Carlos Alberto Tavares Ferreira*
A frase “quem manda no planeta é quem produz comida” revela uma verdade geopolítica cada vez mais evidente. Em um mundo pressionado por mudanças climáticas, conflitos armados, inflação global e cadeias de suprimento fragilizadas, o alimento se tornou o novo petróleo. E quem o produz com eficiência e escala detém uma das maiores ferramentas de influência e soberania do século XXI.
O Brasil como Potência Alimentar
O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário. Somos um dos maiores exportadores mundiais de soja, milho, carne, café, frutas e celulose. Mas o que mais incomoda e, ao mesmo tempo, impressiona o mundo não é apenas a quantidade; é a capacidade única de produzir o ano inteiro em ambientes tropicais, com alta tecnologia e ganhos sustentáveis.
Enquanto países do norte global enfrentam restrições climáticas, escassez hídrica e perda de fertilidade dos solos, o agronegócio brasileiro:
- Integra lavoura, pecuária e floresta, regenerando áreas degradadas;
- Usa biotecnologia, mapeamento via satélite, sensores de solo e inteligência artificial para tomar decisões mais precisas e sustentáveis;
- Vem ampliando zonas de produção de baixo carbono e certificação verde, inclusive com créditos ambientais.
Nem Vilão, Nem Privilégio: O Agronegócio Brasileiro é Real, Plural e Essencial
Existe uma narrativa equivocada, muitas vezes repetida sem análise, de que o agronegócio brasileiro só é competitivo porque recebe “subsídios robustos”, como se estivesse artificialmente inflado por benesses estatais. Essa visão, além de superficial, ignora dados, distorce a realidade fiscal do país e invisibiliza milhões de produtores que sustentam o Brasil com trabalho, ciência e resiliência.
O Brasil Subsidia Menos do que as Potências que nos Criticam
Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil destina menos de 2% do valor bruto da produção agropecuária a apoios diretos aos produtores. Em contraste:
- União Europeia: mais de 20% via Política Agrícola Comum (PAC);
- Estados Unidos: entre 10% e 12%, com subsídios diretos, seguro rural público e compra governamental;
- China: mais de 15% em subsídios à produção e ao crédito.
Fonte: OECD – Agricultural Policy Monitoring and Evaluation 2023
Ou seja, quem acusa o agronegócio brasileiro de ser “subsidiado” muitas vezes esquece ou esconde que os países do Norte global praticam subsídios muito mais agressivos.
O Agronegócio Brasileiro não é um Bloco Homogêneo. É um Ecossistema Produtivo Plural.
Reduzir o agronegócio à caricatura do latifúndio exportador é um erro técnico e social. O setor é formado por:
- Pequenos produtores familiares, que abastecem feiras, mercados locais e os CEASAs de todo o país;
- Cooperativas agroecológicas e indígenas, com práticas sustentáveis de base comunitária;
- Médios produtores, que sustentam cadeias de leite, frutas, café e agricultura orgânica;
- Grandes produtores, que dominam tecnologia, empregam milhares e garantem superávit comercial, reservas cambiais e estabilidade fiscal ao país.
O agronegócio é quem põe comida no prato dos brasileiros e dólar no caixa da economia. Ignorar isso é negar a soberania alimentar e econômica do país.
A Força do Agronegócio Está na Ciência Tropical, Não no Privilégio Artificial
A produtividade agrícola brasileira não explodiu por mágica ou por política de Estado isolada, mas por décadas de investimento em:
- Genética adaptada ao trópico (soja, milho, arroz, algodão, feijão);
- Biotecnologia nacional (Embrapa, universidades, institutos de pesquisa);
- Agricultura de precisão, drones, IA, bioinsumos;
- Modelos regenerativos como ILPF, plantio direto e recuperação de pastagens.
Exemplo: a produtividade da soja brasileira mais do que dobrou entre 1975 e 2023 (de 1.500 kg/ha para +3.500 kg/ha), sem depender de subsídios diretos, mas com base em ciência tropicalizada.

Produção e Preservação Caminham Juntas. Essa é a Força do Agronegócio Brasileiro.
Com mais de 66% do território nacional coberto por vegetação nativa, segundo o MapBiomas, e um Código Florestal que exige reserva legal de até 80% em certas regiões, o produtor brasileiro:
- Conserva mais que os países que nos acusam;
- Investe em tecnologia de rastreabilidade e sustentabilidade;
- Muitas vezes financia sozinho as exigências ambientais da legislação.
Em vez de vilanizar, o mundo deveria aprender com um agronegócio que produz com floresta em pé, sequestra carbono e integra conservação à produção.
Um Setor que Precisa de Apoio, Não de Ataque
O verdadeiro desafio do agronegócio não está em lidar com a terra. Está em lidar com as narrativas distorcidas que tentam enfraquecer sua legitimidade internacional.
É hora de compreender que:
- O agronegócio não é inimigo do meio ambiente;
- O agronegócio não é um bloco único de privilégios;
- O agronegócio não é o vilão do futuro. Ele é parte central das soluções climáticas, sociais e econômicas.
Conclusão
O agronegócio brasileiro não é sustentado por subsídios. É sustentado por milhões de mãos que trabalham, aprendem e produzem no sertão, no cerrado, na floresta e no campo. De quem planta hortaliças no quintal até quem exporta proteína para 140 países, todos fazem parte de uma teia que alimenta o Brasil e o mundo.
O que nos diferencia não é o privilégio. É a inteligência tropical, a pluralidade produtiva e a vontade de mostrar que aqui, no Brasil, produzir e preservar são parte do mesmo compromisso com a vida.
O Incômodo Internacional
Esse protagonismo desperta desconfiança e resistência no cenário internacional:
- Concorrentes agrícolas temem perder mercado diante da competitividade brasileira.
- ONGs e governos estrangeiros pressionam com exigências ambientais muitas vezes não aplicadas aos seus próprios produtores.
- Há uma disputa crescente em torno de narrativas sobre sustentabilidade, muitas vezes com tom neocolonial travestido de ambientalismo.
O artigo continua amanhã.
*Carlos Alberto Tavares Ferreira é fundador e CEO da Carbon Zero em Curitiba. Atua no setor de sustentabilidade, com foco em programas socioambientais. Fundou e dirige a Fundação Tavares Ferreira, voltada à formação de parcerias no setor socioambiental, e o CAPES – Centro de Apoio e Pesquisa, especializado em certificações de projetos de carbono.





