Marcos Clementino


Marcos Clementino*

Fala-se muito sobre racismo hoje em dia, e quanto mais retinta a pele do negro, mais piadas criminosas surgem na internet. O desafio, porém, é entender quem de fato é negro numa discussão ampla. Afinal, pessoas pardas são consideradas negras pela definição oficial, mas no dia a dia o julgamento é outro.

É daí que surge o tema deste texto: a mistura de cor que não deixa a pele nem branca nem preta acentuadamente traz uma dúvida — será que o pardo não tem pedigree?

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Digo isso por experiência própria: no meio dos brancos, me chamam de negão; no meio dos pretos, me definem como branco. Uma amiga francesa, Alexandra Loras, que dá aula sobre racismo, me perguntou uma vez, durante uma caminhada sobre as areias da praia em Porto de Galinhas: “Você se considera como?” Respondi que me considero negro de pele parda, mas a falta de identificação com uma tribo deixa um vazio em mim. Talvez seja pela rejeição dos dois lados. E não estou sozinho nisso.

Essa conversa voltou durante uma troca de WhatsApp com meu amigo de infância, o assistente social Robson Fernandes. Quase quatro décadas depois, mesmo distantes, falamos sobre racismo e chegamos a uma conclusão parecida: na prática, o racismo parece ser mais acentuado para a população de pele parda do que para a de pele preta. Longe de querer disputar quem sofre mais, deixo aqui algumas reflexões.

O último recorte da população carcerária brasileira mostra que 64% dos presos são negros — 48,3% pardos e 15,6% pretos. Outras variáveis entram em jogo, claro, mas a proporção racial da população brasileira é parte importante do cenário. Pardos e brancos são quase iguais em número (45,3% e 43,5%, respectivamente), enquanto pretos representam 10,2%.

Isso evidencia racismo estrutural ou aponta para uma suposta índole inferior dos pardos? Para mim, mostra que o pardo é menos chamado de “macaco” que o preto, mas sofre mais racismo na prática — seja no preconceito velado, na exclusão social ou no cotidiano.

Essa semana, uma notícia chamou atenção: a aluna cotista de medicina Samille Ornelas perdeu sua vaga na Universidade Federal Fluminense por não ser considerada negra pelo comitê de heteroidentificação, pois não teria “características fenotípicas” de parda. Quantos mais terão que provar sua cor para ter seus direitos reconhecidos?

No cotidiano, as ofensas mudam de tom: “Você não é negro, é cor de papelão molhado” ou “Você no máximo é oito horas da noite no horário de verão” são exemplos do racismo sutil e perverso que muitos pardos enfrentam.

Talvez o racismo só seja entendido quando se torna público, quando vira crime de injúria racial, quando chamam alguém de “macaco”. Mas as outras formas, aquelas que ficam no silêncio, são as que continuam corroendo a autoestima e a identidade de muita gente.

*Marcos Clementino é jornalista, empresário, palestrante e investidor-anjo. Foi correspondente internacional de TV na Europa, finalista do Walkley Awards na Austrália e vencedor do Troféu Periferia. Autor de livros que unem vivência e reflexão, como Olho Vivo, Faro Fino! e O Tubarão da Berrini, Marcos transforma sua história pessoal em pontes de consciência e inspiração. Também atua como especialista em negócios no setor de seguros de vida. Fala sobre superação, oportunidades invisíveis e as dores silenciosas que muitos carregam — mas poucos têm coragem de expor.