Marcos Clementino*
Se fizermos a pergunta sobre o que é mais importante — os ovos de ouro ou a galinha que os põe — a resposta lógica seria proteger a galinha. Afinal, se você perder um ovo, pode conquistar outro, desde que a fonte de riqueza se mantenha intacta. Proteger a galinha é preservar a capacidade de gerar mais ovos, sem correr o risco de perder tudo. A lógica é simples e até uma criança no jardim de infância entenderia.
Porém, na prática, no Brasil, até pessoas instruídas e com boa condição financeira cometem o erro de proteger os ovos e não a galinha. O óbvio é ignorado, e só aceitamos a metáfora da galinha quando ela assume um tom lúdico, como nas fábulas.
Celulares, carros, laptops, casas — esses “ovos de ouro” conquistados com tanto esforço acabam sendo priorizados. São valiosos, sem dúvida, mas será que não deveríamos, antes, proteger quem gera essa riqueza? Ou seja, proteger a si mesmo e a nossa fonte de renda.
Escolhi o termo “ignorância” porque ele reflete bem essa mentalidade. Vamos aos números, cuidadosamente coletados, para comparar o risco do ovo e da galinha. E aqui está a ironia: o brasileiro é mestre em criticar e sugerir soluções para os outros, mas falha em tomar decisões simples quando se trata de seu próprio planejamento financeiro — algo que pode ter um impacto irreversível.
Em 2022, o Brasil registrou 373.225 ocorrências de roubo e furto de veículos (automóveis, motocicletas, bicicletas, vans, caminhões e outros). Considerando a frota de 115,1 milhões de veículos, a chance de ter o seu carro roubado foi de 0,32%.
No mesmo ano, o Brasil registrou aproximadamente 1,5 milhão de óbitos, o que representa uma chance de 0,70% de falecer — mais do que o dobro do risco de perder o carro.
Lógica simples: se você deve se proteger, proteja o que é mais arriscado e, talvez, o mais importante. E uma coisa é certa: todos nós, um dia, partiremos. Mas nem todos terão o carro roubado, por mais violento que seja o país.
Ainda assim, três a cada 10 carros têm seguro, enquanto apenas uma a cada 10 pessoas possui um seguro de vida. Protegemos os bens, mas não quem os torna possíveis.
Há ainda aqueles que dizem: “Não vou deixar nada para o Ricardão” — uma forma de fugir da responsabilidade de garantir o sustento da família. Mas, no fim, o que está em jogo não é só o que se deixa para os outros, mas a própria capacidade de manter a sua geração de renda — a galinha — funcionando sem interrupções.
Em 2019, o IBGE apontou que 24,6 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de invalidez, o que representa 11,54% da população. São 430 mil novos casos por ano, decorrentes de acidentes ou doenças graves. Além disso, doenças como AVC, câncer e problemas cardíacos afetam 3,125 milhões de pessoas anualmente, representando 1,47% da população.
O Brasil ainda registra 12 milhões de internações hospitalares anuais, sendo 70% delas não eletivas (não planejadas). Essas estatísticas revelam que o risco de perder a capacidade de gerar renda é muito maior do que o de perder bens materiais.
Assim, a escolha entre o ovo e a galinha se torna clara. Não adianta mais as desculpas: “Vou pensar nisso depois”, “Agora não dá, estou priorizando o seguro do carro”, “Vou falar com minha esposa” ou “Eu tenho dinheiro guardado”. Essas justificativas não fazem sentido quando a vida nos surpreende com imprevistos. Nesse momento, os bens podem virar poeira, e o que fica é a incapacidade de gerar mais recursos, levando à necessidade de “vaquinhas” para conseguir tratamento ou até mesmo sobreviver.
Culpar políticos ou figuras públicas pela falta de planejamento financeiro não resolve nada. Focamos nas falhas dos outros e ignoramos nossas próprias responsabilidades, especialmente nas finanças pessoais, que são essenciais para nossa sobrevivência e estabilidade.
Além disso, o seguro de vida é uma ferramenta fundamental não só para garantir a continuidade da geração de renda, mas também para evitar desentendimentos e brigas familiares em momentos difíceis, como no processo de inventário, quando a herança é dividida entre herdeiros. A falta de planejamento gera conflitos, algo que uma simples apólice poderia evitar.
No Brasil, o imposto sobre heranças (ITCMD) varia de 4% a 8%, e não faltam políticos dispostos a aumentar esse teto. Desde 2019, foi apresentado o Projeto de Resolução nº 57/2019, de autoria do Senador Cid Gomes (PDT), visando que a alíquota máxima fosse elevada para 16%. Além disso, em 2020, a então senadora e atual Ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, comentou sobre a possibilidade de aumento da alíquota do ITCMD para até 30%.
Enquanto políticos buscam mais formas de aumentar os custos da população devido à ineficiência da gestão pública, o brasileiro parece não se importar tanto. De acordo com dados da CNseg, FenSeg e FenaPrevi, apenas 18% da população adulta brasileira possui seguro de vida. Em comparação, no Japão, cerca de 89,2% das famílias têm esse tipo de proteção, e nos Estados Unidos, o número chega a 70%.
Muitas pessoas podem argumentar: “Mas olha o preço do ovo e do café no Brasil. Quem vai pensar em seguro de vida, meu amigo?”
Eu entendo. Ninguém deve sacrificar o prato de comida para pagar por um seguro. No entanto, quando se escolhe gastar com luxos como camarotes ou bebidas caras, o raciocínio é outro. A escolha é de cada um, mas não podemos depois culpar os outros pelas nossas decisões. Se você escolhe o ovo, aproveite-o. Mas lembre-se: sem a galinha, não há ovo.
Quem sabe, no futuro, algum político propõe um incentivo fiscal para a contratação de seguros de vida, semelhante ao que ocorre com a previdência privada. Isso não só estimularia a economia e aumentaria a conscientização, mas também geraria empregos no setor e proporcionaria um alívio para as famílias em momentos de necessidade.
Enquanto isso não acontece, precisamos fazer a nossa parte. A pergunta, então, é clara: no planejamento financeiro, quem vem primeiro — o ovo ou a galinha?
*Marcos Clementino é jornalista e ex-correspondente de TV na Europa. Foi finalista do renomado prêmio Walkley Awards de melhor cobertura de jornalismo investigativo em New South Wales, na Austrália, em 2012. Em 2017, recebeu o Troféu Periferia, considerado o “Óscar da Quebrada”, idealizado pela ORPAS – Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais, em reconhecimento ao seu trabalho e contribuição à comunidade. Ainda em 2017, seu legado foi eternizado no bairro de origem com um mural de grafite, o Feras do Campo Limpo, assinado pelo artista plástico Gerri Allves, retratando seu rosto na principal via de acesso à região.
É autor de três livros: Paris, Sexta-Feira 13, Olho Vivo, Faro Fino! e O Tubarão da Berrini, obras que compartilham suas experiências pessoais, desafios e reflexões sobre a sociedade, além de trazerem elementos do seu percurso profissional.
Além de sua trajetória jornalística, Marcos Clementino é sócio-diretor da MMC Benefits, acionista da Eats For You e franqueado da Prudential do Brasil, consolidando-se também como empresário e especialista no mercado de seguros.




