“Se somos 56% da população, por que ainda somos invisíveis?” A pergunta, feita pelo advogado Marco Antônio Zito Alvarenga, ecoa como denúncia e alerta.
Ex-presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB-SP e assessor jurídico da Prefeitura de São Paulo, Zito foi o entrevistado do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta quarta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra, celebrado em todo o país em 20 de novembro.
Durante a conversa com os âncoras Camila Srougi e Germano Oliveira, Zito abordou temas como racismo estrutural, intolerância religiosa, políticas afirmativas e a dívida histórica com a população negra do país. “Essa luta não é dos negros. É de todos”, disse o advogado.
Consciência Negra: memória e resistência
Ele comentou o significado do 20 de novembro para a história dos negros no país. Zito destacou o papel de Zumbi dos Palmares como símbolo da luta coletiva por liberdade. “(Zumbi foi) um líder, num momento difícil, que se rebelou contra tudo isso (a violência da escravidão) e montou um quilombo onde conviviam brancos, negros, toda a diversidade, lutando contra aquilo que foi a maior violência contra um povo no nosso planeta”, afirmou.
Para ele, a Constituição de 1988 ainda não se concretizou plenamente: “Como diz a Constituição de 1988: todos nós somos iguais… ou temos algumas pessoas mais iguais do que as outras?”, indagou.
A evocação de Zumbi dos Palmares, cuja morte em 1695 marca a data da Consciência Negra, não é apenas um gesto simbólico. É um chamado à memória coletiva e à resistência diante de um país que, embora miscigenado, ainda carrega em suas estruturas as marcas profundas da escravidão e da exclusão racial.
Racismo estrutural: um sistema que exclui
Zito explicou que o racismo estrutural nasce de práticas individuais que, somadas, se tornam sistêmicas. “O racismo estrutural advém do indivíduo e, a partir daí, esse indivíduo, quando se junta, cria um modelo estrutural do qual só alguns podem fazer parte.”
Segundo o advogado, os efeitos são visíveis na educação, onde jovens negros crescem sem referências positivas. “Será que o meu jovem, o jovem negro, o meu neto, tem consciência de onde eu vim, quais eram meus valores, minha religião, minha cultura?”, refletiu.
A resposta, para Zito, está na inclusão: “A inclusão é o instrumento de nivelar e dar oportunidade, equidade a todos. Quando você consegue fazer isso estruturalmente, está minando o racismo institucional.”
A análise de Zito revela um diagnóstico contundente: o racismo no Brasil não é apenas uma questão de atitudes individuais, mas um sistema que molda o acesso à educação, ao trabalho e à cidadania. A ausência de representatividade e de políticas públicas eficazes perpetua um ciclo de exclusão que afeta gerações.
Intolerância religiosa e o Estado laico
Zito também criticou a violência contra religiões de matriz africana e a omissão do Estado. “Eu tenho o direito de exercer minha fé da melhor forma. Mas ainda hoje vemos templos sendo destruídos, símbolos desrespeitados, e ninguém responde por isso.”
Ele classificou como preocupante o aumento de ataques a religiões afros motivados por desinformação e preconceito.
A crítica se insere num contexto em que o Estado laico, previsto na Constituição, é frequentemente desrespeitado. A liberdade religiosa, um dos pilares da democracia, torna-se frágil diante da intolerância e da impunidade.
Cotas e mercado de trabalho: avanços tímidos
Questionado sobre cotas raciais, o advogado foi enfático: “As cotas são um tijolo de construção para políticas públicas que se fazem necessárias para devolver a oportunidade que foi negada.”
“Nós temos, em outros países, nominados como países mais progressistas, mais modernos, políticas públicas que não são aplicadas no Brasil. E, no entanto, o dinheiro que eles recebem é o nosso. Então, é importante que eles tragam isso, adaptando-se à situação que ora acontece, possibilitando a participação de todos. A minha área é o Direito. Eu sou um apaixonado por essa especialidade, por essa ciência, melhor dizendo”, declarou.
