da Redação
12 junho 2026
Por Adriana Blak (RJ)
O Brasil está deixando escapar, de forma quase invisível, uma de suas maiores riquezas: os talentos intelectuais. Essa é a tese central do livro “Inteligência: o Ativo Estratégico que o Brasil não pode desperdiçar”, do educador e psicólogo João Batista Araujo e Oliveira, que denuncia a ausência de políticas estruturadas para identificar, apoiar e desenvolver estudantes superdotados.
Em entrevista ao programa BC TV, do Brasil Confidencial, Oliveira afirma que os dados educacionais brasileiros revelam um padrão preocupante:
“Observamos que, ao final do quinto ano escolar, entre os 10% melhores alunos, há um grande número de estudantes da rede pública. Quando chegam ao nono ano, esses alunos começam a desaparecer desse grupo dos 10% melhores.”
Para o educador, esse fenômeno representa “uma perda contínua de capital humano”.
“O talento está em qualquer lugar do Brasil… mas esse potencial vai desaparecendo ao longo da trajetória escolar e acaba se tornando invisível.”
Educação e economia: o talento como ativo estratégico
João Batista Araujo e Oliveira conecta diretamente a questão da superdotação ao desenvolvimento econômico. Ele explica que, em economias baseadas em tecnologia e conhecimento, os indivíduos no topo da distribuição de habilidades cognitivas têm impacto desproporcional.
“A economia disruptiva, baseada em criatividade e inovação acelerada, depende de forma desproporcional da quantidade, da qualidade e da influência dessas pessoas”, afirmou.
O livro sustenta que o Brasil enfrenta um duplo desafio: baixa aprendizagem média e ausência de políticas voltadas para estudantes de alto potencial. Esse quadro, segundo o autor, configura o “desperdício silencioso de inteligência”, com efeitos diretos sobre inovação, produtividade e mobilidade social.
Por que o Brasil desperdiça talentos?
Questionado sobre as causas, o educador disse que “o Brasil desperdiça muita coisa, não apenas os seus jovens”. Ele lembra que “o país historicamente não tratou a educação como prioridade estratégica. Por isso, o Brasil historicamente não deu à educação a importância estratégica que ela merece”, afirmou.
Nesse contexto, estudantes de alto desempenho acabam não sendo identificados ou estimulados:
“Esses estudantes muitas vezes passam despercebidos, sem identificação adequada, sem apoio específico e sem políticas voltadas ao desenvolvimento de seus talentos.”
Superdotação e os mitos no debate público
Araujo e Oliveira também abordou, na entrevista, os tabus que cercam a superdotação no Brasil. Ele lembra que o tema da inteligência carrega um histórico controverso desde o século XIX, o que ainda gera resistências. Apesar disso, destaca que o campo evoluiu cientificamente, com avanços em testes e aplicações educacionais.
Sobre os testes de QI, o educador defende sua validade:
“As evidências mostram que esses testes são robustos, têm vida longa, exigem uma base técnica extremamente sólida e seguem parâmetros internacionais.”
Ele acrescenta que há forte correlação entre desempenho nesses testes e aprendizado escolar.
O livro e sua tese central
A obra de João Batista Araujo e Oliveira reúne evidências da psicometria, da economia do crescimento e de estudos educacionais para sustentar que o desenvolvimento de talentos de alta habilidade deve ser tratado como política estratégica de Estado.
Segundo o livro, “indivíduos no topo da distribuição de habilidades cognitivas têm impacto desproporcional em inovação científica e tecnológica”. Ele cita experiências internacionais de países que adotam políticas de identificação precoce de estudantes talentosos.
O prefácio, assinado pelo economista Marcos Lisboa, reforça a necessidade de uma educação orientada por evidências empíricas e critica o excesso de debates sem base científica na área educacional.
Debate em aberto
A entrevista ao BC TV insere o tema da superdotação em uma discussão mais ampla sobre produtividade, desigualdade e desenvolvimento econômico no Brasil. Para João Batista Araujo e Oliveira, a perda de talentos ao longo da trajetória escolar representa não apenas um problema educacional, mas um entrave ao crescimento do país.
