O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. (Reprodução/TV)


O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, reconheceu publicamente nesta segunda-feira (28) que o país sofreu graves impactos econômicos e estruturais em decorrência do conflito armado em andamento com os Estados Unidos e Israel. Apesar do diagnóstico adverso, o mandatário insistiu que a República Islâmica permanece “totalmente capaz de defender os direitos de nossa nação com força”, buscando equilibrar o realismo interno com uma postura de firmeza geopolítica diante da comunidade internacional.

As declarações ocorreram durante uma reunião de alto escalão com agências executivas, sob a chancela do Conselho de Informações do Governo. O encontro, que contou com a presença de vários membros do gabinete ministerial, serviu de palco para uma retórica de transparência incomum nos canais oficiais de Teerã. Pezeshkian enfatizou que os líderes iranianos devem evitar discursos triunfalistas e falsas narrativas. “Devemos evitar qualquer tom ou vozes que criem divisão, mas também devemos enfrentar a realidade; não é o caso de não termos sofrido danos”, afirmou o presidente em trechos transmitidos pela televisão estatal.

Em uma crítica velada à propaganda oficial de consumo interno, Pezeshkian defendeu uma postura de honestidade com a sociedade civil. “Qualquer pessoa em uma posição de liderança deve falar honesta e transparentemente com sua sociedade e seu povo”, declarou. O presidente qualificou como “inaceitável” a divulgação de informações enganosas ou mensagens falsas que tentem retratar um cenário fictício no qual “eles estão entrando em colapso enquanto nós estamos prosperando”. Segundo ele, a verdade factual é que tanto o Irã quanto as demais potências enfrentam desafios profundos com o prolongamento das hostilidades.

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Pezeshkian insistiu que, embora o Irã continue a se envolver na via diplomática, o país “não se curvará à pressão” externa. “Não sacrificaremos a dignidade e a honra do nosso país por conforto ou conveniência. Temos razões válidas e justificativa clara, e somos totalmente capazes de defender os direitos de nossa nação com força, apoiados por nosso povo”, concluiu.

Sinais cruzados na mesa de negociações

O reconhecimento dos danos econômicos coincide com informações de bastidores sobre as negociações diplomáticas para um cessar-fogo permanente. A mídia estatal iraniana veiculou nesta segunda-feira que o governo dos Estados Unidos teria concordado em suspender temporariamente as sanções que sufocam as exportações de petróleo bruto do Irã. A medida teria o objetivo de aliviar as tensões de mercado e pavimentar o caminho para um acordo de paz definitivo, reduzindo o temor imediato de uma nova escalada de violência na região.

A informação, publicada inicialmente pela agência de notícias semi-oficial Tasnim, cita uma fonte anônima próxima à equipe negociadora iraniana. De acordo com o relato, a mais recente proposta de rascunho enviada por Washington inclui uma cláusula de renúncia às sanções energéticas vigentes, válida pelo menos durante o período de vigência das negociações de paz. No entanto, o otimismo inicial foi matizado por declarações subsequentes da própria agência, que apontaram a persistência de “diferenças fundamentais decorrentes de exigências excessivas e falta de realismo por parte dos americanos”.

A Casa Branca, sob a administração do presidente Donald Trump, não confirmou oficialmente a concessão. No domingo, Trump havia advertido Teerã de que o tempo estava se esgotando para a assinatura de um tratado que pusesse fim à guerra de forma definitiva. De acordo com fontes iranianas, Washington exige que o país entregue suas reservas de urânio enriquecido e imponha severas restrições ao seu programa atômico como contrapartida para a paz estável — exigências que Teerã qualifica como “desculpas políticas contrárias aos direitos do povo iraniano”. “Os americanos devem entender que o Irã nunca aceitará o fim da guerra em troca de compromissos nucleares”, sublinhou a fonte oficial, reiterando que o regime não busca o desenvolvimento de armamentos nucleares.

Volatilidade e reação dos mercados

O vaivém das negociações diplomáticas gerou reflexos imediatos nas principais praças financeiras e nos mercados de commodities. Antes da divulgação do relatório da agência Tasnim, os mercados de ações operavam em forte queda na Ásia e os índices europeus abriram no terreno negativo, pressionados pela advertência de Trump de que o relógio político estava correndo contra o Irã.

Após a circulação da notícia de uma potencial suspensão das sanções ao petróleo, os preços do barril recuaram ligeiramente, o que permitiu uma estabilização global. O petróleo bruto Brent, referência internacional, registrou uma leve queda de sete centavos de dólar, sendo negociado próximo a US$ 108 por barril — um patamar ainda historicamente elevado se comparado aos US$ 70 registrados em fevereiro, antes do início do conflito. Nos Estados Unidos, o petróleo de referência recuou 33 centavos, fixando-se em cerca de US$ 102 por barril.

O alívio na cotação da energia impulsionou uma modesta recuperação em Nova York. O índice S&P 500 abriu em alta de 0,1%, acompanhado pelo Dow Jones, que somou 33 pontos, e pelo Nasdaq, com avanço de 0,2%. Analistas de mercado apontam que a volatilidade continuará imperando enquanto não houver um anúncio formal de trégua. Para Fawad Razaqzada, analista da Forex.com, a sinalização americana representa “um bom primeiro passo, se confirmado”, mas o ambiente global permanece sob forte compasso de espera diante da intransigência de ambas as partes em abrir mão de suas linhas vermelhas estratégicas.