“E eu fui à frente de um desses organismos, do qual tenho muito prazer de estar trabalhando, contribuindo, melhor dizendo, porque ninguém faz nada sozinho, e fizemos um levantamento. Em alguns escritórios de porte, você fazia a primeira seleção pela faculdade de vocês. Depois, a questão fenotípica — do fenótipo, melhor dizendo, desculpe, o fenótipo — ninguém gostava.
“Hoje, adentrando-se em alguns espaços públicos e privados, você encontra a diversidade e a qualificação feita pela sua dedicação. E nós precisamos acabar com esse processo”, explicou.
Ao comentar dados sobre representatividade, como, por exemplo, os 20% de funcionários negros nos quadros de funcionários do Bradesco, Zito foi direto: “Se somos 56% da população, 20% é insuficiente. A inclusão melhora atendimento, motivação, reduz desigualdade.”
As cotas, segundo Zito, não são privilégios, mas mecanismos de reparação. A sub-representação de negros em cargos de liderança e a persistência de barreiras implícitas nos processos seletivos revelam que a igualdade formal ainda está distante da igualdade real.
Educação antirracista e dívida histórica
Zito defendeu a aplicação da Lei 10.639, que insere a história afro-brasileira no currículo escolar. “A figura que eu tinha nos livros era do negro amarrado no tronco. Não pode ser só isso. Precisamos contar a história de Luiz Gama, Luiza Mahin, Zumbi… trazer valores, reflexão.”
Ele lamentou a resistência de escolas privadas ao tema: “A educação virou negócio. Muitas não querem adentrar nesse debate, que é parte da formação cidadã.”
A educação, para Zito, é o terreno fértil onde se pode semear uma nova consciência. Mas, para isso, é preciso romper com a narrativa única e incluir vozes historicamente silenciadas. A resistência de parte do setor privado à implementação da lei revela o desafio de transformar a escola em espaço de emancipação.
“A luta não é dos negros. É de todos”
Por fim, Zito reforçou que o combate ao racismo é coletivo: “Essa é uma luta de todos: brancos, pretos, orientais. O Brasil é formado por diversas origens étnico-raciais. Ao enxergar isso, ninguém nos segura.”
Ele concluiu o pensamento com um provérbio africano: “Se quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir longe, vá em grupo.”
A fala de Zito é um convite à ação coletiva. Reconhecer o racismo estrutural é apenas o primeiro passo. O desafio está em enfrentá-lo com políticas públicas, educação crítica e compromisso social. No Dia da Consciência Negra, a mensagem é clara: não basta lembrar. É preciso agir.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Luiz Gama: o advogado que libertou centenas sem diploma

Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu em Salvador, em 21 de junho de 1830, filho de Luiza Mahin, uma mulher negra livre envolvida em revoltas populares, e de um fidalgo português. Aos dez anos, foi vendido como escravo pelo próprio pai para pagar dívidas de jogo. Mesmo sendo livre de nascimento, viveu como escravizado até conseguir provar sua condição legal aos 17 anos.
Sem acesso à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco — que não aceitava negros — Gama tornou-se autodidata, estudando por conta própria e atuando como rábula (advogado sem diploma). Em São Paulo, onde viveu até sua morte em 24 de agosto de 1882, aos 52 anos, foi um dos principais defensores de pessoas escravizadas, libertando mais de 500 delas por meio de ações judiciais. Morreu de diabetes, deixando um legado jurídico e literário que só recentemente foi plenamente reconhecido.
Em 2015, 133 anos após sua morte, a OAB concedeu a Luiz Gama o título oficial de advogado, reparando uma injustiça histórica. Em abril de 2024, o pesquisador Bruno Lima lançou o livro Luiz Gama contra o Império, baseado em sua tese de doutorado, que analisa a obra jurídica e política do ex-escravizado. Seus escritos abordam temas como abolicionismo, cidadania, racismo, liberdade e crítica ao Império, revelando um pensador afiado e combativo.