“O problema é que o Brasil não identifica nem desenvolve seus jovens de alto potencial”, resumiu.
A proposta central do livro é transformar esse diagnóstico em ação: tratar a inteligência de alto nível não como exceção marginal, mas como recurso estratégico para o futuro econômico e científico do Brasil.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – A gente fala muito pouco sobre superdotação, e o seu livro, Inteligência: o ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar, joga luz sobre um assunto que precisa ser melhor discutido como estratégia de desenvolvimento econômico. Fala um pouquinho do seu livro.
João Batista – Olha, o livro parte de duas constatações importantes. De um lado, foi um estudo que nós fizemos com base nos dados do INEP, acompanhando a trajetória de crianças da escola pública. Observamos que, ao final do quinto ano, entre os 10% melhores alunos, há um grande número de estudantes da rede pública. Quando chegam ao nono ano, esses alunos começam a desaparecer desse grupo dos 10% melhores. No ensino médio, restam muito poucos; na universidade, menos ainda.
Ou seja, o talento está em qualquer lugar do Brasil. Quase toda cidade tem alguém entre os melhores alunos no quinto ano, mas esse potencial vai desaparecendo ao longo da trajetória escolar e acaba se tornando invisível. Isso se aplica especialmente às crianças da rede pública.
O outro dado que motivou esse estudo vem da realidade econômica. Na metade do século passado, a economia começou a entender que a educação era importante para o desenvolvimento econômico. Inicialmente, a ideia era simples: ampliar o acesso à escola. Depois, percebeu-se que não bastava ter mais pessoas estudando; era preciso aumentar os anos de escolaridade.
Mais tarde, novos estudos mostraram que nem mesmo os anos de escolaridade explicavam plenamente o desenvolvimento econômico. O que realmente importa é o conhecimento adquirido, ou seja, o nível médio de conhecimento da população de cada país.
Agora, mais recentemente, na sociedade da inteligência artificial e da tecnologia, as pesquisas vêm demonstrando que as pessoas que estão na ponta superior da distribuição de inteligência — aquelas de altíssimo talento — têm uma contribuição desproporcional para a qualidade e a velocidade do desenvolvimento econômico e tecnológico de um país.
Isso se torna ainda mais evidente porque, à medida que essas pessoas avançam em sua formação, alcançando mestrados, doutorados e especializações, elas tendem a se concentrar em polos industriais, centros tecnológicos e ambientes de inovação. Assim, a economia disruptiva, baseada em criatividade e inovação acelerada, depende de forma desproporcional da quantidade, da qualidade e da influência dessas pessoas que estão na extremidade superior da distribuição da inteligência em cada população.
Foi justamente da combinação dessas duas constatações — a perda de talentos ao longo da trajetória educacional e a importância estratégica desses talentos para o desenvolvimento econômico — que surgiu a ideia deste livro.
Adriana Blak – Agora, professor, por que o Brasil desperdiça seus jovens de alto potencial? Qual é a explicação para isso?
João Batista – Olha, o Brasil desperdiça muita coisa, não apenas os seus jovens. Parte disso tem a ver com uma cultura de não levar determinadas questões tão a sério quanto deveria. Temos um desenvolvimento econômico que muitos economistas chamam de “voo de galinha”, marcado por avanços pontuais, mas sem continuidade. Em grande medida, isso é associado à baixa produtividade, à limitada capacidade tecnológica e a um ambiente econômico que, historicamente, dependeu de mecanismos de proteção para preservar setores pouco competitivos.
Nesse contexto, não há uma pressão tão grande para que as pessoas desenvolvam todo o seu potencial. Muitos jovens das classes mais favorecidas seguem trajetórias relativamente previsíveis, sem a necessidade de disputar oportunidades altamente competitivas em nível internacional. É uma economia que, em certa medida, permanece voltada para si mesma.
As classes médias e altas acabam encontrando formas de atender às suas próprias necessidades, enquanto a escola pública permanece como realidade para a maior parte da população. Como a qualidade da educação pública não afeta diretamente quem toma muitas das decisões políticas, a educação frequentemente deixa de ocupar uma posição central nas prioridades nacionais.
