da Redação
05 junho 2026
Cuba pode estar vivendo últimos dias do regime comunista.
O encerramento do prazo concedido pelo governo dos Estados Unidos para que empresas estrangeiras cortassem vínculos econômicos com o Grupo de Administração de Empresas SA (Gaesa) agravou a crise financeira em Cuba. O conglomerado, gerido pelas Forças Armadas Revolucionárias (FAR), controla os principais setores comerciais, bancários e turísticos do país.
Sanções anunciadas em maio pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, determinaram o congelamento de ativos e o bloqueio de transações de companhias que operassem com o braço militar cubano. O aperto econômico de Washington gerou reações imediatas no setor hoteleiro e logístico.
As redes espanholas Meliá e Iberostar, a canadense Blue Diamond e a asiática Archipelago International anunciaram a suspensão total ou parcial de suas operações em parceria com a Gaesa. No setor de transportes, as transportadoras marítimas CMA CGM, da França, e Hapag-Lloyd, da Alemanha, interromperam suas rotas para os portos da ilha.
O Ministério das Relações Exteriores de Cuba informou que cartões das bandeiras Visa e MasterCard deixaram de ser aceitos no território devido ao fechamento das contas da Fincimex, instituição financeira do conglomerado militar, por bancos correspondentes internacionais.
Impacto no PIB e colapso no turismo
“A Gaesa é um conglomerado ao mesmo tempo comercial, financeiro e militar”, explicou o economista cubano Mauricio de Miranda Parrondo. “Trata-se de uma espécie de holding que controla, em situação de monopólio, uma série de atividades econômicas muito lucrativas em Cuba.” Levantamentos do setor apontam que o grupo gerencia cerca de 120 hotéis de luxo, redes de supermercados, postos de combustíveis e serviços de telecomunicações.
De acordo com o economista Pedro Monreal, as restrições ao comércio e a escassez de divisas podem resultar em uma retração de 15% no Produto Interno Bruto (PIB) cubano em 2026. A socióloga Mayra Espina Prieto estima que o índice de pobreza na ilha se situe entre 40% e 45% da população, em um cenário marcado por racionamentos de energia elétrica e desabastecimento de alimentos básicos.
O fluxo de visitantes internacionais em 2025 foi de 1,8 milhão de pessoas, o patamar mais baixo registrado desde 2002, desconsiderando o período de restrições sanitárias da pandemia de Covid-19.
Investimentos e falta de transparência
A destinação dos recursos da Gaesa é alvo de críticas por parte de economistas e opositores ao governo cubano. Em 2024, dados compilados pela agência de notícias EFE indicaram que 40% do orçamento público para investimentos foi direcionado ao desenvolvimento do turismo, montante que supera os aportes em saúde e educação somados. A construção da Torre K, um edifício hoteleiro de 42 andares em Havana operado até então pela Iberostar, tornou-se o principal símbolo dos aportes no setor, enquanto o país passou a depender da importação de gêneros agrícolas básicos.
“[Em Cuba, a Gaesa] é como um polvo, com seus tentáculos em todos os setores estratégicos para a economia”, disse Rafael Rojas, historiador.
Investigações publicadas pelo jornal americano Miami Herald indicam que o conglomerado militar geria ativos estimados em US$ 17,8 bilhões em 2024. A contabilidade do grupo, contudo, não é submetida ao Tribunal de Contas de Cuba ou ao Parlamento. A holding foi criada na década de 1990 sob a liderança de Raúl Castro, então ministro das Forças Armadas, como alternativa para financiar a estrutura estatal após o fim dos subsídios da União Soviética. A administração executiva é chefiada atualmente pela general de brigada Ania Guillermina Lastres Morera.
Negociações diplomáticas e mercado
Paralelamente às sanções, representantes das administrações americana e cubana mantiveram reuniões estratégicas para avaliar o cenário político regional. Encontros entre o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Ratcliffe, e chefes da inteligência cubana ocorreram em Havana.
O chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis Donovan, também se reuniu com o chefe do estado-maior das FAR, general Roberto Legrá Sotolongo, nas proximidades da base naval de Guantánamo. O mercado de mineração registrou movimentações decorrentes da nova conjuntura política. A mineradora canadense Sherritt, que operava a extração de níquel e cobalto na unidade estatal Moa Nickel SA, suspendeu suas atividades e iniciou o repatriamento de seus funcionários devido às sanções. Posteriormente, a companhia formalizou um acordo preliminar para a venda de 55% de seu capital ao fundo americano Gillon Capital, controlado pelo empresário Ray Washburne, aliado do presidente Donald Trump.
A reestruturação societária permitirá que a empresa solicite uma licença especial ao Departamento do Tesouro americano para retomar a exploração mineral em solo cubano.
Interesses
Dentro do contexto das pressões de Washington sobre o governo cubano, analistas e historiadores avaliam que as sanções americanas contra o conglomerado militar Gaesa também respondem a um forte interesse estratégico no potencial econômico, imobiliário e turístico que a ilha caribenha oferece.
O historiador cubano Rafael Rojas resume o cenário ao afirmar que a Gaesa funciona como um monopólio sobre os setores mais lucrativos do país, os quais são “justamente cobiçados pelos Estados Unidos”. Segundo o especialista, o interesse de Washington vai além da pressão política por uma transição de regime. “Estou convencido de que Trump faz parte de uma elite governante nos Estados Unidos que veria com muito bons olhos o desenvolvimento de suas atividades comerciais na ilha”, avalia Rojas.
Esse posicionamento é respaldado pelo próprio histórico do presidente americano, que, em sua trajetória como magnata do setor imobiliário, tentou registrar a marca “Trump” em Cuba com o objetivo de estabelecer empreendimentos ligados à hotelaria e à construção de campos de golfe. Em declaração formal sobre a política externa para a região, o presidente americano manifestou o interesse estratégico no território: “É uma bela ilha, um bom clima. (…) Quer eu a liberte ou a tome, acredito que posso fazer com ela o que quiser”.
A estratégia de asfixiar o braço financeiro das Forças Armadas cubanas e forçar a saída de redes europeias e canadenses — como Iberostar, Meliá e Blue Diamond — abriria caminho para que corporações americanas assumissem o controle desses ativos no futuro.
Para formuladores de política externa em Washington, como o secretário de Estado Marco Rubio, a abertura econômica de Cuba e o aproveitamento de seu potencial turístico e mineral dependem obrigatoriamente do desmantelamento do monopólio militar da Gaesa e de uma mudança no regime político de Havana.
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