O Papa fala ao público na Praça de São Pedro no Dia da Mulher. (Foto: Vatican News)


O Papa Leão XIV escolheu o Dia Internacional da Mulher para lançar neste domingo (8) um manifesto contundente contra o que definiu como a “regressão moral das sociedades contemporâneas”. Em uma mensagem que evitou deliberadamente o tom de celebração festiva ou concessões retóricas, o sucessor de Pedro descreveu a violência de gênero não apenas como um crime isolado das estatísticas policiais, mas como uma marca de “barbárie” profunda que desfigura a face da humanidade e expõe o esgotamento de um modelo civilizatório global.

A fala do Papa reflete uma mudança de tom significativa no Vaticano: menos focado na “doçura” idealizada da mulher — uma estética teológica comum em décadas passadas — e visivelmente mais incisivo na denúncia das estruturas de poder e posse que alimentam a violência doméstica e o feminicídio. Para o Pontífice, a raiz do mal reside em uma visão utilitarista e predatória, que reduz o ser humano a um objeto de domínio privado.

O genero feminino sob ataque

Continua depois da publicidade

Ao recuperar o conceito de “gênio feminino”, clássico da teologia católica, Leão XIV conferiu-lhe uma nova urgência política e social. Ele sugeriu que a escalada da violência atual não é um fenômeno aleatório, mas uma reação desesperada de uma mentalidade patriarcal de controle que se sente acuada pelo avanço irreversível da liberdade feminina. Em seu pronunciamento, o Papa foi enfático ao declarar:

“Neste dia que o mundo dedica à mulher, não podemos nos permitir o luxo do silêncio ou da celebração superficial enquanto o sangue de tantas irmãs clama da terra. Assistimos a uma regressão moral que nos deveria envergonhar a todos: a persistência de uma cultura da posse, onde o homem se arroga o direito de decidir sobre o corpo, a vontade e a vida da mulher. Esta mentalidade é o resquício de uma barbárie que supúnhamos superada, mas que sobrevive nas fendas de uma civilização doente. O feminicídio não é um erro de percurso; é uma falha sistêmica. Ele nasce no terreno fértil do egoísmo e da ideia de que o outro é uma propriedade. Quando a liberdade da mulher é vista como uma ameaça ao domínio masculino, a sociedade falha em seu propósito mais básico de convivência.”

Uma aliança entre a fé e a educação

Para o líder da Igreja Católica, o enfrentamento a essa crise exige medidas que transcendam a esfera jurídica. “Não basta lamentar as vítimas; é preciso desmantelar a estrutura que as produz”, afirmou. Como solução prática, o Papa convocou uma aliança inadiável entre a Igreja e as instituições de ensino, defendendo que a religião não pode ser instrumentalizada para justificar a submissão, assim como a educação não pode ser meramente técnica e desprovida de valores humanistas.

“Precisamos educar os nossos jovens para a alteridade, para o reconhecimento de que o amor nunca é posse e que a dignidade da mulher é absoluta e inegociável. Que cada paróquia e cada sala de aula se tornem baluartes contra a cultura do descarte. O ‘gênio feminino’ é hoje uma força de resistência, e protegê-lo é salvar a própria humanidade de sua autodestruição”, concluiu o Pontífice. Com este posicionamento, Leão XIV coloca a Santa Sé na vanguarda de um debate que deixa de ser estritamente teológico para se consolidar como uma questão urgente de direitos humanos e segurança pública global.