Celulares roubados encontrados com a quadrilha. (Foto: SSP/SP)


Na manhã de terça-feira, 4, a Polícia Civil escancarou o funcionamento de uma quadrilha especializada em receptação de celulares roubados, revelando não apenas o núcleo logístico de um esquema sofisticado, mas também o retrato de uma cidade onde o crime se tornou rotina.

A operação batizada de Mobile Strike mobilizou 110 agentes em cinco cidades da Grande São Paulo. O alvo: uma rede criminosa com funções bem definidas — ladrões, intermediários e revendedores.

O resultado: 43 celulares de origem suspeita apreendidos, além de relógios, joias, um carro de luxo e uma bolsa térmica usada para driblar rastreamento. Três pessoas foram presas. Outras 11 estão sob investigação.

Continua depois da publicidade

Mas o que parecia mais uma ação pontual revelou algo maior. Segundo a 2ª Delegacia da Divisão de Crimes contra o Patrimônio (Disccpat), a quadrilha movimentava entre 20 e 30 aparelhos por dia, abastecendo o comércio clandestino local e internacional.
Os celulares roubados cruzavam fronteiras, com destino a países da América Latina e da África.

A engrenagem do crime

A primeira fase da operação, em setembro, já havia revelado uma “central” de triagem na Barra Funda, onde os aparelhos chegavam por entregas via aplicativo.

A logística era precisa. Os celulares eram ocultados em bolsas térmicas, dificultando o rastreio. A fachada do comércio servia como ponto de coleta e redistribuição.

A investigação mostrou que o crime não é apenas oportuno — é sistemático. E alimentado por uma demanda crescente por tecnologia, pela impunidade e pela vulnerabilidade urbana.

O retrato da violência

São Paulo registra, em média, 170 roubos de celulares por dia. Mais de 5 mil por mês. Entre janeiro e setembro de 2025, foram 46.300 ocorrências na capital — 18,5% de todos os roubos e furtos de celulares no Brasil. A maioria acontece à noite. Bairros como Capão Redondo, Pinheiros e Campo Limpo lideram o ranking.

Diferente do furto, o roubo envolve ameaça ou uso de violência. Em muitos casos, os criminosos agem em dupla, com motos e simulacros de armas. A recuperação dos aparelhos é rara: menos de 10% voltam às mãos dos donos.
Alice Ferreira, 29 anos — Centro de SP – Alice foi morta em abril de 2025 enquanto aguardava um carro por aplicativo na Avenida São João. Segundo testemunhas, ela estava usando o celular quando dois homens em uma moto se aproximaram. Um deles tentou arrancar o aparelho, mas Alice resistiu. O criminoso atirou. Ela morreu no local.

Lucas Andrade, 17 anos — Capão Redondo. Em junho, Lucas voltava da escola quando foi abordado por dois homens armados. Ao tentar correr, foi baleado nas costas. O celular que usava para estudar foi levado. O caso gerou comoção nas redes sociais e levou a uma manifestação por mais segurança na região.

Marina Costa, 34 anos — Guarulhos. Marina foi assassinada em agosto ao sair do trabalho. Ela usava fones de ouvido conectados ao celular quando foi surpreendida por um ladrão. O criminoso a empurrou contra um muro e disparou após ela gritar por socorro. O aparelho foi encontrado dias depois em uma loja clandestina.

Vitor Medrado – Era manhã de quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025, quando Vitor Medrado, 46 anos, saiu para pedalar na região do Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo. O Parque do Povo, com suas ciclovias e áreas verdes, era um dos seus refúgios favoritos. Mas naquele dia, pouco depois das 6h, câmeras de segurança registraram o instante em que dois homens em uma moto se aproximaram de Vitor. Ele estava parado, com o celular na mão. Não houve anúncio de assalto, nem tempo para reação. Um dos criminosos desceu da garupa e disparou contra o pescoço do ciclista. Vitor caiu imediatamente. O ladrão recolheu o celular com a vítima ainda no chão e fugiu.

Apesar de operações como a Mobile Strike, especialistas alertam que o combate ao roubo de celulares exige mais do que ações pontuais.

É preciso integração entre segurança pública, tecnologia e regulação do mercado de revenda. Medidas como rastreabilidade dos aparelhos, controle sobre peças e responsabilização de plataformas de venda são consideradas urgentes.

A recomendação dos especialistas é clara: não reagir, manter o celular guardado em locais públicos e registrar boletim de ocorrência imediatamente.