A dez meses da eleição presidencial de 2026, que será marcada pela forte polarização e pela disputa de narrativas, o neurocientista político Kleber Santos afirma que o medo será o grande eleitor do país, em meio à prisão de Jair Bolsonaro, à indefinição da direita e à tentativa da esquerda de manter Lula no poder.
Para Santos, “emoções primitivas”, segurança pública e disputas internas da direita moldarão uma campanha que promete mexer com corações e mentes no país nos próximos meses.
A eleição não é apenas para presidente e vice, mas também para renovar a Câmara dos Deputados e dois terços do Senado.
Lula já anunciou publicamente que, aos 80 anos de idade, recém-completados em outubro, vai mesmo disputar sua sétima eleição. Se for reeleito, será seu quarto mandato e algo inédito na história do Brasil, se conseguir a reeleição.
A direita, por sua vez, enfrenta turbulências com Jair Bolsonaro preso e inelegível até 2060, ao mesmo tempo em que lida com indefinições sobre quem seria a opção da direita para enfrentar o presidente Lula.
O chamado “mercado” — ou sua versão mais moderna, a Faria Lima — prefere Tarcísio de Freitas (Republicanos), militar da reserva, que ocupou o cargo de diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) durante o governo Dilma Rousseff, em 2014/2015, apoiou Jair Bolsonaro na eleição de 2018 e se tornou seu ministro da Infraestrutura.
Tarcísio diz ser “totalmente fiel” a Jair Bolsonaro, mas nunca teve a acolhida da família nem do ex-presidente. Somente virou governador de São Paulo por imposição de Bolsonaro, que, apesar disso, nunca aceitou — reservada ou publicamente — delegar ao aliado a possibilidade de se candidatar a presidente para herdar o bolsonarismo.
Nos últimos meses, Tarcísio deu demonstrações públicas de “lealdade” a Jair. Gravou vídeos com o boné de Donald Trump, foi a manifestações pela anistia e contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e chegou a fazer, em plena Avenida Paulista, críticas à Corte e a seus integrantes por terem condenado o ex-presidente à prisão.
Na última sexta-feira (5), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou que seu pai determinou que ele fosse o escolhido para se tornar o “longa manus” do presidente-presidiário na próxima eleição presidencial.
No fim de semana, Flávio disse que sua candidatura teria “um preço” e admitiu que estava em campo para conseguir ser eleito e, com isso, poder anistiar o pai, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Nesta segunda-feira (8), Flávio voltou a afirmar que sua candidatura era “irreversível”, apesar da forte reação contrária da direita, de setores empresariais e do impacto negativo sobre a Bolsa de Valores (B3).
Diante de um quadro tão complexo, com um roteiro que mais parece obra de ficção distópica, o BC TV, do portal Brasil Confidencial, convidou o professor universitário e especialista em marketing político e neurociência política Kleber Santos para analisar o que será a próxima campanha eleitoral no Brasil.
Por coincidência, Santos lança nesta semana um livro sobre eleição e voto. O título da obra, fruto de pesquisa e análises, é “O Lado Oculto do Voto”.
Kleber Santos foi entrevistado pelo jornalista Germano Oliveira. A seguir, alguns dos principais trechos:
Germano Oliveira – As pesquisas recentes mostram uma tendência de conservadorismo no eleitorado, com a segurança pública como principal preocupação. Como a esquerda deve se comportar diante desse cenário? Será obrigada a buscar alianças mais ao centro?
Kleber Santos – Realmente, Germano, a segurança pública é hoje a maior preocupação do brasileiro. Isso está ligado à emoção do medo. Quando a pessoa tem medo de andar na rua, de abrir a porta de casa ou de ser assaltada, essa emoção paralisa e influencia diretamente o voto. A esquerda historicamente tem dificuldade nessa pauta. Costuma falar mais sobre questões sociais, algo mais conceitual. Mas o eleitor quer ouvir algo prático, próximo do seu dia a dia. É fundamental transmitir segurança. Essa será uma pauta decisiva nesta eleição.
Germano Oliveira – Recentemente vimos no Rio de Janeiro aquela operação nos morros do Alemão e da Penha, que resultou na morte de mais de cem pessoas. Parte da população apoiou a iniciativa. Isso significa que o eleitorado mais conservador tende a apoiar ações de violência policial?
