Uma pesquisa realizada pelo Ipsos-Ipec entre os dias 4 e 8 de dezembro de 2025, com 2.000 entrevistas em 131 municípios brasileiros, revela que dois em cada dez brasileiros já receberam propostas de compra de voto durante o período eleitoral.
O estudo foi encomendado pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, que lançou a campanha “Voto não tem preço, tem consequências”.
Segundo o levantamento, 22% dos entrevistados afirmaram ter sido abordados por algum candidato diretamente ou por meio de cabos eleitorais ou intermediários, oferecendo algo em troca do voto.
O índice é mais alto entre pessoas de 25 a 44 anos (26%) e menor entre os maiores de 60 anos (13%). Regionalmente, o Nordeste concentra a maior prevalência (32%), seguido pelo Sudeste (18%) e Sul (13%).
O que é entendido como compra de votos
Quando estimulados a identificar ações que configuram compra de votos, os entrevistados apontaram:
Dar dinheiro (76%)
Oferecer ou prometer emprego (53%)
Distribuir cestas básicas/alimentos (43%)
Dar material de construção (42%)
Pagar contas de água, luz ou dívidas (37%)
Oferecer consultas médicas, exames, cirurgias ou remédios (30%)
Facilitar acesso a benefícios sociais (30%)
Oferecer churrasco ou festa durante o período da eleição (30%)
Dar vale-compras ou vale-combustível (29%)
Prometer ou fazer obras ou melhorias no bairro (28%)
Fazer ameaças, como tirar emprego ou benefícios (28%)
Pressionar o voto por meio de líderes religiosos ou comunitários (26%)
Transportar ou dar carona para votar (24%)
Fazer favores ou agilizar demandas (24%)
Ameaçar com violência (24%)

Cargos mais envolvidos
Entre os que receberam propostas, 59% disseram que a prática ocorreu para o cargo de vereador. Em seguida aparecem prefeito (43%), deputado (16%), governador (10%), presidente (7%) e senador (5%). Outros 12% não se lembram para qual cargo houve oferta.

Frequência da prática
Na percepção geral, 39% afirmaram que a compra de votos acontece “sempre” em sua cidade ou bairro durante as eleições. Entre os que já receberam propostas, esse índice sobe para 64%. Outros 17% disseram que ocorre “frequentemente”, 13% “às vezes”, 9% “raramente” e 11% afirmaram que nunca acontece.

Ameaças e intimidações
A maioria (72%) declarou nunca ter sofrido ou conhecido alguém que sofreu pressão para votar em determinado candidato. Já 18% conhecem pessoas que passaram por essa situação e 5% afirmaram ter sido pessoalmente intimidados. O índice é maior entre pessoas com ensino superior (23%) do que entre aquelas com apenas o fundamental (13%).

Consciência legal e barreiras à denúncia
Quase todos os entrevistados (96%) sabem que a compra de votos é ilegal. No entanto, 62% não sabem onde denunciar casos suspeitos e 52% não se sentem seguros para fazê-lo.
O desconhecimento é maior entre famílias com renda de até um salário mínimo (70%), jovens de 16 a 24 anos (72%), pessoas com ensino fundamental (72%), classes D/E (69%) e mulheres (68%). A insegurança também é mais acentuada entre mulheres (56%) do que homens (49%).
Consequências políticas
Para 89% dos entrevistados, candidatos que compram votos, se eleitos, defenderão seus próprios interesses e não os da população.
“Os resultados da pesquisa indicam que o brasileiro sabe identificar uma situação de compra de votos, a reconhece como crime e entende que candidatos que a praticam não colocarão o interesse público em primeiro plano. No entanto, o medo de denunciar e o desconhecimento sobre onde fazê-lo evidenciam a necessidade de fortalecer a comunicação e a adoção das medidas cabíveis para proteger a integridade do processo eleitoral e assegurar o pleno exercício dos direitos eleitorais”, afirma Patricia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec.
Metodologia
A pesquisa foi quantitativa, realizada por meio de entrevistas domiciliares, face a face, com o objetivo de levantar a opinião dos brasileiros sobre a compra de votos.
O estudo aborda exclusivamente a percepção da população sobre compra de votos, conhecimento sobre ilegalidade, canais de denúncia e sensação de segurança para reportar. Não mede intenção de voto ou preferência eleitoral, nem avalia candidaturas ou cenários.
O levantamento aconteceu entre os dias 4 e 8 de dezembro de 2025, com 2.000 entrevistas em 131 municípios. A amostra foi elaborada com base em dados do Censo 2022 e da PNADC 2023, com controle de cotas por sexo, idade, escolaridade, raça/cor e ramo de atividade.
O nível de confiança é de 95%, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.


