A gestão municipal de São Paulo destinou R$ 420 mil para a compra de 5.250 kits de vinho que serão distribuídos como brindes durante o Arnold Sports Festival South America 2026, evento voltado ao setor de fisiculturismo, nutrição e bem-estar. A denúncia foi apresentada pelo vereador Nabil Bonduki (PT), que questiona a natureza do gasto e a escolha do item para um evento de promoção da saúde.
O valor faz parte de um repasse total de R$ 1.684.035,00 oficializado pela Secretaria Municipal de Turismo (SMTUR) por meio de um termo de patrocínio com o Instituto de Desenvolvimento, Turismo, Cultura, Esporte e Meio Ambiente (IDTCEMA). A parceria foi firmada sem processo licitatório, modalidade comum em convênios com entidades do terceiro setor.
Itens de luxo e saúde
De acordo com o orçamento apresentado pela ONG e obtido pelo parlamentar, cada unidade do “Kit Vinho” custará R$ 80,00 aos cofres públicos. O conjunto inclui tampa para bico, saca-rolhas metálico com lâmina de corte, abridor de garrafas e estojo com berço de espuma.
Para Bonduki, há uma “inadequação flagrante” entre o objeto do gasto e o propósito do festival. “É incompreensível que a Prefeitura utilize recursos públicos para distribuir milhares de kits de bebidas alcoólicas em um evento que tem como pilares a saúde, o fitness e a nutrição esportiva”, afirmou o vereador. “O volume de recursos e a natureza do brinde exigem uma explicação detalhada sobre o interesse público dessa despesa.”
O Evento
O Arnold Sports Festival, organizado pelo Savaget Group, está agendado para ocorrer entre os dias 24 e 26 de abril no Expo Center Norte. Considerado o maior evento multiesportivo da América Latina, a feira conta com a presença de influenciadores do mundo fitness e competições de diversas modalidades, como o bodybuilding e artes marciais.
O extrato do termo de patrocínio (Nº 006/2026-SMTUR) indica que o acordo foi assinado em 7 de abril de 2026, com vigência até julho do mesmo ano. O documento traz as assinaturas de Erlon da Silva Lopes, chefe de gabinete da SMTUR, e de Bruno Hideo Omori, sócio-administrador do IDTCEMA.
Justificativas oficiais
Em documentos internos, a Prefeitura argumenta que o patrocínio atende aos princípios da economicidade e do interesse público, sustentando que o festival gera impacto econômico superior ao de outras iniciativas isoladas de fomento ao turismo. A análise técnica cita projeções de 105 mil visitantes e uma injeção de R$ 45 milhões em diárias hoteleiras e R$ 23,5 milhões em gastronomia, segundo dados da Federação de Hotéis, Bares e Restaurantes do Estado de São Paulo (FHORESP). A cadeia produtiva seria beneficiada em 52 segmentos distintos, com destaque para comércio, logística e transporte.
Ainda segundo os relatórios, a edição de 2025 teria movimentado R$ 1 bilhão em negócios, reforçando a magnitude do evento e sua capacidade de atrair empreendedores e turistas.
Plano de aplicação
O detalhamento do orçamento mostra gastos como R$ 480 mil para locação de espaço e estrutura de exposição, R$ 280 mil para curadoria e planejamento, R$ 150 mil para assessoria de imprensa e produção de imagens, além de R$ 381,5 mil para contratação de staff. Também estão previstos R$ 7,3 mil para coffee break e R$ 5,2 mil para placas de premiação.
Apesar do elevado volume de recursos públicos investidos, não há previsão de distribuição gratuita de ingressos para o público nem de benefícios para atletas de menor renda. Os ingressos para a feira variam de R$ 117,50 (meia-entrada) a R$ 235,00 (inteira), com opção solidária de R$ 175,00 mediante doação de alimentos ou calçados.
Críticas e investigação

Para Bonduki, os números apresentados pela gestão são inflados e carecem de lastro. “A estimativa de público é comparável ao Lollapalooza, o que não se sustenta. É preciso esclarecer por que esse tipo de despesa foi considerado adequado e quem, de fato, se beneficia dessa decisão”, disse.
O parlamentar anunciou que acionará a Controladoria do Município e o Tribunal de Contas para investigar os critérios adotados e a pertinência dos gastos. “Não podemos compactuar com o uso de recursos públicos para a distribuição de kits de vinho, especialmente em um contexto de tantas prioridades urgentes na cidade”, afirmou.
Outro lado
Procurada para comentar a finalidade da distribuição dos kits e os critérios para o repasse à ONG, a Secretaria Municipal de Turismo ainda não detalhou por que a distribuição de acessórios para vinho foi incluída no plano de trabalho de um evento esportivo. O espaço permanece aberto para manifestação da administração municipal e do instituto IDTCEMA.