Zumbi dos Palmares: o guerreiro da liberdade

Zumbi nasceu por volta de 1655 no Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, atual União dos Palmares, em Alagoas. Foi capturado ainda criança, catequizado por padres, mas fugiu aos 15 anos para retornar ao quilombo. Tornou-se líder em 1680, organizando a resistência contra expedições coloniais que tentavam destruir a comunidade.
Palmares foi o maior quilombo da América Latina, com até 20 mil habitantes. Funcionava como uma sociedade autônoma, com estrutura política, econômica e militar própria. Zumbi lutava pela liberdade religiosa, pelo fim da escravidão e pela autonomia negra. Morreu em 20 de novembro de 1695, aos 40 anos, vítima de uma emboscada.
O local onde ficava o quilombo é hoje o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, que recebe celebrações, rituais e homenagens no Dia da Consciência Negra, instituído em sua memória. Zumbi é considerado o maior símbolo da resistência negra no Brasil, e sua história inspira movimentos sociais, educadores e ativistas até hoje.
55,5% dos brasileiros são pretos e pardos, diz IBGE
Os dados raciais do Censo 2022 divulgados em 2025 confirmam que a população negra (pretos e pardos) é maioria no Brasil, representando 55,5% dos brasileiros. Os pardos superaram os brancos como o maior grupo racial pela primeira vez desde 1991.
Segundo os números mais recentes do IBGE, divulgados ao longo deste ano, o Brasil tem 92,1 milhões de pessoas que se autodeclaram pardas, o que corresponde a 45,3% da população.
Já os pretos somam 20,6 milhões, ou 10,2%. Juntos, esses dois grupos formam a população negra, que totaliza 112,7 milhões de brasileiros, representando 55,5% do total nacional.
A população branca, que por décadas foi o maior grupo racial do país, agora representa 43,5%, com 88,2 milhões de pessoas. Os indígenas somam 1,7 milhão (0,8%) e os amarelos — pessoas de origem asiática — são 850 mil (0,4%).
A distribuição regional mostra forte presença da população negra no Norte e Nordeste.
Bahia e Maranhão lideram, com mais de 80% da população se identificando como preta ou parda.
Estados como Amapá, Piauí, Alagoas, Paraíba e Sergipe também têm índices superiores a 70%.
Em São Paulo, maior estado em população, cerca de 50% se identificam como negros — 40% pardos e 10% pretos.
No Rio de Janeiro, o percentual é de 48%, com destaque para a presença de pretos em áreas urbanas.
Já a Região Norte, especialmente Pará e Amazonas, tem alta proporção de pardos. Por outro lado, a Região Sul — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — apresenta os menores percentuais de população negra, com predominância de brancos.
O IBGE considera como população negra os brasileiros que se autodeclaram pretos ou pardos. A autodeclaração é a base da classificação racial no país, refletindo não apenas a ancestralidade, mas também fatores sociais e culturais. Termos como “afrodescendente” não são utilizados oficialmente nos formulários do Censo, embora sejam socialmente associados a esses grupos. Já expressões como “mulato” têm sido evitadas por seu caráter pejorativo.
A divulgação dos dados raciais faz parte de uma série de publicações do Censo 2022, que se estende até o final de 2025, incluindo estatísticas sobre pessoas com deficiência, autismo e outros recortes sociais.
O que é o Dia da Consciência Negra?
O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro e foi instituído oficialmente pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011.
A data homenageia Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra à escravidão no Brasil.
É uma data de reflexão sobre a luta da população negra contra o racismo, a desigualdade social e a exclusão histórica no Brasil.
Marca a valorização da cultura afro-brasileira, da identidade negra e da contribuição dos negros na formação da sociedade brasileira.
É também um momento para debater políticas públicas, educação antirracista e ações afirmativas.
Por que 20 de novembro?
A data foi escolhida por ser o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, líder do Quilombo dos Palmares e símbolo da resistência contra a escravidão.
Zumbi representa a luta por liberdade, dignidade e direitos dos negros no Brasil.


