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Caso Marituba: Crise ambiental expõe responsabilidades corporativas e debate sobre Solví e Cetrel

Histórico do aterro no Pará volta ao centro das atenções após expansão do Grupo Solví, que incorporou a Cetrel, ligada...

da Redação

12 junho 2026

Caso Marituba: Crise ambiental expõe responsabilidades corporativas e debate sobre Solví e Cetrel

O caso do Aterro Sanitário de Marituba, no Pará, voltou a lançar luz sobre a atuação do Grupo Solví, fundado por Carlos Leal Villa, e reacendeu questionamentos sobre responsabilidade corporativa, governança ambiental e os limites da atuação de grandes conglomerados privados em setores sensíveis.

Entre 2017 e 2019, a crise envolvendo o empreendimento ganhou repercussão nacional, mobilizou moradores da Região Metropolitana de Belém, órgãos ambientais, Ministério Público e Poder Judiciário, colocando sob pressão não apenas operadores locais, mas também estruturas mais amplas de gestão empresarial.

No centro da controvérsia estava uma pergunta que permanece atual: até que ponto uma grande empresa pode alegar desconhecimento diante de uma crise ambiental prolongada, marcada por denúncias públicas, investigações oficiais e forte reação social?

Moradores e denúncias

Moradores da região relataram, à época, a presença constante de odores considerados insuportáveis, enquanto autoridades passaram a apurar denúncias de possíveis vazamentos de chorume e impactos ambientais em áreas próximas ao aterro. O empreendimento era considerado estratégico para a destinação de resíduos de milhões de pessoas, mas acabou se transformando em foco de conflito entre comunidades, órgãos de fiscalização e responsáveis pela operação.

Judicialização e pressão sobre executivos

Com o avanço das investigações, as medidas adotadas pela Justiça chamaram atenção pela gravidade. Pedidos de prisão preventiva, afastamentos de gestores e bloqueios patrimoniais atingiram executivos ligados à operação e pessoas associadas à estrutura administrativa do grupo empresarial.

A escalada judicial ampliou o debate sobre a extensão das responsabilidades. Para críticos do empreendimento, a severidade das medidas indicava que as autoridades enxergavam o caso como algo além de uma falha operacional localizada. A dúvida passou a ser se os problemas identificados poderiam alcançar níveis superiores da cadeia de comando e da governança corporativa.

Executivos ligados à operação chegaram a ser condenados em primeira instância por crimes ambientais relacionados ao aterro, embora as decisões tenham sido posteriormente contestadas por meio de recursos. Mesmo assim, o caso deixou uma marca no setor ambiental: se os mecanismos de controle funcionavam de forma adequada, por que a crise alcançou tamanha dimensão social, política e judicial?

As defesas sustentaram que os laudos técnicos não demonstravam de forma definitiva uma contaminação atribuível ao aterro. Também argumentaram que a interrupção das atividades poderia provocar um colapso no sistema regional de destinação de resíduos. A controvérsia, no entanto, não impediu que o episódio se consolidasse como um dos casos ambientais mais sensíveis do Pará e do Brasil nos últimos anos.

A incorporação da Cetrel

Anos depois, quando a crise de Marituba parecia ter ficado para trás, um novo movimento empresarial voltou a chamar atenção. O Grupo Solví ampliou sua presença no setor ambiental com a incorporação da Cetrel S/A, empresa historicamente ligada à gestão ambiental do Polo Industrial de Camaçari, na Bahia.

A operação aproximou duas organizações que, em momentos distintos, estiveram associadas a debates ambientais de grande repercussão pública. De um lado, a Solví carregava o histórico da crise de Marituba. De outro, a Cetrel já havia sido alvo de questionamentos envolvendo gestão de efluentes industriais, monitoramento ambiental na região de Camaçari e operação do emissário submarino utilizado para descarte de efluentes tratados.

Ao longo dos anos, pesquisadores, organizações ambientais e comunidades locais levantaram dúvidas sobre possíveis impactos ambientais ligados às atividades do complexo industrial baiano.

Essas discussões resultaram em debates técnicos, procedimentos administrativos e disputas judiciais, reforçando a necessidade de acompanhamento permanente sobre empresas que atuam em áreas de alto impacto ambiental.

Concentração exige mais fiscalização

Para defensores da operação, a incorporação da Cetrel pelo Grupo Solví representa um fato natural de mercado. Para críticos, porém, a associação entre empresas que já estiveram no centro de controvérsias ambientais reforça a necessidade de fiscalização independente, transparência pública e controle social. A concentração de ativos ambientais em grandes grupos privados pode ampliar a capacidade técnica, mas também aumenta a importância de mecanismos rigorosos de responsabilização.

O caso Marituba permanece, nesse sentido, como um alerta. Crises ambientais não se limitam ao território onde ocorrem. Elas podem ultrapassar os limites de uma operação específica, afetar comunidades inteiras, mobilizar instituições públicas e alcançar os níveis mais altos da governança corporativa.

Mais do que um episódio isolado, Marituba expõe uma questão estrutural: em atividades que envolvem resíduos, efluentes e riscos ambientais, a responsabilidade não pode ser tratada apenas como assunto operacional. Ela pode alcançar a estratégia, a gestão e o topo das decisões empresariais.

A pergunta deixada pelo caso, portanto, não é apenas o que ocorreu no aterro, mas se todas as responsabilidades foram efetivamente esclarecidas — e se o país dispõe de instrumentos suficientes para fiscalizar grupos privados que controlam serviços ambientais essenciais.

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