Kleber Santos – Com certeza. O sentimento de insegurança domina o país, como mostram as pesquisas. E há dois grupos: quem vive o problema no dia a dia e quem sente o clima de insegurança criado pela comunicação constante sobre violência. Mesmo cidades relativamente tranquilas registram essa sensação. Quando ocorre uma ação policial que parece combater diretamente o crime, muitos interpretam como uma reação necessária. É emocional — não racional. Esse contágio emocional será determinante para os candidatos.
Germano Oliveira – O slogan “bandido bom é bandido morto” sempre foi explorado pela direita, e parte da população adere a isso. O PT, por outro lado, tem dificuldade histórica em apoiar ações duras contra o crime. Como o partido se equilibra nesse antagonismo?
Kleber Santos – O voto começa no emocional e só depois se justifica no racional. O candidato precisa sintonizar seu discurso com o que o eleitor pensa. Se conflitar, perde voto. Primeiro conquista a confiança do eleitor, depois apresenta projetos de longo prazo. A mensagem não pode ser técnica demais — precisa ser simples: “Vamos te proteger assim, e temos outro projeto maior também”. A segurança é uma emoção primitiva. Ela define eleição.
Germano Oliveira – Em seu livro, você fala justamente da neurociência do voto. Quando há essa dicotomia, o eleitor percebe que o PT poderia estar “passando a mão na cabeça de criminoso”, como alguns afirmam, especialmente após declarações recentes de Lula?
Kleber Santos – Essa é uma narrativa que tem crescido. E não por acaso. O próprio Lula deu declarações que, para o eleitor comum, soam como defesa do criminoso — como quando disse que o traficante seria vítima do usuário. Hoje tudo viraliza rapidamente no WhatsApp. Quem tem mais militância e capacidade de propagação domina a narrativa. A esquerda sempre teve dificuldade na segurança; a direita fala de forma pragmática: “vamos combater, tirar de circulação, prender”. E o medo está em todo lugar: pessoas com medo do metrô, do ônibus, de sair de casa. As histórias virais reforçam essa sensação. O candidato terá de apresentar propostas com resultado rápido.
Germano Oliveira – Bolsonaro está preso, mas tenta influenciar a eleição ao lançar o filho Flávio. Porém, Flávio tem problemas como as rachadinhas e a famosa loja de chocolates. Mesmo assim, Bolsonaro insiste que ele seria o candidato. Tarcísio ou até Michelle Bolsonaro parecem mais competitivos. Essa indefinição pode favorecer o PT?
Kleber Santos – O que Bolsonaro fez ao lançar Flávio foi recuperar o controle da direita. Mesmo preso, mostrou que ainda é o líder, assim como Lula foi protagonista mesmo em Curitiba. Ele percebeu que o Centrão começava a conduzir o processo. Ao colocar o filho, ele força novamente o diálogo em torno dele. A esquerda também tem sua fatia de eleitorado. O país continua polarizado. O grande definidor será o eleitor do meio. Não vejo muito espaço para um terceiro nome de centro crescer significativamente. Esse eleitor do meio — pouco ideológico — será o fiel da balança.
Germano Oliveira – Nos últimos meses aumentaram os casos de feminicídios e a violência das facções, como PCC e Comando Vermelho. O governo federal tentou apresentar projetos de combate às facções, mas muitos foram alterados por partidos de direita no Congresso. A direita ainda cria dificuldades para que esses projetos avancem?
Kleber Santos – Há uma guerra de narrativas. Para o eleitor de direita, o armamento é visto como defesa. Para o eleitor de esquerda, armar a população aumenta a violência. São visões distintas e muito consolidadas. Quase impossíveis de convencer uma à outra. Por isso, cada partido molda sua estratégia conforme sua base. O eleitor de centro — novamente — é quem pode ser convencido. Ele não tem posição fixa. Precisa sentir segurança nas propostas. É essa fatia que decidirá a eleição de 2026.
SERVIÇO

O Lado Oculto do Voto
Autor: Kleber Santos
Editora: ABNP
Páginas: 252
Para obter o livro, contato é direto com autor: (14) 99133-6965.
Lançamento será na próxima quinta-feira (11), às 19h30, no Empório Cultural, no Boulevard Shopping (Bauru/SP).
Sobre a autor: Kleber Santos iniciou sua trajetória como repórter da Rede Globo e diretor da TV Bandeirantes. Há mais de 15 anos, dedica-se à neurociência aplicada ao comportamento político, é professor mestre, especialista em neuropolítica, consultor de campanhas e palestrante nos principais eventos políticos do país.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:


