Gudryan Neufert*
O esporte vive uma encruzilhada identitária, oscilando entre o jornalismo e o entretenimento. Independentemente do viés escolhido, um fato é inegável: o setor movimenta cifras bilionárias. De acordo com a Câmara Americana de Comércio, o esporte gera cerca de US$ 1 trilhão por ano. Se fosse um país, estaria no G20, à frente da Suíça.
Além dos números astronômicos, o esporte desperta paixões intensas — sentimentos que nascem cedo, tanto para torcedores quanto para talentos. No caso da Fórmula 1, o Brasil já viveu histórias marcantes de amor pelas pistas. Mas há tempos corre órfão de um ídolo nacional. Para mudar esse cenário, é preciso revelar um novo protagonista brasileiro.
E é aí que entram os interesses comerciais. O Brasil tem um novo nome no grid: Gabriel Bortoleto. Em 2024, ele conquistou o título da Fórmula 2, a principal porta de entrada para a F1. O piloto de Osasco, São Paulo, está no centro das atenções na semana de estreia da temporada na Austrália.
O jornalismo, em meio à fusão entre dinheiro e paixão, também assume um papel fundamental: a construção da narrativa em torno do piloto. A forma como a mídia apresenta um atleta pode influenciar sua imagem pública — e a abordagem varia conforme os interesses.
A emissora responsável pela transmissão das corridas destacou um aspecto positivo de Bortoleto:
“Quando eu comecei no kart, sinceramente, não era um dos melhores na chuva. Mas, com o tempo e o treino, acabei me dedicando e isso se tornou uma das minhas maiores qualidades.”
Por outro lado, um grupo de mídia que não detém os direitos de transmissão optou por um olhar mais crítico. Um especialista em novatos analisou o brasileiro da seguinte forma:
“Ele é um piloto que leva o carro até a chegada, tem boa estratégia e sabe conservar pneus, mas não acho que tenha aquela velocidade pura.”
No jornalismo esportivo, entender as diferentes lentes que constroem uma notícia é essencial para não bater no “guard rail” narrativo.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).





