da Redação
27 maio 2026
Rodrigo Perez*
Entre escândalos, derrotas e previsões de colapso, o bolsonarismo segue mobilizando ressentimentos sociais e preservando força política no Brasil contemporâneo.
O termo “bolsonarismo” começou a circular no debate público brasileiro durante a crise do segundo mandato de Dilma Rousseff, entre 2014 e 2016. Inicialmente, o conceito ganhou força na internet, apresentando o então deputado Jair Bolsonaro como a personificação da crítica à corrupção sistêmica e à cultura do politicamente correto, ambas associadas à esquerda. É provável que o leitor se lembre de como o parlamentar era representado pelo meme “Deal With It”, no qual óculos escuros pousavam em seu rosto ao som de “Turn Down for What”, single lançado em 2013 pelo DJ francês Snake em parceria com o rapper norte-americano Lil Jon.
Em um segundo momento, a própria imprensa profissional começou a utilizar o conceito para definir o “bolsonarismo” como um movimento político de massas. Pela primeira vez na Nova República, forjava-se uma direita popular com grande capacidade de mobilização, combinando o repertório da guerra cultural (há anos associado à imagem do parlamentar, como a narrativa do “kit gay”) com a jornada anticorrupção impulsionada pela Operação Lava-Jato.
Emblemática disso foi a reportagem “Um fantasma ronda o Planalto”, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em abril de 2017. A partir dali, Jair Bolsonaro deixava definitivamente de ser uma caricatura do baixo clero da Câmara dos Deputados para se tornar um ator relevante no tabuleiro político nacional. O termo, então, consolidou-se como um dos principais conceitos acionados no debate público brasileiro, à direita e à esquerda. Estávamos diante de um novo fenômeno ideológico, de difícil compreensão não apenas para a classe política tradicional, mas também para acadêmicos e jornalistas especializados na dinâmica política do país.

De lá para cá, foram várias as “crises do bolsonarismo” que levaram muitos observadores a decretar prematuramente a sua morte. Logo em meados de 2018, quando Jair Bolsonaro começava a pontuar nas pesquisas eleitorais, alguns afirmavam contundentemente que ele não tinha chances de vencer a disputa, sob o argumento de que seu “teto” era baixo e de que o histórico de polêmicas acumuladas tornava sua rejeição impeditiva. Às vésperas do pleito, entre setembro e outubro, a esquerda organizou grandes atos de rua que ficaram conhecidos como o movimento “Ele Não”.
Já durante o governo, entre 2020 e 2021, aconteceu a crise da pandemia de Covid-19, potencializada no Brasil pela insistência do mandatário em boicotar as medidas sanitárias.
Em 2022, aconteceram a derrota eleitoral para Lula, a conspiração golpista à luz do dia e as punições em virtude dos ataques de 8 de janeiro de 2023 às instituições da República. Em novembro de 2025, o ex-presidente foi preso, naquele que se tornou o principal revés sofrido pelo bolsonarismo até então.
Em cada um desses momentos, análises apontavam para o seu esgotamento definitivo. É o recorrente “agora vai!”, fundado em fronteiras um tanto porosas entre a análise política racional e os desejos daqueles que anseiam pelo desaparecimento do bolsonarismo no ecossistema ideológico nacional.
Mas o bolsonarismo mostrou grande capacidade de resiliência, frustrando os prognósticos de seus adversários. O balde de água fria veio entre março e abril deste ano, quando Flávio Bolsonaro começou a mostrar-se competitivo nas pesquisas eleitorais, contrariando as avaliações que apontavam o senador como um candidato mais frágil do que seria, por exemplo, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Os argumentos eram muito semelhantes aos utilizados em 2018 em relação à candidatura de Jair Bolsonaro: a controversa biografia de Flávio (envolvendo investigações de “rachadinhas”, relações com milicianos e suspeitas de lavagem de dinheiro) enfraqueceria a chapa a ponto de torná-la presa fácil na polarização com o presidente Lula. Novamente, o bolsonarismo foi subestimado.
Em poucas semanas, Flávio apareceu tecnicamente empatado com Lula, chegando a liderar numericamente em levantamentos de institutos de grande prestígio, como o Datafolha. Se subestimar o bolsonarismo in 2018 era algo compreensível, dado o ineditismo do fenômeno, fazê-lo hoje, em 2026, é um erro político imperdoável.
Levando em conta o otimismo com que parte da esquerda recebeu a divulgação dos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vórcaro, aparentemente a lição ainda não foi aprendida. A primeira rodada de pesquisas após o escândalo mostra o senador perdendo, em média, 5% das intenções de voto.
É pouco, dada a gravidade do material divulgado pelo The Intercept. Lula não herda esses votos, e a perda não é suficiente para tirar a competitividade de Flávio, pois o núcleo duro do bolsonarismo irá com ele até o fim.
A depender do que for divulgado nos próximos dias, o sobrenome Bolsonaro finalmente cairá em desgraça? Acho pouco provável, a não ser que o material revele um caso de amor entre o senador e o banqueiro, tratando-se carinhosamente como “pelelecos”.
Talvez assim o eleitor bolsonarista raiz se movimente. Talvez.
É ingênuo esperar o momento em que o bolsonarismo se destruirá por si só, em que a nuvem simplesmente passará e o céu azul surgirá outra vez no horizonte.
Certamente, haverá momentos de declínio, como o atual, em que o movimento já não mostra a mesma capacidade de mobilização. Enquanto os ressentimentos acumulados com a democracia brasileira não forem resolvidos, o bolsonarismo sobreviverá, ora com força para governar, ora à espreita, mantendo seu potencial de desestabilização.
Pois o bolsonarismo é exatamente isso: o acúmulo de ressentimentos com uma democracia de baixa intensidade, que não trata os direitos sociais (comer, vestir e morar) como preceitos inegociáveis, ao mesmo tempo em que a classe política e a elite do serviço público ostentam estilos nababescos de consumo.
Para piorar, a esquerda, a quem caberia o gesto político da denúncia, redirecionou sua ofensiva, mirando agora o homem pobre, tratado como “estuprador e assediador em potencial”, como alguém essencialmente corrompido. No atual estado de coisas, não existe bala de prata capaz de dar cabo do bolsonarismo, exatamente porque ele organiza emoções e valores que são reais e legítimos.
*Rodrigo Perez é doutor em História Social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid e professor do Departamento de História da UFBA.
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