da Redação
25 maio 2026
Por Adriana Blak (RJ)
A política atravessa todas as dimensões da vida: define o preço do pão, regula o acesso à saúde, influencia a segurança das ruas e até molda as relações pessoais. Ainda assim, permanece cercada por silêncios e resistências, como se fosse um território reservado apenas a especialistas ou a disputas partidárias. O resultado é um paradoxo: quanto mais presente a política está no cotidiano, mais distante parece estar do debate público.
É nesse cenário que o professor e cientista social Aurelio Maranha lança o livro “Precisamos Falar Sobre Política”, obra que busca aproximar conceitos clássicos da ciência política da experiência comum, especialmente dos jovens.
Com linguagem acessível e tom de conversa, o autor propõe que compreender política não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade vital para quem deseja participar de forma consciente da democracia. Segundo Maranha, “evitar o assunto por medo de conflito apenas amplia mal-entendidos e dificulta o entendimento coletivo”.
“Tudo na nossa vida é política”, afirmou em entrevista ao programa BC TV, do Brasil Confidencial. Para ele, o debate deveria ser visto como ferramenta de esclarecimento, e não de confronto.
Filosofia em linguagem simples
A proposta do livro, lançado poucos meses antes das eleições presidenciais, para governadores e para o Parlamento, é tentar “traduzir” conceitos desenvolvidos por pensadores como Platão, Maquiavel e Max Weber para uma linguagem simples e acessível. O objetivo, segundo o professor, é estimular debates ligados à vida cotidiana e à realidade do país, diante da polarização entre grupos antagônicos.
O livro é voltado principalmente para jovens entre 18 e 22 anos. Maranha explicou que optou por uma escrita em formato de conversa, sem referências acadêmicas tradicionais, para facilitar o entendimento e capturar o interesse dos novos eleitores. “É um bate-papo entre amigos”, disse, ressaltando o objetivo de tornar a ciência política mais palatável sem perder profundidade.
Ao longo da obra, o autor apresenta nomes fundamentais da filosofia e da ciência política: Platão e Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Proudhon, Marx e Engels, até chegar a Weber, Rawls, Mises, João Ubaldo Ribeiro e Byung-Chul Han.
Liberalismo clássico como eixo
Segundo Maranha, um dos pontos centrais da obra é “a defesa do liberalismo clássico como eixo interpretativo”. Ao tratar da relação entre “liberdade individual” e “desigualdade social”, recorre a exemplos históricos e comparações internacionais, como o contraste entre Cuba e Singapura, para sustentar sua visão de que diferentes modelos ideológicos produzem resultados econômicos distintos.
Amparado nas ideias de Ludwig von Mises, o escritor faz críticas ao autoritarismo, ao totalitarismo e a regimes comunistas vigentes. “A liberdade individual é um valor inegociável e inviolável frente ao Estado”, argumenta.
Política e economia no cotidiano
O professor também destacou a relação entre política econômica e vida cotidiana, especialmente no que diz respeito à inflação, impostos e preços. Para ele, decisões políticas influenciam diretamente o poder de compra da população.
Maranha critica a confusão entre criação de riqueza e emissão de moeda, afirmando que a inflação está ligada ao aumento da quantidade de dinheiro em circulação sem correspondente crescimento da produção. “Dinheiro é apenas um meio de troca”, disse, reforçando que o aumento da base monetária, sem lastro produtivo, reduz o poder de compra e impacta diretamente o consumidor final.
Era digital e desinformação
Na entrevista, Maranha abordou o impacto da era digital na política contemporânea. Citou o filósofo Byung-Chul Han e sua obra A Sociedade do Cansaço. Segundo ele, o excesso de informação gera simultaneamente conhecimento, ansiedade e vulnerabilidade à manipulação.
Aurelio Maranha afirmou que a circulação massiva de dados, especialmente nas redes sociais, amplia a disseminação de fake news, mas defendeu que a solução não está na censura. “O combate à desinformação passa pelo aumento da circulação de informação de qualidade e pelo fortalecimento de uma imprensa livre”, disse.
Apesar de reconhecer a manipulação algorítmica, vê no mundo digital “uma possibilidade de diálogo mais livre e uma ferramenta poderosa para supervisionar as decisões dos governantes”.
Educação política como caminho
Entre críticas, análises e elucidações, o professor afirma que o livro busca oferecer “as ferramentas necessárias para que as pessoas possam se perceber como cidadãos capazes de transformar a política e de preservar a democracia”.
“A obra é um convite à reflexão crítica, à busca incansável pela verdade e à superação das dicotomias simplistas que hoje fragmentam o nosso diálogo”, concluiu Aurelio Maranha.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Professor Aurélio, o título do seu livro é um imperativo: “Precisamos Falar Sobre Política”. Por que tanta gente ainda evita esse tema justamente quando ele mais interfere na vida cotidiana?
Aurelio Maranha – Para você ver, é um paradoxo, porque tudo na nossa vida é política. Você fala em política da saúde, política da segurança, política econômica; afinal, política é o nosso cotidiano. Você precisa até de uma política para conquistar alguém, e vai por aí afora. Mas, no fundo, a grande maioria diz: “não vou discutir política, senão vamos brigar”. Não. É fundamental discutir para entender e, exatamente, diminuir as arestas e as confusões.
Adriana Blak – Professor, o senhor traduz conceitos de Platão, Maquiavel e Max Weber para uma linguagem bastante acessível. Como simplificar a ciência política sem transformar o debate em superficialidade?
