito vizinho”: municípios próximos também passaram a implementar as medidas, independentemente de partido político, ampliando em 40% a adoção regional.
Políticas no Brasil
A ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, encerrou o evento defendendo o uso de dados na formulação de políticas. Ela citou o redesenho do Bolsa Família como exemplo de programa que, sem aumento de orçamento, conseguiu eliminar novamente a fome no país.
Convênio internacional
O acordo firmado prevê bolsas de estudo e oportunidades acadêmicas para gestores brasileiros:
- Micromasters: 150 bolsas em cursos online de Economia de Dados e Design de Políticas Públicas
- Mestrado em Zurique: duas bolsas anuais
- Doutorado e pesquisa: posições vinculadas ao Lehmann Collaborative
- Visiting Fellows: estadias curtas para desenvolvimento de projetos estratégicos




