O doutor em biotecnologia, Gustavo Alves durante entrevista ao BC TV


O Alzheimer, doença que desafia famílias e sistemas de saúde em todo o mundo, tem ganhado impulso com novos estudos, vacinas em desenvolvimento e esforços globais para detectar precocemente seus primeiros sinais. No BC TV, programa do Brasil Confidencial, desta segunda-feira (1º), os jornalistas Camila Srougi e Germano Oliveira entrevistaram o médico e pesquisador Gustavo Alves, doutor em Biotecnologia da USP (Universidade de São Paulo), em Ribeirão Preto, e colaborador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que tem se destacado internacionalmente pelo desenvolvimento de um teste salivar capaz de identificar a doença décadas antes dos sintomas. “A possibilidade de detectar a doença muito antes dará à medicina recursos terapêuticos para frear esse avanço”, afirmou Alves.

Segundo o pesquisador, a ciência já sabe que o Alzheimer começa a se desenvolver entre 20 e 25 anos antes da manifestação clínica, período em que alterações microscópicas no cérebro — como o acúmulo de proteínas tóxicas — ocorrem silenciosamente. Detectá-las precocemente, afirmou, pode mudar o futuro da doença, permitindo intervenções que funcionariam como uma espécie de “blindagem”, preparando o organismo para retardar ou até impedir o agravamento da demência.

Alves relatou sua participação em encontros internacionais da Alzheimer Association, onde centenas de moléculas e vacinas estão em estudo atualmente. Ele destacou que há ao menos 440 moléculas em investigação, mas as maiores esperanças concentram-se nas vacinas que atuam sobre a proteína tau, responsável por provocar o emaranhamento e morte dos neurônios. A proteína tau é uma molécula presente nos neurônios que ajuda a manter a estrutura interna das células nervosas. “Vacinas parecem ser o caminho mais promissor”, disse, ressaltando, porém, que o desenvolvimento ainda depende de vários anos de pesquisa. “Precisamos de mais três ou quatro anos para afirmar com certeza se esse é o melhor caminho”, declarou Alves.

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A entrevista também abordou a repercussão envolvendo o general Augusto Heleno, que afirmou ter Alzheimer desde 2018, ano em que assumiu o comando do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) do governo de Jair Bolsonaro, mas só teria confirmado o diagnóstico oficialmente após a execução da sua pena na condenação por participação no chamado “núcleo crucial” da tentativa frustrada de golpe de Estado. O caso ganhou destaque após o ex-ministro usar a condição como argumento para não cumprir pena de prisão em regime fechado. Alves afirmou, ao comentar o episódio do ponto de vista médico: “Sete anos de Alzheimer normalmente já caracterizam estágio moderado ou mesmo avançado”. Ele lembrou que estatísticas brasileiras indicam que um paciente com Alzheimer vive, em média, de 7 a 8 anos após o diagnóstico, “o que torna improvável a manutenção de um quadro leve por tanto tempo”. Sobre a possibilidade de manter um paciente com Alzheimer preso, afirmou: “No nível leve, é possível, com cuidados adicionais. Já no estágio moderado, tudo torna-se muito mais difícil”.

O pesquisador também destacou fatores de risco associados ao Alzheimer, como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e sedentarismo. Ele reforçou que, embora não haja cura para a doença neurodegenerativa, existem medidas eficazes de prevenção, chamadas por especialistas de “métodos de blindagem”. Entre elas: manter alimentação saudável e controlar o colesterol; praticar exercício físico regularmente; reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados; evitar álcool em excesso e o fumo; além de manter estímulo cognitivo contínuo ao longo da vida. Alves citou novas pesquisas que associam a poluição e a dieta ultraprocessada ao aumento do risco da doença. “Infelizmente, vemos o Brasil aderindo cada vez mais ao ultraprocessado, deixando para trás o arroz, feijão, legumes e saladas”, alertou.