Aurelio Maranha – Essa foi a principal preocupação minha, porque quando eu pensei no livro, eu estava pensando nos jovens, nos meus alunos, gente entre 18 e 22 anos. Hoje, talvez, esteja até um pouco mais complicado, porque o jovem me parece bastante desligado.
Então, eu tinha que pegar conceitos complexos e transformá-los na forma mais palatável possível. E, como sempre tive facilidade para contar história, eu escrevi um livro como quem está contando história.
Não tem rodapé de barna, citação, nada. É um bate-papo entre amigos: um que sabe um pouquinho mais, tentando passar para quem não sabe nada. Acho que o livro está gostoso por causa disso.
Adriana Blak – O senhor defende o liberalismo clássico como eixo da obra. Como a defesa da liberdade individual conversa com a realidade de um país profundamente desigual como o Brasil?
Aurelio Maranha – Pois é, são coisas que não deveriam ser tocadas assim, dessa maneira. Vou dar um exemplo para você entender com muita facilidade. Pegue duas ilhas praticamente idênticas e volte 100 anos no tempo.
Estou falando de Singapura e Cuba. Povo, mesma quantidade, aproximadamente mesmo tamanho, só que um, Cuba, há 670 anos atrás, já era rica. E Singapura era um pântano.
Aí você aplica uma ideologia completamente diferente entre uma e outra e você vê o resultado hoje. Cuba é um desastre, uma tristeza, e Singapura é um centro financeiro de toda a Ásia. Ou seja, é o homem que faz a diferença.
Adriana Blak – Como explicar ao cidadão comum que inflação, impostos e os preços do supermercado são, antes de mais nada, decisões políticas?
Aurelio Maranha – Esse é outro conceito que tentei explicar com a melhor imagem que eu tinha. O socialista acha que tudo cai do céu. Está faltando… vamos imprimir dinheiro, porque está faltando movimentar, e isto é que gera inflação.
E como é que sai dessa coisa? Olha, produzir riqueza não é a mesma coisa que imprimir dinheiro. Então, a primeira confusão que o político faz, e eu não estou falando que todos são assim, mas os atuais acham que basta imprimir dinheiro ou aumentar impostos e arrecadar dinheiro. Não, não.
Produção econômica é uma coisa, produção de dinheiro é outra. Dinheiro é apenas um meio de troca. E a inflação, a gente percebe, pouca gente fala, mas é a expansão da base monetária. Ou seja, tem mais dinheiro para comprar a mesma quantidade de coisas.
É assim que acontece a inflação. Com o mesmo dinheiro que você tem hoje, você vai no supermercado e compra muito menos do que comprava 10 anos atrás. Aí vêm os índices do IBGE. “Não, mas a inflação está sob controle?” Não.
Quem sente a inflação é a dona de casa, que vai e vê que o carrinho não compra a mesma coisa que comprava antes. Só que o trabalho da pessoa, a quantidade de tempo, é o mesmo.
Adriana Blak – O senhor cita Byung-Chul Han e A Sociedade do Cansaço. O eleitor de hoje, afinal, está mais informado ou apenas está mais cansado, ansioso e manipulado?
Aurelio Maranha – As três coisas. Começa pela manipulação. Com o mundo digital, é muito fácil informar. O volume de informação hoje é tão grande que nunca houve, na história, tanta informação disponível. E é lógico que, no meio dessa informação, existem também desinformações, as chamadas fake news.
Como é que se combate fake news? Com mais informação verdadeira. Não adianta censurar, porque a censura só quer dizer uma coisa: “não quero que você fale sobre isso”.
Então, a única maneira de combater fake news é tornar a informação cada vez mais livre, com uma imprensa cada vez mais livre. E o papel de vocês, na produção de informação e na melhoria do conhecimento, é fundamental.
As redes sociais, mesmo com todo o ruído que existe nelas, quando há mais informação verdadeira, acabam gerando um processo de depuração: em algum momento, o conflito aparece e fica claro o que é verdade. Aí se percebe: “isso que estavam falando é bobagem, a verdade está aqui”.
Hoje, esse grande volume de informação também gera muita ansiedade, porque as pessoas não sabem mais o que é verdade. Por isso, é preciso aprender princípios para separar o joio do trigo: entender o que é besteira e o que tem fundamento.
Eu acho que o meu livro vai bem nessa direção, tentando alertar e dar um pouco mais de consciência às pessoas.
SERVIÇO

Precisamos Falar sobre Política
Autor: Aurelio Maranha
Editora: Diálogo Freiriano
Páginas: 122
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça o professor e cientista social Aurelio Maranha

Cientista social com especialização em Marketing, o professor Aurelio Maranha construiu uma carreira marcada pela conciliação entre docência e atuação no setor empresarial. Entre 1982 e 1995, lecionou Sociologia, Antropologia e Política em instituições de ensino superior de Franca (SP), como a Universidade de Franca (Unifran) e o Centro Universitário de Franca (Uni-Facef).
Após mais de uma década dedicada ao ensino, migrou para o setor privado, onde consolidou sua experiência na área comercial. Sua passagem pela Yamaha Motor do Brasil foi decisiva: ocupou o cargo de diretor comercial, liderando estratégias de expansão e relacionamento com o mercado.
Da sala de aula ao mundo corporativo
A vivência acadêmica e corporativa moldou sua visão crítica sobre sociedade e política. Essa combinação de perspectivas agora se traduz em sua estreia literária. No livro “Precisamos Falar sobre Política”, Aurelio propõe uma introdução acessível e reflexiva à ciência política, voltada para leitores que desejam compreender melhor os mecanismos que estruturam a vida pública.
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BC TV de 25/05/2026
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