da Redação
05 junho 2026
Por Moisés Rabinovici, especial para Brasil Confidencial
“Este não é o seu país; é o nosso país”, declarou ao Irã o presidente do Líbano, Joseph Aoun, em entrevista à Christiane Amanpour, da CNN, nesta sexta-feira (5)
“O povo libanês está de saco cheio com a guerra entre Israel e Hezbollah”, acrescentou. “Parem de interferir nos assuntos do Líbano.”
O 14º presidente libanês e ex-comandante do exército do país por oito anos assumiu, publicamente, uma posição histórica que nenhum de seus antecessores ousou assumir durante décadas em que o território libanês foi palco das guerras da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e, depois, do Hezbollah contra Israel.
A Síria do tempo do clã Assad tratava o Líbano como parte da “Grande Síria”. Quando desembarquei em Beirute para escrever sobre a reconstrução libanesa, finda a guerra civil e a ocupação israelense, foi um policial sírio quem examinou meu passaporte. Ao devolvê-lo, comentou: “Brasileiro… Deve ter custado caro”. Suspeitava que eu fosse um espião israelense.
Alguns dias depois, um sírio me abordou no hotel para perguntar se eu lhe venderia meu passaporte por 20 mil dólares. A Síria mandava no Líbano. Detonava bombas contra seus inimigos libaneses. Com a partida do líder da OLP, Yasser Arafat, para o exílio em 1982, o vazio foi ocupado pelo Hezbollah, braço armado da Guarda Revolucionária da República Islâmica.
“O Irã usa o Líbano como moeda de troca”, acusou Aoun. “Isto é inaceitável. Vocês não estão tentando nos ajudar. O povo libanês está pagando o preço pelos seus interesses. Nossos interesses não estão alinhados com os seus.”
Aoun não acredita em “soluções militares”. Por isso, aceitou reuniões diretas com Israel, pela primeira vez desde 1948. Elas podem evoluir para uma normalização das relações entre os dois países, tecnicamente em guerra há quase oito décadas.
O ponto mais concreto das negociações surgiu esta semana, na quarta rodada de conversas realizada no Departamento de Estado, em Washington. As delegações libanesa e israelense delinearam um plano de “zonas piloto” sob controle exclusivo do exército libanês, nas quais será proibida a presença armada do Hezbollah.
Trata-se da primeira tentativa prática de devolver ao Estado o monopólio da força no sul do país, uma região que, durante décadas, esteve sob a influência de organizações armadas palestinas, da Síria, do Hezbollah e de Israel.
As duas delegações também anunciaram um cessar-fogo próprio, paralelo ao proclamado pelo presidente Donald Trump. São iniciativas diferentes. O acordo negociado em Washington envolve diretamente Líbano e Israel. Já o cessar-fogo anunciado por Trump busca preservar o diálogo entre Estados Unidos e Irã para encerrar a Guerra do Golfo e evitar uma nova escalada regional.
O secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, rejeitou o acordo entre Líbano e Israel. Classificou-o como “humilhante e vergonhoso” e foi além: “A declaração de Washington condiciona os princípios básicos que os Estados Unidos e Israel desejam, visando a subjugação do Líbano ao projeto do Grande Israel”.
Sua posição coincide com a defendida por Teerã, e não com a linha adotada pelo governo libanês.
Para Aoun, a guerra de “Netanyahu e Hezbollah é fútil” e não levará “a nenhum objetivo final”. Existe, porém, uma “grande oportunidade” para que libaneses e israelenses vivam em paz e segurança. “Ambos têm que escolher: guerra ou diplomacia.”
Amanpour perguntou a Aoun se ele se encontraria com Netanyahu.
“Não antes de alcançarmos um acordo”, respondeu.
Sobre a rejeição do Hezbollah ao cessar-fogo, observou que negociações são sempre difíceis antes de um avanço significativo. “Mas, se o alcançarmos, poderá se tornar um marco rumo a uma paz justa e duradoura.”
O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, continua sendo o principal canal de comunicação entre Aoun e o Hezbollah. Sua posição acompanha a do Irã: os dois inimigos devem retirar-se simultaneamente do sul do rio Litani. O exército israelense já teria deixado uma área ao norte do Litani para a implementação da primeira “zona piloto”, segundo o entendimento alcançado em Washington.
“Estamos prontos, estamos dispostos, estamos comprometidos”, repetiu Aoun sobre as negociações com Israel.
E ao Irã deixou uma mensagem sem ambiguidades: “Parem de interferir nos assuntos libaneses.”
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