Perguntado sobre atividades como sudoku e palavras cruzadas, muito recomendadas para idosos, Alves explicou que elas ajudam, mas seu efeito é maior quando praticadas desde a juventude. “Temos 86 bilhões de neurônios e cerca de 115 trilhões de sinapses. Quando estimulamos o cérebro com atividades novas, ele cria novas conexões”, disse. É a chamada neuroplasticidade, isto é, a capacidade de o cérebro reorganizar funções quando uma área é prejudicada. “Mesmo depois dos 60 ou 70 anos, essas atividades têm efeito, mas o ideal é começar muito antes”, completou.

Alves lembrou ainda que o Alzheimer é apenas uma entre quase 150 demências existentes, embora seja a mais comum, representando cerca de 70% dos casos. “Quando alguém diz ‘esse idoso está com demência’, é importante perguntar: qual delas?”, destacou.

Hoje, o diagnóstico de Alzheimer é feito por três ou quatro observações que o médico realiza. Ele analisa, primeiro, os fluidos do corpo — sangue ou líquor, o líquido cefalorraquidiano, popularmente chamado de “líquido da espinha”. Também outras secreções, como a saliva, recentemente. Além disso, avalia exames neurocomportamentais, verificando se o paciente apresenta declínio cognitivo, e observa os sintomas, como lapsos de memória.

Segundo o médico e pesquisador, “muitas pessoas falam que o primeiro sinal da doença é a perda de memória. Nem sempre. Muitas vezes o primeiro sinal de Alzheimer é a perda auditiva. A pessoa começa a não ouvir muito bem”.

Mas qual é a grande vantagem da saliva para detectar o Alzheimer? “A gente começou a estudar saliva em 2012. Publicamos nosso primeiro trabalho em 2016 e, agora, no pós-doc que fiz na Medicina em Ribeirão Preto, trabalhei com pessoas mais jovens, comparando essas pessoas jovens com idosos com a doença e com idosos sem a doença. A saliva é um exame de fácil coleta e que traz essas proteínas em concentrações. Temos desenvolvido esse teste para que possa ser usado no diagnóstico. Então, a saliva é barata, de fácil coleta e não dói para se obter”, afirmou Gustavo Alves.

“Por exemplo, para você fazer um teste de líquor, é preciso puncionar, colocar uma agulha nas costas da pessoa. Dói bastante e expõe até a risco de infecções. Não é um exame barato. Então, a ideia da saliva seria transformá-la em um exame de rastreio. Assim como foi feito com a Covid, com exame de saliva, ou como é feito com a hepatite. Hoje você tem teste de saliva para Aids, análise de câncer de mama, análise proteômica na saliva, cortisol na saliva”, explicou.

“Então, a saliva é um elemento de fácil coleta. Por isso temos investido. O Brasil faz parte daquele consórcio de países de média economia, onde você tem um exame acessível como a saliva. Isso poderia propiciar tratamentos cada vez mais precoces, melhorando a qualidade de vida dessas pessoas”, afirmou.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça a trajetória de Gustavo Alves

Gustavo Alves Andrade dos Santos é pesquisador brasileiro que se destaca na área de biotecnologia aplicada à saúde, com foco em doenças neurodegenerativas, especialmente o Alzheimer.

Sua trajetória combina formação acadêmica diversificada e experiência prática em diferentes campos da farmácia e da pesquisa científica. Santos aprofundou os estudos e manteve a busca constante por inovação, o que o levou ao doutorado e, posteriormente, ao pós-doutorado.

Em 2020, ampliou a formação internacional ao cursar neurobiologia na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

Atualmente, é pesquisador colaborador da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (FEA), onde desenvolve projetos voltados para biotecnologia e inovação em saúde. Sua atuação é marcada pela interdisciplinaridade, transitando entre farmácia hospitalar, análises clínicas e pesquisa acadêmica.