Por isso, o Brasil historicamente não deu à educação a importância estratégica que ela merece. E, se não valoriza plenamente a educação em geral, também tende a não enxergar os alunos de alto potencial. Esses estudantes muitas vezes passam despercebidos, sem identificação adequada, sem apoio específico e sem políticas voltadas ao desenvolvimento de seus talentos.
Estou simplificando um pouco a questão, mas, em linhas gerais, é algo próximo disso.
Adriana Blak – Agora, por que a superdotação ainda é um tema cercado de mitos no Brasil? A gente fala muito pouco sobre superdotação, não é?
João Batista – Olha, o tema da inteligência surgiu na história de forma um pouco comprometida. No final do século XIX, quando economistas e estudiosos da demografia começaram a lidar com esse fenômeno, a inteligência — especialmente a inteligência muito elevada — acabou sendo associada a políticas de eugenia e segregação, ideias que mais tarde foram apropriadas por regimes como o nazismo. Então, é um tema que nasceu carregando esse estigma.
Ao mesmo tempo, houve um desenvolvimento positivo, especialmente na França, onde surgiram os primeiros testes para medir a inteligência. Eles nasceram de uma demanda do sistema educacional. A ideia era identificar alunos que tinham dificuldades de aprendizagem e precisavam de apoio específico. A escola moderna, criada para atender à sociedade industrial, era organizada em torno da média da população, mas havia grupos que não se encaixavam nesse padrão.
A partir dessa necessidade, começaram a surgir testes e conceitos voltados à avaliação das capacidades cognitivas. Mais tarde, essas ferramentas também foram utilizadas pelo Exército americano durante a Primeira Guerra Mundial, com o objetivo de direcionar as pessoas para funções em que pudessem desempenhar melhor suas habilidades.
Pouco depois, em 1927, surgiram exames destinados a medir o potencial acadêmico dos jovens para ingresso na universidade, modelos que influenciaram avaliações utilizadas até hoje. Assim, apesar das controvérsias ligadas à sua origem e aos usos indevidos que ocorreram ao longo da história, trata-se de um campo de estudo que se consolidou com bases científicas robustas e manteve relevância por mais de um século.
Por isso, embora o tema da inteligência ainda provoque desconforto em alguns contextos, em razão dessas associações históricas, ele possui uma trajetória longa, consistente e importante tanto para a educação quanto para o desenvolvimento humano.
Adriana Blak – Sobre esses testes hoje de QI, o senhor acha que eles ainda estão valendo? O senhor considera que são úteis ou acha que já estão sólidos?
João Batista – Não, eu não acho nada. Eu vou olhar as evidências. As evidências mostram que esses testes são robustos, têm vida longa, exigem uma base técnica extremamente sólida e seguem parâmetros internacionais. Você precisa comparar o seu teste com o de outros países para validá-lo, e no Conselho Nacional de Psicologia você tem que cumprir uma série de critérios.
Além disso, é um indicador que tem alta correlação com o aprendizado escolar e com várias outras dimensões. Você não consegue publicar um artigo em revista de economia no mundo, nos últimos 30 ou 40 anos, se for sobre educação, sem um controle por teste de inteligência.
O teste médio é a inteligência; o QI é a medida.
SERVIÇO

Inteligência: O ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar
Autor: João Batista Araujo e Oliveira
Editora: Dados
Páginas: 129
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça o educador João Batista Araujo e Oliveira
João Batista Araujo e Oliveira é psicólogo e educador. Tem mestrado em Psicologia pela Tulane University e doutorado em Pesquisa Educacional pela Florida State University.
Fundou e presidiu o Instituto Alfa e Beto e atualmente é presidente do Instituto IDados. Atuou no Banco Mundial, em Washington, e na Organização Internacional do Trabalho, em Genebra. Foi também secretário-executivo do Ministério da Educação.
Sempre apoiado em evidências, com independência e sem receio de controvérsias, tornou-se uma voz eloquente no debate sobre educação no Brasil.
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