da Redação
25 maio 2026
A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou em modo de “contenção de danos”. O senador, atingido pelo vazamento de conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, passou a investir em uma narrativa religiosa e em gestos internacionais para tentar recuperar terreno.
O movimento inclui vídeos em que cita passagens bíblicas e se apresenta como herdeiro espiritual do pai, Jair Bolsonaro, além de uma viagem aos Estados Unidos para buscar uma foto ao lado de Donald Trump, articulada pelo irmão Eduardo Bolsonaro.
A estratégia responde a dois problemas simultâneos: a queda nas pesquisas e o mal-estar com líderes evangélicos. O Datafolha de 22 de maio mostrou Flávio com 31% das intenções de voto, quatro pontos a menos que no levantamento anterior. Lula ampliou a vantagem para 40% a 31% no primeiro turno e venceria por 47% a 43% em eventual segundo turno.
“Esta não é apenas uma batalha política, é uma batalha espiritual”, afirmou o senador em vídeo, evocando o “manto de Elias” para simbolizar a transferência de missão do pai. A retórica religiosa busca conter a irritação de pastores influentes, como Silas Malafaia, que já admite apoiar Michelle Bolsonaro caso surjam novas suspeitas sobre Flávio.
Evangélicos divididos e Michelle em ascensão
Malafaia, que preferia Tarcísio de Freitas, passou a tratar Michelle como “principal alternativa” após o governador de São Paulo decidir não se desincompatibilizar.
A ex-primeira-dama é vista como figura de maior apelo popular, sobretudo entre mulheres, e sua eventual candidatura poderia reposicionar o bolsonarismo no campo evangélico.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, nega ter dado prazo de 15 dias para avaliar a pré-candidatura, mas admite pressão interna por resultados. Nos bastidores, aliados falam em “prazo implícito” de até duas semanas para recuperação, com alerta caso Flávio perca mais nove ou dez pontos.
Vorcaro, milhões e desgaste prolongado
O senador confirmou ter pedido recursos a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O acordo previa R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido repassados. A revelação de encontros após a primeira prisão do ex-banqueiro, em novembro de 2025, quando ele usava tornozeleira eletrônica, ampliou o desgaste. Flávio nega irregularidades ou troca de favores.
Auxiliares classificam o caso como “pedra no sapato” da campanha e defendem criação de fatos políticos para virar a página.
Nesse contexto, o senador trocou o marqueteiro Marcello Lopes pelo publicitário Eduardo Fischer e aceitou indicações de porta-vozes para economia e saúde.
“Não dá mais para jogar parado. Ele tomou um golpe, precisa virar o jogo”, resumiu um aliado.
Washington como palco de recuperação
A aposta internacional mira em Trump. A reunião, ainda sem confirmação oficial, é articulada por Eduardo Bolsonaro, residente nos EUA e interlocutor de aliados republicanos. A campanha vê na imagem com o ex-presidente um ativo para reanimar a base bolsonarista e recuperar fôlego.
Internamente, há cobrança por maior presença em palanques domésticos e definição de candidaturas estaduais, especialmente em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Antes da crise, Flávio priorizou agendas internacionais, passando por Israel, Oriente Médio e França, o que gerou críticas dentro do PL.
Barganha reduzida e teste de biografia
Para a cientista política Lara Mesquita, da FGV, o episódio reduziu o poder de barganha do PL. “É uma candidatura fragilizada, mas não inviabilizada”, avalia. Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, chama o caso de “primeiro teste de biografia” de Flávio, cuja identidade política ainda é fortemente atrelada ao pai.
Apesar das pressões, o senador insiste em narrativas de perseguição. “Enquanto Lula está com o diabo, eu estou com Deus”, escreveu nas redes. A frase sintetiza a aposta: se a política sangra, a fé pode estancar.
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