Santos também integra a ISTAART, sociedade internacional da Alzheimer’s Association dedicada ao avanço das pesquisas sobre a doença.

Nesse campo, vem se destacando pelo desenvolvimento de métodos inovadores de detecção precoce do Alzheimer, incluindo estudos sobre biomarcadores presentes na saliva que podem antecipar o diagnóstico em até duas décadas antes do surgimento dos sintomas clínicos. Essa linha de pesquisa tem atraído atenção nacional e internacional e o levou a participar de congressos e encontros científicos em diferentes países.

Brasil tem 2,71 milhões de casos de demência, diz Saúde

O Brasil vive um desafio crescente diante do avanço das demências, em especial da doença de Alzheimer, que já atinge milhões de idosos e pressiona o sistema de saúde e assistência social.

Segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, divulgado pelo Ministério da Saúde em 2024, cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais apresenta algum tipo de demência, o que corresponde a aproximadamente 2,71 milhões de pessoas.

O documento alerta para o subdiagnóstico e o estigma que ainda cercam a condição, além de projetar um aumento expressivo dos casos nas próximas décadas, em linha com o envelhecimento populacional.

A doença de Alzheimer, caracterizada pela deposição de proteínas beta-amiloide e tau no cérebro, é a forma mais comum de demência e costuma se manifestar após os 65 anos, embora existam casos de início precoce.

Ela provoca declínio progressivo da memória, da linguagem e das funções executivas, comprometendo a autonomia do paciente.

Outras formas de demência também preocupam. A demência vascular, associada a lesões cerebrovasculares, tem progressão em “degraus” e está ligada a fatores como hipertensão e diabetes. Já a demência por corpos de Lewy, marcada por flutuações cognitivas, alucinações visuais e sintomas parkinsonianos, exige manejo cuidadoso devido à sensibilidade a medicamentos.

A demência frontotemporal, por sua vez, costuma surgir mais cedo, entre os 50 e 65 anos, e provoca alterações de comportamento e linguagem, com forte impacto sobre famílias.

O Ministério da Saúde destaca ainda, no relatório de 2024, que fatores modificáveis como baixa escolaridade, hipertensão e perda auditiva são os principais riscos para demência no Brasil.

Intervenções em educação, saúde cardiovascular e atenção à audição poderiam reduzir significativamente a incidência futura. O documento também reforça a necessidade de campanhas de conscientização para combater o estigma e ampliar o diagnóstico precoce.
No campo das políticas públicas, o país avançou com a criação da Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, instituída pela Lei nº 14.878, sancionada em junho de 2024.

A norma estabelece articulação multissetorial envolvendo saúde, assistência social, previdência, direitos humanos, educação e tecnologia. Entre as diretrizes estão a organização de linhas de cuidado no SUS, a qualificação da atenção primária, o apoio a cuidadores e familiares e a integração com serviços socioassistenciais. A lei também altera a Lei Orgânica da Assistência Social para ampliar a proteção às pessoas com demência e seus cuidadores.

As consequências sociais e econômicas são profundas. O impacto funcional das demências compromete a autonomia e a comunicação dos pacientes, exigindo planejamento de cuidado e adaptação ambiental. Para as famílias, o peso emocional e financeiro é elevado, sobretudo nos casos de início precoce. O relatório oficial de 2024 enfatiza que o reconhecimento precoce e o suporte adequado podem reduzir internações e custos indiretos, além de melhorar a qualidade de vida.

Em 2025, o debate sobre demência permanece no centro das políticas de saúde pública, com o Ministério da Saúde reforçando a necessidade de monitoramento contínuo e de sistemas de informação mais detalhados por território.

A expectativa é que a implementação da política nacional avance com capacitação de profissionais, campanhas educativas e estímulo ao desenvolvimento de tecnologias assistivas. O desafio, segundo os dados oficiais, é transformar projeções em ações concretas que garantam dignidade e cuidado integral às pessoas com Alzheimer e outras demências no Brasil.