O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou na tarde desta sexta-feira (19) que não irá aos Estados Unidos para participar da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York.
A decisão ocorre após o governo Donald Trump impor restrições severas à circulação do ministro, limitando seus deslocamentos a um perímetro de cinco quarteirões entre o hotel, a sede da ONU e representações brasileiras.
“Recebi o visto, mas com restrições que considero humilhantes. Não sou condenado, não uso tornozeleira eletrônica, não tenho nada que justifique esse tipo de tratamento”, afirmou Padilha, em entrevista à GloboNews.
Padilha recebeu o visto diplomático G2, destinado a autoridades estrangeiras em missão oficial. Apesar da autorização, o ministro decidiu cancelar a viagem por considerar que as condições impostas pelo governo americano ferem o princípio de respeito entre nações. “O Brasil vai liderar o continente americano e ajudar outros países a liderar o mundo na defesa da OMS, da Opas e da vacina”, disse.
A restrição também se estenderia a familiares do ministro. Em agosto, os vistos da esposa e da filha de Padilha foram cancelados pelo governo Trump. À época, a justificativa foi a participação do ministro no acordo que trouxe médicos cubanos ao Brasil por meio do programa Mais Médicos. “Qual o risco de uma criança de 10 anos?”, questionou Padilha, ao comentar o cancelamento do visto da filha.
A decisão de não viajar também leva em conta a tramitação da medida provisória do programa Agora tem Especialistas, considerada prioritária pela pasta. “Tenho compromissos importantes no Congresso. Não posso me ausentar neste momento”, afirmou.
O governo brasileiro acionou a ONU para contestar as restrições, alegando que o país-sede não pode impedir o acesso de autoridades convidadas a eventos multilaterais. Diplomatas classificaram a medida como “incomum” e de “forte impacto político”, ampliando o desgaste entre os governos de Lula e Trump.
Alexandre Padilha elevou o tom contra o governo dos Estados Unidos e disse que enviou nota aos integrantes da OPAS (Organização Panamericana de Saúde), onde classificou a postura americana como “absurda” e reafirmou o compromisso do Brasil com a ciência e a produção de vacinas.
“O espírito de cooperação dos Estados Unidos não sucumbirá à sombra de obscurantismo e de negacionismo que paira sobre o país atualmente”, escreveu o ministro, em referência à condução política da atual gestão norte-americana.
Segundo Padilha, a resposta a essa situação constrangedora será o fortalecimento da capacidade nacional de produção de imunizantes e tecnologia. “Nossa ação internacional vai continuar. Eles até podem impedir a presença do ministro, mas a ideia da defesa da ciência, da defesa da vacina […] esse presidente dos Estados Unidos não vai conseguir impedir”, declarou.


