BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
Tarcísio de Freitas é o que se pode chamar de um poste que Bolsonaro transformou em governador do Estado de São Paulo da noite para o dia em 2022. Oriundo dos ministérios técnicos do governo Bolsonaro, como o de Infraestrutura, ele não tinha o mínimo traquejo nem carisma para ser candidato no processo eleitoral daquele ano. Em que pese a sua capacidade administrativa e fama de tocador de obras, Tarcísio foi estimulado pelo então presidente da República a disputar as eleições. Tarcísio se animou, mas não sabia qual posto pleitear. Ora desejava se eleger para o Senado por Goiás, ora pelo Rio de Janeiro, seu estado natal. Mas Bolsonaro acabou empurrando-o para disputar o governo de São Paulo.
Foi uma surpresa geral. Afinal, ele não tinha nascido em São Paulo nem possuía um endereço no estado para chamar de seu. Acabou se valendo do endereço de um cunhado em São José dos Campos, que ele nem sabia onde ficava, embora o tivesse registrado na Justiça Eleitoral como o local de sua moradia em território paulista. Foi motivo de pilhéria na TV quando admitiu que não sabia onde morava. O tempo passou e o bolsonarismo o transformou em um nome competitivo, vencendo, no segundo turno, o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Flávio é o “cara”

O governador, no entanto, mostrou-se, nos últimos três anos no cargo, um bom gestor, mas um péssimo político. Tentou se lançar candidato a presidente, incensado pelo Centrão, embora Bolsonaro, mesmo da cadeia, tenha cortado suas asas e imposto o nome de seu filho 01, o senador Flávio, como o presidenciável a enfrentar o presidente Lula. Segundo o ex-capitão, preso na Papudinha, Tarcísio terá que se contentar com a reeleição em São Paulo.
A submissão de Tarcísio

Mas foi aí que ele começou a trocar as mãos pelas pernas e a se perder nas negociações políticas. Começou por trombar com seu secretário de Governo, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, um dos mais hábeis negociadores da política nacional. É verdade que Kassab chamou-o de submisso, ao se referir à imposição de Bolsonaro quanto ao fato de ter que desistir de concorrer à presidência em outubro.
Tarcísio não gostou da crítica de Kassab e sentiu o golpe. Hoje, os dois não estão se dando muito bem. O pior é que a reação do presidente do PSD foi a de tocar a vida, conversando com Lula sobre um possível acordo com o PT, enquanto Tarcísio se fechou em copas com a sua turma incrustada no Palácio dos Bandeirantes.
Kassab e o PSDB

Enquanto Kassab falava claramente que desejava ser o vice do governador paulista, Tarcísio começou a articular a possibilidade de seu atual vice, Felício Ramuth (PSD), repetir o feito e permanecer como vice, estimulando-o a deixar o partido de Kassab e se filiar a outro partido apenas com o propósito de manter-se na chapa do atual mandatário paulista.
Ou seja, cutucou onça com vara curta. Kassab saiu a campo filiando seis deputados estaduais do PSDB ao seu PSD (apenas as deputadas Carla Morando e Bruna Furlan permaneceram tucanas) e, com isso, montou a terceira maior bancada na Assembleia de São Paulo (Alesp), com 12 parlamentares, ficando atrás apenas do PT e do PL, ambos com 19 deputados. Agora, Kassab tem potencial para ser o maior “inimigo” de Tarcísio na Alesp. Dessa forma, o presidente do PSD passou a ser uma figura para quem Tarcísio vai ter que continuar tirando o chapéu.




