da Redação
05 junho 2026
Retomadas negociações de adesão da Ucrânia à UE.
A União Europeia decidiu reabrir as negociações de adesão da Ucrânia ao bloco, após meses de impasse provocado pelo veto da Hungria.
O avanço diplomático ocorre em paralelo ao desabafo do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, que, em carta aberta a Vladimir Putin, pediu um “cessar-fogo total” e afirmou que ninguém mais aguenta a guerra.
“A escolha é sua agora (Putin). Chega de guerra. A Ucrânia propõe pôr fim a esta guerra através de um diálogo direto entre nós — e o senhor. Estou a propor uma reunião”, escreveu Zelenski.
O presidente ucraniano insistiu que apenas conversações frente a frente poderão levar a um acordo sobre o território.
“Esta guerra é uma escolha pessoal sua”
Na carta, Zelenski foi incisivo ao responsabilizar Putin pela continuidade do conflito:
“Passou quase metade dos seus 26 anos no poder na Rússia a travar uma guerra contra a Ucrânia.”
“Independentemente do que possa ter dito sobre a OTAN, a geopolítica ou a língua russa, isso não passava de um falso pretexto para a guerra. Esta guerra é uma escolha pessoal sua — uma guerra sem causa real. É assim que a História a irá recordar.”
O presidente ucraniano também destacou o impacto humano da guerra:
“Estamos perdendo pessoas e cada perda é dolorosa para nós. Mesmo quando a proporção de perdas ucranianas para perdas russas é de um para cinco ou um para seis, isso continua a ter um peso enorme.”
Mudança em Budapeste destrava processo
A decisão europeia foi possível após a saída de Viktor Orbán do governo da Hungria e a chegada do reformista Péter Magyar ao poder.
O novo premiê anunciou um acordo com Kiev sobre os direitos da minoria húngara da Transcarpátia, tema que vinha sendo usado por Orbán para bloquear qualquer avanço:
“Chegamos a um entendimento que garante a proteção da comunidade húngara”, declarou Magyar.
Transcarpátia é uma região histórica e administrativa localizada no extremo oeste da Ucrânia, conhecida oficialmente como Óblast de Zakarpattia, cuja capital é Uzhhorod. Ela faz fronteira com quatro países — Hungria, Eslováquia, Polônia e Romênia — e abriga uma significativa minoria húngara, estimada em cerca de 100 mil pessoas, o que explica sua relevância nas negociações entre Kiev e Budapeste.
Com isso, os 27 embaixadores da UE em Bruxelas concordaram em retomar as conversas, consideradas o passo mais significativo desde que a candidatura ucraniana foi aberta, há quatro anos. A Moldávia, cuja candidatura está vinculada à da Ucrânia, também será beneficiada.
Pressão militar e política
O gesto europeu chega em um momento de forte tensão militar. Drones ucranianos atingiram recentemente a região de São Petersburgo, constrangendo o Kremlin às vésperas do Fórum Econômico Internacional.
Putin reconheceu os danos:
“Para nosso pesar, alguns deles conseguiram penetrar”, disse, prometendo reforçar a defesa aérea.
Ao mesmo tempo, Moscou intensificou ataques contra Kiev. Um bombardeio com drones russos matou quatro pessoas em Dnipropetrovsk, segundo autoridades locais.
Zelenski, em sua carta, reforçou que o desgaste da guerra é insuportável:
“Não tenha medo de seguir o caminho que leva para fora desta guerra. É isso que agora se exige, acima de tudo, de si.”
Reposicionamento da Hungria
Para Magyar, o aceno à Ucrânia também faz parte de uma estratégia de reposicionamento da Hungria dentro da UE. O novo governo busca recuperar acesso a € 16 bilhões em fundos congelados por violações do Estado de Direito durante a gestão Orbán.
“Este gesto é parte de um esforço para reconstruir a confiança com Bruxelas”, avaliou um diplomata europeu.
Sinal político
Diplomatas em Bruxelas ressaltam que a retomada das negociações não significa aceleração automática do processo, que envolve dezenas de capítulos técnicos e reformas profundas.
Ainda assim, o desbloqueio do veto húngaro elimina o principal obstáculo político imediato.
Para Kiev, o gesto europeu é visto como um sinal de apoio estratégico em meio ao desgaste da guerra:
“São os líderes que resolvem as questões fundamentais. Sempre foi assim e sempre será”, escreveu Zelenski, pedindo que Putin “marque uma data concreta para essa reunião”.
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