O sócio-diretor da Borgatti Consulting e escritor, Ricardo Borgatti, durante entrevista ao BC TV


Mesmo com parte dos setores industriais registrando aumento de produção, a indústria brasileira dá sinais claros de perda de fôlego. A expectativa de demanda caiu para 51,3 pontos, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o pior nível para um mês de novembro desde 2016. O movimento acende um alerta para o início de 2026, especialmente em um cenário de crédito restrito e juros ainda elevados.

Especialista em eficiência industrial, Ricardo Borgatti, sócio-diretor da Borgatti Consulting, de São Paulo, traçou um diagnóstico da situação em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, nesta quarta-feira (10). Ele explicou por que muitas empresas continuam produzindo acima da demanda real, inflando estoques e pressionando o caixa. Segundo Borgatti, decisões baseadas em modelos tradicionais de apuração de custos têm levado companhias a riscos significativos, distorcendo a leitura dos resultados e potencialmente comprometendo a saúde financeira já no próximo ano.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

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Camila Srougi – Muitos setores estão produzindo mais, mas a expectativa de demanda desacelerou. Como explicar esse descompasso entre produção e consumo e que sinais a indústria está enviando para o começo de 2026?

Ricardo Borgatti – Desde o segundo trimestre já havia sinais de queda na indústria de transformação, que representa mais de 50% do setor. Em agosto, o faturamento caiu mais de 5%. Quando a produção supera a demanda futura esperada, surgem riscos. Em alguns casos, pode ser reflexo de pedidos em carteira ainda não atendidos.

Mas, na prática, a maioria das empresas se baseia em planos passados que não refletem a venda atual nem a demanda futura. Isso leva a estoques elevados e impacto no caixa. Se a demanda não se concretizar, o início de 2026 pode ser bastante desfavorável, especialmente em um ambiente de crédito restrito e juros altos.

Camila Srougi – Seu trabalho tem foco em eficiência. Em cenários de incerteza, empresas costumam cortar custos, mas nem sempre melhoram processos. Qual o erro mais comum ao enxugar a operação e o que deveria ser feito?

Ricardo Borgatti – Muitas decisões de corte ainda se baseiam em critérios tradicionais de rateio de custos, e a mão de obra direta acaba sendo alvo imediato. Em indústrias de capital intensivo, com grandes equipamentos e tecnologia, a mão de obra tem peso cada vez menor, mas continua sendo o critério mais usado. O correto é alinhar fluxo de valor, demanda e capacidade.

Cortar mão de obra pode ser um erro grave, pois recuperar, treinar e qualificar depois é difícil. O foco deve ser eliminar desperdícios reais e usar a capacidade para aumentar a margem bruta, em vez de perseguir margens relativas que, muitas vezes, distorcem os resultados.

Germano Oliveira – Em muitos casos, o lucro contábil cai, mas o caixa melhora. Que mensagem esse desencontro passa sobre a saúde financeira das empresas?

Ricardo Borgatti – Quando se produz mais do que se vende, o custo fixo industrial é transferido para os produtos e vira custo variável. Esse custo é estocado. Ao desestocar, o lucro contábil pode cair ou até ficar negativo, mas o caixa melhora. Muitos não entendem como é possível vender mais, produzir menos, ter menos lucro e ainda assim mais caixa.

Isso ocorre porque o prejuízo escondido no estoque é resgatado. A DRE complica essa leitura e leva a decisões equivocadas sobre o papel do lucro contábil e do caixa.

Germano Oliveira – No seu livro Finanças para Operações Enxutas, o senhor afirma que boa parte das distorções nasce do modelo tradicional de apuração de custos. Que erros invisíveis esse modelo cria?

Ricardo Borgatti – O principal é estocar o custo fixo. Esse modelo, criado no início do século XX, tinha objetivos fiscais e patrimoniais, mas não evoluiu para apoiar decisões em ambientes complexos, com juros altos e diversidade de produtos. O resultado é uma falsa sensação de lucro. Muitas empresas produzem mais do que vendem para reduzir o custo unitário contábil, mas pagam caro no longo prazo.

Outra armadilha é perseguir margens relativas e eliminar produtos que, mesmo com margens menores, ainda contribuem positivamente. Isso piora o resultado.

Germano Oliveira – Conheci um empresário no Paraná que trabalhava com estoque zero, comprando peças apenas quando havia demanda. O Japão também adotou esse modelo. Isso funciona?

Ricardo Borgatti – Funciona em alguns segmentos, mas exige cuidado. Em setores com concorrência intensa, como o farmacêutico ou de bens de consumo, é preciso calcular estrategicamente estoques mínimos de segurança. Em mercados que toleram, usar o estoque do concorrente pode ser viável. Mas em produtos mais próximos de commodities, isso não é possível.

O ponto central é evitar estoques desnecessários, mantendo apenas os estratégicos e operacionais.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Conheça a trajetória de Ricardo Borgatti

Ricardo Borgatti Neto construiu sua trajetória profissional a partir de uma sólida formação acadêmica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em engenharia.

Ao longo de mais de três décadas de experiência no mercado, Borgatti se especializou em projetos de consultoria voltados para a indústria, atuando em empresas de diferentes portes e setores.
À frente da Borgatti Consulting, empresa que fundou e dirige, ele desenvolve soluções voltadas para a gestão de operações de alta performance.

A consultoria tem como foco indústrias de manufatura, incluindo segmentos como farmacêutico, alimentício, têxtil e cosméticos. O objetivo é apoiar companhias na transformação de seus processos, equipes e modelos de gestão, com ênfase em metodologias de Lean Transformation e ganhos de competitividade.

No campo editorial, Borgatti também se destaca. É coautor do livro “Finanças para operações enxutas: Lean Accounting”, publicado pela LC Books e lançado em novembro último.

A obra, escrita em parceria com Roberto Aguiari e Eduardo Balian, reúne 340 páginas e se propõe a ser um guia prático para gestores, controllers e CEOs interessados em alinhar finanças e operações dentro da lógica enxuta.

Além disso, a Borgatti Consulting divulga conteúdos técnicos e artigos voltados para desafios da cadeia de suprimentos e da governança empresarial, reforçando sua atuação como produtor de conhecimento especializado.

O estilo de Borgatti combina rigor acadêmico com prática empresarial, sustentado por uma carreira que atravessa diferentes fases da indústria brasileira. Sua produção intelectual e consultiva reflete uma preocupação constante com a modernização de processos e a ruptura de modelos tradicionais, buscando transformar a gestão industrial em vantagem competitiva.