Laira Vieira*
O cinema recente parece obcecado em transformar o luxo em cena de crime. Em Pisque Duas Vezes (2024), estreia de Zoë Kravitz na direção (Mad Max: Estrada da Fúria, Batman), a vitrine brilhante de festas privadas e corpos impecáveis se revela um palco para algo mais perverso: a disputa por quem tem direito à lembrar. A festa vira armadilha, e a memória, moeda de poder.
Frida, interpretada por Naomi Ackie (I Wanna Dance with Somebody, Star Wars: A Ascensão Skywalker), trabalha como garçonete em um evento quando conhece o bilionário da tecnologia Slater King, vivido por Channing Tatum (Magic Mike, Foxcatcher). O convite para a ilha particular do magnata soa como promessa de descanso e diversão. Ela aceita, ao lado da amiga Jess, papel de Alia Shawkat (Arrested Development), sem imaginar que o paraíso caribenho esconde um roteiro de manipulação meticulosamente ensaiado. Entre banquetes repetidos, noites que parecem cópias umas das outras e lapsos de consciência, a viagem se converte em um pesadelo tão sedutor quanto ameaçador — e é aí que a atmosfera começa a sufocar.
Kravitz filma esse sufocamento como quem monta uma armadilha sensorial. Os cortes bruscos imitam falhas na lembrança; o brilho excessivo da paisagem funciona como máscara para o horror; a repetição de festas cria um labirinto temporal claustrofóbico. A diretora não explica a paranoia: ela a injeta no espectador. Cada frame pulsa entre a sedução e a vertigem, lembrando que o cinema não precisa apenas contar: pode fazer o corpo sentir antes que a mente entenda.
Esse efeito encontra eco no elenco. Tatum se afasta do estereótipo de executivo frio e encarna um anfitrião que mistura líder espiritual e predador sorridente. Ackie sustenta o fio narrativo com o olhar de quem percebe o perigo, mas não encontra provas. Simon Rex (Red Rocket), Christian Slater (Mr. Robot) e Adria Arjona (Andor) ampliam o jogo de poder, enquanto veteranos como Kyle MacLachlan (Twin Peaks) e Geena Davis (Thelma & Louise) carregam o peso simbólico de um mundo onde o luxo serve de cortina para a crueldade. Cada presença acrescenta uma camada ao estado de paranoia que cresce como febre na ilha.

“A memória é o único paraíso do qual não podemos ser expulsos”, escreveu Jean Paul. Kravitz torce a frase até o limite: e se o paraíso fosse exatamente o lugar onde a memória é arrancada? O espaço de Slater King funciona como alegoria de uma sociedade que exige o esquecimento das vítimas para que possam continuar no banquete. O trauma, embalado em música alta e taças de cristal, torna-se espetáculo consumível.
Mesmo em meio à força das imagens, surgem tropeços quando a narrativa se apressa em dar respostas. O terceiro ato oferece explicações que, para alguns, podem soar simplórias diante da potência das metáforas visuais. Mas esse detalhe não neutraliza o impacto do conjunto. A irregularidade convive com a intensidade: mesmo os excessos funcionam como cicatriz que o olhar não consegue ignorar.
Na cultura que idolatra magnatas como visionários e transforma ilhas privadas em cartões-postais de poder, Pisque Duas Vezes age como lembrete venenoso: a diversão de uns é construída sobre a anulação dos outros. E nós, sentados na escuridão da sala, somos cúmplices — brindando com eles, ainda que em silêncio.
Não há catarse, nem pedido de consolo. Só um aviso, sussurrado entre luzes de neon e copos cheios: se aqueles que controlam a festa decidem também o que você pode lembrar, até que ponto sua vida ainda lhe pertence? Kravitz, em sua estreia, entrega uma pergunta que ressoa além dos créditos: a violência mais insidiosa talvez não seja a que explode, mas a que chega perfumada, servida em bandejas de prata e acompanhada de boas intenções.
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.





