da Redação
25 maio 2026
Os mercados ao ar livre de Kinshasa fervilham com a mesma intensidade de sempre. Entre as bancas de mandioca, peixe fresco e tecidos coloridos, os 20 milhões de habitantes da capital da República Democrática do Congo (RDC) movem-se alheios às restrições sanitárias que o resto do mundo começa a impor ao seu país. No nordeste profundo, na província de Ituri, um surto da variante Bundibugyo do vírus Ebola avança de forma alarmante, somando 177 mortes suspeitas e cerca de 750 contágios. Na capital, no entanto, a epidemia é vista como uma realidade remota, quase estrangeira.
“Não vejo motivos para pânico. Kinshasa está segura”, resume Malula Richard Esambo, líder de uma federação de torcedores locais, refletindo o sentimento de uma metrópole que recusa parar.
A apatia da capital não é apenas um exercício de negação, mas uma consequência da própria geografia e da precariedade estrutural do país.
Quase 1.500 quilômetros de florestas e estradas praticamente intransitáveis separam Kinshasa do epicentro do surto. Essa desconexão terrestre, paradoxalmente, atua como uma barreira sanitária natural.
Especialistas internacionais alertam contra as reações intempestivas do Ocidente. Tulio de Oliveira, diretor do Centro de Resposta Epidêmica e Inovação da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul, critica abertamente as propostas de isolamento ou veto a viajantes vindos da RDC. “O caminho mais eficaz é conter o surto na sua origem. Bloquear um país com dimensões continentais é uma medida ineficaz do ponto de vista da saúde pública”, argumenta o cientista.
O dilema da fome antes do vírus
A tranquilidade de Kinshasa caminha sobre o fio da navalha. O governo central suspendeu voos comerciais para Bunia, a capital da região afetada, e proibiu aglomerações na zona do surto, que já cruzou fronteiras em direção a Uganda e ao Sudão do Sul. Mas em uma megacidade onde a economia informal é o único colchão de sobrevivência, o isolamento social não é uma opção viável.
“Aqui, as pessoas acham que o Ebola é uma história de outra terra”, relata Christine Nlandu, uma vendedora de 37 anos. Epidemiologistas como Petronella Mugoni alertam que a repetição histórica de surtos — este já é o 17º que o país enfrenta em cinco décadas — gerou uma perigosa complacência. Contudo, Mugoni reconhece as prioridades da população: “Em contextos de extrema pobreza, garantir o sustento diário precede a prevenção. Para a maioria, fechar os mercados seria muito mais catastrófico do que o próprio vírus.”
Enquanto Kinshasa mantém as escolas abertas e os bares cheios de clientes que consomem frango grelhado e cerveja, o contraste com o leste do país é brutal. Na cidade de Goma, o medo do Ebola se mistura com a violência crônica do grupo rebelde M23, que controla a região.
“A crise de saúde e o conflito armado estão completamente entrelaçados. É sufocante”, desabafa Joëlle Koko Zihindula, uma jovem assistente social de 28 anos na linha de frente da crise em Goma.
A prevenção que chega pelas crianças
À margem da aparente indiferença das autoridades nas ruas da capital, as sementes da prevenção começam a brotar nas salas de aula. Sem campanhas massivas na televisão, são os professores que assumiram o papel de dique de contenção. Na escola Madame Lecandele, no noroeste da cidade, a diretora Elysée Ntoto Mazoba instrui os alunos diariamente.
A mensagem foi absorvida por Christopher Ciribagula, de apenas 9 anos. Com a clareza de quem compreende o perigo, o menino dita as novas regras aprendidas: “Não tocar em animais mortos, avisar os pais em caso de febre e ficar longe de quem estiver sangrando pelo nariz.” Christopher confessa ter medo de uma próxima viagem familiar.
A curto prazo, a grande preocupação dos moradores de Kinshasa é mais cultural do que sanitária. Com a seleção nacional de futebol escalada para estrear na Copa do Mundo em Houston, nos Estados Unidos, cresce o temor de que o pânico internacional resulte na negação de vistos aos torcedores. Esambo, o líder dos torcedores, apela à racionalidade das potências ocidentais: “A América é uma grande nação. Esperamos que não tomem decisões baseadas no medo e sem fundamentos reais.”
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