A advogada Jennifer Dias, coordenadora do Instituto Human, de São Paulo, defendeu em entrevista ao programa BC TV, nesta quarta-feira (3), que a sociedade civil precisa assumir protagonismo na luta por direitos e políticas públicas voltadas às pessoas em situação de rua.
Para ela, o preconceito e a invisibilidade social são os maiores obstáculos à garantia de dignidade dessa população, cuja condição reflete falhas estruturais do Estado.
Jennifer destacou a importância do “advocacy público” e da participação social na promoção dos direitos humanos. “Advocacy seria tornar questões que são muito importantes para a sociedade, para o ambiente público. Trazendo políticas públicas com criações para sanar esses problemas sociais”, afirmou.
Ruído
Segundo a advogada, o conceito vai além da atuação jurídica. “Há um grande ruído generalizado com relação ao tema advocacy, porque muitas pessoas ligam advocacy ao direito. E não é apenas. Não fazemos advocacy apenas por meios jurídicos, mas também é possível a participação social, campanhas de conscientização, tanto o colhimento de dados, para que sejam apresentadas essas políticas públicas, informar por que é importante para o Estado assumir esse compromisso com a sociedade”, explicou.
Jennifer reforçou que o engajamento não deve se restringir a profissionais da área. “Então, não apenas advogados fazem advocacy. A sociedade civil deve fazer sim, para que a gente possa, de fato, ter o mundo, o país igualitário que nós queremos”, disse.
Ao tratar da população em situação de rua, ela apontou o preconceito como barreira central. “Há um estigma muito grande de que as pessoas que se encontram em situação de rua estão ali porque querem estar, como se fosse uma escolha, quando, de fato, não é. A partir do momento que uma pessoa se encontra em situação de rua é porque houve uma falha muito clara do Estado, falhou estruturalmente, seja na educação, seja apresentando oportunidade de emprego, de moradia”, declarou.
Percepção
Jennifer Dias ressaltou ainda a necessidade de mudança de percepção. “Primeiro, se faz necessário que a gente perca esse preconceito e observe a pessoa em situação de rua como uma pessoa detentora de direitos, tanto quanto nós que estamos aqui”.
Ela também destacou a importância da terminologia correta. “O termo adequado é ‘pessoas em situação de rua’, porque enfatiza a transitoriedade da condição e a necessidade de políticas que garantam sua reintegração social”.
Sobre o papel das empresas, Jennifer criticou a resistência em se associar à causa. “Há empresas que poderiam se vincular a causas infantis, mas não à população em situação de rua, porque há um preconceito muito grande entre sócios, entre os clientes, que não gostam de ter essa vinculação”, afirmou.
Para ela, a inclusão gera benefícios concretos. “Uma vez em campo, você conversa com essa população, você entende que ali tem um médico que está em situação de rua, que há um advogado, que há tantas pessoas capacitadas que poderiam integrar vagas, que poderiam crescer na empresa. E também, com isso, nós diminuímos muitos outros problemas. É uma atitude inteligente que as empresas façam essas ações, que eles abracem. Por mais que, talvez, a gente não faça por empatia, o que deveria ser, talvez, por inteligência, seria legal”, relatou.
Segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas, o Brasil tem hoje cerca de 358 mil pessoas em situação de rua, número que cresceu exponencialmente na última década, especialmente após a pandemia.
Iniciativas
Jennifer citou iniciativas do Instituto Human, como o núcleo “Na Rua Somos Um”, que busca garantir direitos básicos e evitar a criminalização de ações sociais. “Nós apresentamos um projeto de lei que se chama Solidariedade Não é Crime, que já foi protocolado, está em tramitação na Câmara Municipal (de São Paulo), que visa justamente tornar a nossa atividade, que é uma atividade de entregar um alimento, de entregar um cobertor, uma roupa para que aquela pessoa consiga ter o mínimo para sobreviver aquele dia”, afirmou.
Ela também mencionou a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2023, que determinou que estados e municípios implementem políticas públicas para acolher a população em situação de rua, reconhecendo a condição como “estado de coisas inconstitucional”. No entanto, alertou que a aplicabilidade ainda é limitada.
“São direitos básicos que todos temos, mas que para muitos permanecem inacessíveis. Precisamos de políticas públicas efetivas e de uma sociedade civil ativa para transformar essa realidade”, concluiu.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
População em situação de rua cresce e chega a 96 mil na capital paulista

Neste ano de 2025, a cidade de São Paulo registra cerca de 96 mil pessoas em situação de rua, segundo levantamentos oficiais.
Em janeiro, o CadÚnico apontava 93.355 pessoas vivendo nas ruas da capital. Em março, o número subiu para 96.220, de acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua.
No Estado de São Paulo, no mesmo período, foram contabilizadas 143.509 pessoas em situação de rua, evidenciando que o problema se estende além da capital.
Contexto e implicações
O crescimento foi mais lento em 2025 do que em anos anteriores, mas ainda revela uma crise estrutural. Entre 2023 e 2024, houve um salto de mais de 27 mil pessoas em situação de rua na capital paulista.
A prefeitura mantém o Painel da População em Situação de Rua e Vulnerabilidade Social, que acompanha abordagens e acolhimentos realizados pelas equipes da rede socioassistencial.
Especialistas apontam que o aumento está ligado a fatores como desigualdade social, desemprego, falta de moradia acessível e impactos da pandemia.
O que é o Instituto Human?

O Instituto Human, associação sem fins lucrativos, está presente no Brasil, México e Espanha desde 2017. A organização “atua para transformar vidas e ampliar o impacto social por meio de projetos voltados a populações em situação de vulnerabilidade”.
Com iniciativas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, a entidade organiza quatro frentes de atuação — Human Day, Fest Pra Rua, Brilho das Manas e Manos e Human Sem Fronteiras — além de levar sua experiência para empresas pelo programa Human In Company, que promove ambientes mais diversos, inclusivos e responsáveis.
O Instituto Human conecta voluntários e empresas a pessoas em situação de vulnerabilidade, reforçando o compromisso com uma transformação social ampla e estruturada.
A atuação envolve populações em situação de rua, refugiados, imigrantes e a comunidade LGBTQIAPN+, além de iniciativas voltadas à democratização da cultura.
O trabalho também se estende à capacitação. No Human Academy, são desenvolvidos conteúdos, treinamentos e workshops voltados a voluntários e profissionais que desejam transformar realidades. A proposta é unir conscientização e prática, formando agentes de mudança em diferentes áreas.
“Onde há necessidade, há ação. Onde há propósito, há transformação” é o lema que orienta a instituição, que se consolidou como referência internacional em impacto social.


